Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Há duas semanas participei na “2ª Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial”, que decorreu em Lisboa. Embora tenha de louvar o bom nível das intervenções, quero fazer uma observação sobre um aspecto que me chocou em vários oradores: o modo como se referiram com hostilidade à omnipresença do inglês no mundo contemporâneo, numa espécie de competição subordinada ao lema “Espelho meu, espelho meu, quem é mais anti-língua inglesa do que eu?”

Começo por dizer que o facto de dispormos duma lingua franca em todo o mundo deveria encher-nos de felicidade, pois possibilita coisas maravilhosas como, por exemplo,  um piloto coreano estar capacitado para fazer aterrar em Frankfurt um avião de fabrico brasileiro. Imaginem o que aconteceria se no aeroporto só entendessem alemão, se as instruções do avião fossem em português e o piloto insistisse em só falar coreano. A língua franca é o inglês porque são muitos os habitantes do planeta de língua materna inglesa, mas sobretudo porque são muitíssimos os que entendem o inglês como segunda, ou terceira, ou quarta língua. Podemos afirmar sem temor que a grande maioria da população do mundo fala algum inglês, ainda que seja uma versão incipiente. O inglês é então um meio poderosíssimo para facilitar a mobilidade e a comunicação, factores essenciais da vida contemporânea. Claro que, como acontece com tudo na vida, essa coisa óptima que é termos uma língua franca também tem aspectos negativos. Um deles é o modo como interfere nas outras línguas, contaminando-as exageradamente no léxico e na sintaxe, devido ao grande prestígio que tem, por comparação com todas as outras línguas, de menor expressão internacional. Ora, se o inglês está sózinho na primeira divisão das línguas internacionais, as outras línguas têm pesos muito diferentes na cena internacional; na segunda divisão estão as outras línguas de comunicação internacional, entre as quais o português: é uma das poucas que tem algumas potencialidades para servir de língua de comunicação internacional, dado o facto de ser língua oficial de oito países em quatro continentes, sem esquecer as várias diasporas de língua portuguesa presentes em muitos países do mundo. Este “campeonato” da língua portuguesa é o das outras línguas de comunicação internacional para além do inglés, ou seja, alemão, árabe, espanhol, francês, italiano, mandarim, russo, urdu e pouco mais. E, claro, esta situação está a evoluir permantemente.

Ora, é bom termos a noção de que esse é que é o nosso campeonato. Não vale a pena medirmos forças com a língua inglesa, porque essa é mesmo, e será durante muito tempo, a única língua verdadeiramente mundial. O ridículo gesticular contra a predominância do inglês é tempo perdido, só serve para demonstrar a falta de autonomia e de auto-estima dos defensores das “outras” línguas. É claro que há razões históricas para algum ressentimento anti-britânico num país que tanto dependeu financeiramente da Grã-Bretanha durante mais de um século (1800-1914). Não nos devemos esquecer que o nosso hino nacional, composto no próprio ano do Ultimato britânico (1890),  tinha na versão original do seu refrão o verso “contra os bretões, marchar, marchar”, que acabou por ser substituído por outro “politicamente correcto”, mas bastante absurdo, quase suicida (“contra os canhões, …”). Se já marchar contra os bretões, como estava no texto de Henrique Lopes de Mendonça, seria quase impossível, dada a desproporção de forças, então a ideia de marchar contra os canhões parece-me mesmo própria de um povo doente de irrealismo. Mas enfim, é tudo apenas simbólico…como sabemos.

Tal como em 1890 não fazia sentido irmos para a guerra contra a Grã-Bretanha, também hoje é irrisório clamar contra a predominância da língua inglesa. Afinal, serão eles, os anglo-saxónicos, que nos obrigam a considerarmos que somos “modernos” por preferirmos termos ingleses aos portugueses? Não, é mesmo só defeito nosso. Atribuir culpas aos outros é apenas mais uma marca do nosso pendor para o irrealismo e a choraminguice.

Uma das questões que me opõe à mania dos meus colegas das instituições da União Europeia aportuguesarem os nomes geográficos é precisamente o anti-inglesismo. Eles dizem permanentemente que se deve aportuguesar tudo para não “irmos atrás” do termo inglês, mas o meu ponto de vista é outro: devemos evitar “ir atrás” do inglês, mas isso não nos deve obcecar ao ponto de, por exemplo, optarmos por escrever “Doa”, palavra ridícula, só porque Doha é a palavra consagarada internacionalmente através do inglês. Idem para Qatar, pois “catar” é verbo português com significado próprio. E, obviamente, os termos geográficos de grafia estrangeira que devemos aceitar na língua portuguesa são os ingleses, e não outros, precisamente porque devemos ser realistas e aceitar a lingua franca, sem complexos, com a descontração própria de um país aberto ao mundo, com uma língua que compete no tal campeonato das “outras” línguas internacionais.

  • http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/ Porfírio Silva

    Ainda bem que voltou o Enxuto. Espero que agora se torne regular.