Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Dado que neste blogue escrevo sobretudo acerca de questões relacionadas com a língua portuguesa, sou naturalmente levado a referir-me frequentemente ao Brasil. Os meus leitores terão notado que defendo posições políticas moderadas e cautas quanto às nossas relações com o Brasil, como foi bem visível nas minhas argumentações sobre o famigerado acordo ortográfico (AO). Talvez seja agora uma boa altura para explicitar melhor os meus pontos de vista acerca dessa questão maior da nossa política externa que é a das relações com o Brasil.

Os chamados países de língua oficial portuguesa têm com Portugal o comum interesse de neles se falar uma grande língua internacional. No entanto, também com Portugal, têm outra coisa muito importante em comum: um passado. Um passado que, para nós, portugueses, implica sempre uma relação difícil, ciclotímica, ora embriagada com grandezas mitificadas, ora deprimida por complexos de inferioridade. Felizmente, nos últimos anos têm-se produzido nas academias muitas narrativas históricas bem mais acertadas, menos exageradas, do que aquelas que estiveram na base do ensino da História Pátria inventado por românticos e republicanos do século XIX e retomada com redobrado entusiasmo pelo Estado Novo. Sobretudo, aprendemos a cooperar com os “outros”, sejam africanos, brasileiros ou asiáticos, para que a nossa História deixasse de ser uma “Saga dos Desobrimentos” e tenha passado a ser uma História de encontros entre mundos diferentes. É com base nesse diálogo frutuoso sobre o nosso passado comum que poderemos alicerçar boas relações no presente e no futuro.

O caso do Brasil é mesmo único na História Universal: em 1808, pela primeira vez, um império colonial, para escapar às investidas militares do proselitismo revolucionário francês, mudou a sua sede para a colónia e durante 15 anos a monarquia portuguesa teve a sua sede no Rio de Janeiro. As comemorações de 2008 (200 anos da transferência da corte para o Brasil) permitiram relembrar e reanalisar esse passo decisivo provocado pelas invasões francesas e pela rivalidade entre França e Inglaterra e estimularam, no Brasil e em Portugal, um olhar mais fresco, menos embriagado por nacionalismos serôdios, para o nosso passado comum. Outro facto inédito foi a declaração da independência por iniciativa do príncipe herdeiro da coroa portuguesa, que passou a ser Imperador do Brasil, vários anos depois de quase toda a América Latina espanhola ter dado origem a novas nações, com a concomitante abolição da monarquia. No Brasil, pelo contrário, a monarquia (comandada por uma família real europeia, lembre-se) durou quase até ao fim do século XIX.

A República instaurada no Brasil em 1889 também acentuou essa tendência de romantização da História Pátria tão característica do século XIX. No caso brasileiro, obviamente, com a adição de ideais anti-coloniais, que também não são imunes a mitificações e exageros. Os nacionalismos português e brasileiro no século XX alimentaram-se mutuamente, com inúmeras interacções entre um lado e outro do Atlântico e o caso da língua comum é bem ilustrativo: a reforma ortográfica de 1911, que basicamente visou simplificar a nossa língua libertando-a duma “ortographia etymológica” de influência francesa e pendor anti-espanhol, foi feita à revelia do Brasil, sem qualquer consulta como se aquele país não tivesse quase um século de independência. Entretanto, não podemos esquecer que a abolição da escravatura em finais do século XIX no Brasil e o afluxo de emigrantes de muitos outros países para assegurar a produção de café e a industrialização nascente do Brasil transformaram o país numa cultura bem mais complexa do que aquela que caracterizava o Brasil colónia ou o Brasil império. A reacção anti-língua portuguesa de Portugal que caracterizou a acção dos modernistas brasileiros dos anos 20-30 do século XX explica-se não apenas pela relativa arrogância pós-colonial da ex-potência colonizadora, mas também muito pelo carácter plurinacional das influências sofridas pela cultura brasileira.

E assim, depois de muitas peripécias políticas do lado de cá e do lado de lá, muitos fluxos migratórios para lá e para cá, chegámos aos dias de hoje, com o nosso país em crise e o país deles a crescer por todos os lados. Se a retórica do “país irmão” já era ridícula quando ainda achávamos que pertenciamos a uma Europa pujante, agora então tal retórica tornou-se verdadeiramente patética. A mim parece-me que uma reflexão pós-colonial serena nos obriga a olhar para o Brasil como um país comum, certamente nossso aliado, mas não mais do que isso.

A minha ambição maior nessa matéria é que para nós o Brasil seja um país estrangeiro como outro qualquer. Pela minha parte, conhecendo razoavelmente algumas cidades brasileiras, sempre me comportei no Brasil como um estrangeiro, nunca “dei bola”, como eles dizem, àquela conversa do “país irmão”, sempre me comportei como me comporto em qualquer país que não seja o meu. A verdade é que isso me ajuda muito a ser maravilhosamente bem tratado. Houve uma altura da minha vida em que pensei (com alguma arrogância intelectual, confesso) que a minha forma de estar teria a ver com o facto de ter sido militantemente anti-colonialista, mas rapidamente me apercebi que tal não era o caso, pois conheço alguns anti-colonialistas sem qualquer sensibilidade pós-colonial e, pelo contrário, conheço alguns defensores de ideais colonialistas que se comportam com admirável sensibilidade pós-colonial nas suas relações com ex-colónias portuguesas. No fundo, não se trata duma questão de ontem, mas sim de hoje e do futuro: só teremos êxito nas nossas relações com os outros países de língua oficial portuguesa se os soubermos encarar como países comuns, tão comuns como o nosso.

  • Luciano

    Há algum motivo para você usar o hífen em palavras como anti-colonialista e anti-língua, apesar de ele não estar previsto nem na ortografia de 1943 (Brasil)/1945 (Portugal) nem da de 1990?

  • http://www.enxuto.org Miguel RM

    O motivo é estilístico. O hifen realça o “anti”. Dado que me libertei do trabalho assalariado numa instituição e actualmente raramente trabalho para outrem, sinto-me mais solto para escrever como me apetece. Bem sei que tenho clamado ao longo destes anos por mais e melhor normalização da nossa língua, mas estou farto de causas impossíveis, prefiro adaptar-me…

  • http://profclaudiomangini.blogspot.com.br Claudio Mangini

    Este foi um dos melhores artigos que já li por aqui. Fico uns tempos sem ler teu blogue e, quando volto a ele, sempre encontro bons artigos!
    Parabéns mais uma vez.

    Claudio Mangini (do Brasil).