Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Dado que recebi algumas reacções adversas de pessoas minhas amigas, regresso ao tema para me explicar melhor. Começo por colocar a questão nos termos que ela me interessa: se Portugal, por algum milagre, dispusesse de cerca de 40 milhões de euros adicionais para investir em bens culturais, quantos dos senhores especialistas da área diriam que uma boa ideia seria gastá-los para comprar 85 quadros de Joan Miró? Peço, por favor, que sejamos lógicos: se a dita colecção de 85 quadros é assim tão importante por que motivo não houve uma única oferta séria para a adquirir? Admito que tenha havido quem a tenha querido adquirir a preços de saldo, mas vendê-la nessas condições seria um disparate. Mas, os países prósperos? Os museus com dinheiro para aquisições? Apareceu alguém? Népia.

Segunda questão suscitada pelos entusiásticos projectos já propostos de criar um núcleo de obras de Miró em Portugal para “rentabilizar” a colecção. Quem, no seu perfeito juízo, é que se lembraria de escolher Lisboa como destino turístico por haver aqui um espólio de 85 obras de Miró? Há uma fundação Miró em Barcelona, outra em Palma de Maiorca e há dezenas de museus espanhóis com obras de Miró nos seus acervos, sem falar de museus noutros muitos países com obras do dito artista, muito conhecido pelo seu estilo inconfundível, mas também pelo facto de ter criado um número impressionante de obras de arte. Todos os especialistas reconhecerão que Miró pintou demais e, sobretudo, pintou demais os mesmos tipos de quadros. Qual seria então para Portugal a vantagem de também dispor dos seus 85 Mirós? Mostrar-mos que somos uma espécie de pequenina Espanha, muito empenhada em celebrar um pintor catalão? Com dinheiro público? Parece-me que Espanha não precisa propriamente da nossa ajuda para promover a sua cultura no estrangeiro. Como se vê actualmente em Lisboa, o museu do Prado exporta exposições; o Teatro Real de Madrid vai receber subsídios públicos (espanhói, é claro) para apresentar um espectáculo de zarzuela no Teatro de S. Carlos em Lisboa. A que propósito é que deveriamos gastar dinheiros públicos portugueses para ter um museuzinho com obras de Miró em Portugal? Quando não há dinheiro para abrir o Museu dos Coches? Quando o Museu do Chiado não tem verbas para adquirir obras? Quando estão a ser cortados os apoios a instituições como a Fundação de Serralves? 40 milhões de euros para podermos ficar contentinho com 85 obras de Miró? Porquê? Tem alguma ligação com Portugal, para além de ser daqui da peninsula que partilhamos com outros povos de Espanha? É essencial para a investigação? Para o turismo? Para a cultura em Portugal?

O jornal Público de hoje chega ao desplante de sugerir ocupar a extensão do Museu do Chiado com os 85 Mirós. E as obras do acervo do Chiado que estão encaixotadas há anos por falta de espaço para serem expostas? Será que, mais uma vez, com uma idiotice deste tipo, vamos ficar privados mais uma série de anos de poder fruir do acervo dos séculos XIX e XX do Museu do Chiado?

Desculpem não me ocupar das questões políticas levantadas por vários activistas da oposição. Eu percebo que se aproximam eleições e há que mostrar serviço para poder mostrar “patriotismo cultural”. Como de costume, tudo está a ser discutido em torno de competências jurídicas deste ou daquele. O PSD, se estivesse na oposição, faria exactamente o mesmo que lhe estão a fazer, certamente com os mesmos argumentos jurídicos, esse vício pornográfico da política portuguesa. Admito que tenha havido falhas graves na gestão do processo, mas isso não é o esencial. O que interessa é que, pelos vistos, o PS já conseguiu com esta questão a reacção atávica dos patrioteiros, numa repetição daquilo que fez com Foz Coa há mais de uma década. Quem puder, vá a Foz Coa, vá lá ver o enorme desenvolvimento que foi proporcionado pela saga das gravuras “que não sabem nadar”. Vá lá ver em que é que resultou a campanha bem orquestrada para salvar as tais “gravuras”, como Foz Coa se desenvolveu, se tornou num local incontornável do turismo cultural, uma espécie de Altamira portuguesa.

Miró e Foz Coa parece-me ser uma associação de ideias bem interessante. Desculpem não me rever na pequenez das ambições da nossa opinião pública, mas a minha noção de patriotismo obriga-me a querer mais para o meu país do uns “desenhos” promovidos por alguns arqueólogos ou uma colecçãozeca de quadros dum pintor prolífero.

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  • Alguel

    Sobre os Mirós até concordo que a sua venda por um valor justo seja adequado.
    Agora sobre Foz Coa … suponho que conheça Altamira em Espanha. Foz Côa faz sentido, recomenda-se é de estimar e de louvar. Acredito que não as saibamos promover como os espanhóis fazem com Altamira. Não sejamos broncosauros.

  • http://www.enxuto.org Miguel RM

    Altamira foi descoberta e promovida numa época muito diferente da de hoje. Foz Coa pode ser muito interessante, apesar das minhas dúvidas. Contudo, só peço que façam continhas ao que aquilo já custou e aos benefícios que deveria ter trazido. Sei que serviu de arma de aremesso político, sei que serviu para mobilizar as indignações culturais selectivas tão características cá da terrinha, sei que serviu mais uma vez para demonizar as “terríveis” barragens, mas o que mais? Acha que o que lá está justificou o espalhafato e a despesa?