Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

A propósito do que tenho dito recentemente sobre a língua inglesa, lembrei-me hoje de falar duma estação de rádio que passa música suave, muito agradável de ouvir, a Smooth FM (smoothfm). Os intérpretes mais habituais são cantores com afindades com a pop, o blues e o jazz. Felizmente, há muita música e falam pouco, porque…quando falam…é um desatre. Usam uma espécie de textos que servem de separador e que se destinam exclusivamente à autopromoção. Passo a citar: «Música para ser degustada…Smooth FM…and all that jazz…com Banif music….the best of» Perceberam? Pois, eu também não, a não ser que me parece terem algum patrocínio do Banif. As quatro expressões em inglês estão desligadas, sem sintaxe, mas com uma preposição portuguesa. Provavelmente, os locutores quererão dizer algo, mas não se percebe bem o que será.

Depois, têm outros pequenos separadores que rezam assim:

– «Smooth FM….tão requintado como um risotto al tartufo no Per Se….»

– «Smooth FM….tão excitante como um birdie….»

– «Smooth FM….tão perfeito como o Christie’s de Nova Iorque…»

Algumas explicações (vou tentar): o Per Se é um dos melhores restarantes de Nova Iorque em que se paga cerca de 300 dólares por refeição (1 pessoa); um birdie é uma resultado de golfe: faz-se um birdie quando se consegue enfiar a bola no buraco com menos uma pancada do que as previstas para o buraco em causa. Já a referência à leiloeira Christie’s parece clara, só não se entende o que é que tem de especial a de Nova Iorque, quando estamos a falar duma firma com sedes em Amsterdão, Genebra, Londres, Milão, Paris, Zurique, Bombaim, Dubai, Hong-Kong e Xangai, para além de Nova Iorque, claro, que deve ser  uma cidade muito amada pelos locutores da Smooth FM.

Estes pequenos textos parecem mesmo sair da “imaginação” de alguém muito habituado a ler revistas de viagens e de frivolidades. Enchem a boca a falar de bens de consumo (golfe, restaurantes caríssimos, leilões para venda de obras artísticas) só ao alcance de privilegiados, para se darem ares de “entendidos”, de pessoas “com gosto”. Como se a música suave fosse exclusiva de gente que está bem na vida. Ridículo, mas revelador: num país periférico, que historicamente depende muito das suas relações internacionais, parece existir em alguns sectores da opinião pública uma subserviência ridícula perante a cultura internacionalmente dominante. O enlevo com que os locutores da Smooth FM olham para Nova Iorque não é diferente da subserviência embasbacada com que uma parte das elites portuguesas olhava para Paris há um século.

Admito que já tenha havido críticas de outros ouvintes, pois recentemente tem havido menos insistência neste tipo de separadores sobre mitos do luxo. Suponho que a situação do país obrigue a alguma contenção nesta matéria. Em vez disso, temos textos azeiteiros como:

–  «Smooth FM….tão desafiante como o seu próprio projecto de trabalho…»

Vou concluir, tentando ser construtivo: acabem lá com os separadores de autopromoção, que são mesmo execráveis. Os vosso ouvintes não os merecem. É uma pena “borrarem a pintura” com esses textos, pois há muita coisa boa para além da música que passam: os noticiários são curtos, informativos, muito profissionais. Os locutores são muitíssimo bons (dicção, voz, etc.).

  • http://lx flipe

    Mesmo assim não troco a Smooth pelas restantes rádio-tragédias ..pelos humoristas que se alimentam das desgraças e tristezas..