Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Eppur si muove

27 de Dezembro, 2013 por Miguel RM

Os inimigos do acordo ortográfico (AO) andam outra vez muito animados: desta vez, a animação deve-se ao facto de ter havido algum recuo na sua aplicação no Brasil. Até embandeiraram em arco com a vinda a Lisboa de dois senadores brasileiros que estão na origem da suspensão da sua aplicação no Brasil. Note-se que aos anti-acordistas nem lhes interessa o facto de os ditos senadores quererem um acordo ainda mais radical, defendendo nomeadamente que se suprima os “h” iniciais em palavras como humidade, hidra, hóstia, etc. O que interessa é haver lenha para a campanha anti-acordo que tanto anima as hostes patrioteiras.

Os meus leitores sabem muito bem que também não aceito o radicalismo pró-acordo, que só tem dificultado a questão, extremando posições numa matéria em que tal extremar não faz mesmo falta nenhuma.  Adiante…

Há pouco tempo assisti a uma novidade liguística interessante nas transmissões em diferido da Metropolitan Opera de Nova Iorque, que estão integradas na temporada Gulbenkian de Música. Enquanto em épocas anteriores as legendas eram em inglês, neste ano passaram a ser em português. Eis o aviso que figura no programa: “Tendo o MET Opera in HD oferecido recentemente legendagem em português do Brasil, passamos a apresentar esta opção nas nossas transmissões, em lugar da legendagem em inglês”. Foi muito interessante ouvir as recções do público a esta “novidade”: de um lado, há os que não suportam estar a ouvir (ler, no caso em apreço) todas as personagens tratarem-se por “você” a torto e a direito, quer sejam homens, mulheres, velhos ou novos, heróis ou  vilões. As mesmas pessoas que aceitam com normalidade que toda a gente seja “you” em inglês têm os maiores problemas em que haja no mundo uma versão da língua portuguesa que despacha toda a gente com você. Ouvi várias pessoas afirmarem que preferiam as legendas em inglês e que iriam escrever à organização reivindicando uma preferência para essa língua estrangeira. Por outro, há os que, como eu, se aprazem com a utilização da nossa língua, ainda que numa variante algo diferente. Mais uma vez verifiquei que as reacções ao português do Brasil estão mesmo muito marcadas pela familiaridade (ou ausência dela) com a cultura brasileira.

Penso já ter dito várias vezes que a questão do AO, no fundo, só é importante se acreditarmos que temos vantagem em que a nossa língua seja uma importante língua de comunicação internacional. Se quisermos renunciar a essa vontade, não haverá grande perda para o mundo: o português do Brasil impor-se-á, sem grande esforço, como o ÚNICO português internacional e nós ficaremos contentitos porque mantivemos a “pureza” da nossa língua. A evolução histórica que tem levado à predominância internacional do português do Brasil só não foi mais rápida porque nos últimos trinta anos Portugal esteve na União Europeia, uma entidade internacional que, ao contrário de nós, tem uma política linguística forte e coerente, e essa pertença mitigou a inevitável decadência nas instâncias internacionais da língua  portuguesa na sua versão europeia.

Os meus caros compatriotas podem continuar animaditos com a acrimónia entre acordistas e anti-acordistas. Contudo, a terra continuará a mover-se, como dizia o outro.

  • http://profclaudiomangini.blogspot.com.br/ Claudio Mangini

    Um dos motivos (secundários) pelo qual gosto deste teu blogue é poder ler uma variante diferente daquela que uso no dia-a-dia.
    Frases construídas de forma diversa daquela com a qual estou acostumado soam-me até um tanto poéticas! E viva nossa amada língua portuguesa, varie tanto quanto o mundo a quiser naturalmente variar!

  • http://www.enxuto.org Miguel RM

    Obrigado, Claudio, por mais este comentário simpático. Para retorquir, dir-lhe-ei que o meu encantamento com a cultura brasileira começou na minha juventude devido ao prazer enorme que eu tirava de ler português com construções e léxico diferentes daquele que estava a aprender na minha escola. Toda a conversa sobre acordo ortográfico tem muito menos interesse do que as reais manifestações dos autores da nossa língua comum, tão variada e tão invulgar afinal.