Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Na semana passada assistimos a uma comédia ridícula acerca da questão insigne de se saber se alguns polícias armados em manifestantes deveriam ou não ter sido impedidos pelos verdadeiros polícias de “violarem” o perímetro de segurança da escadaria da Assembleia da República. Para os meus leitores menos atentos ao noticiário de Portugal, eis um breve artigo sobre o assunto:

Público

Vamos então ao que me traz aqui: parece-me extraordinário haver polícias que se considerem no direito de se comportarem como “vulgares manifestantes”, indo ao ponto de serem eles próprios a levar a cabo a tal “violação” da escadaria que tem sido tentada inúmeras vezes nos últimos anos por verdadeiros manifestantes, sempre impedidos pela verdadeira polícia. Se não fosse um indício lamentável da nossa falta de seriedade política, até dava para rir. Mas a verdade é que este comportamento de alguns polícias não é muito diferente do de muitas pessoas com responsabilidades políticas bem mais pesadas do que os agentes das forças da ordem. É o caso dos juízes e procuradores que se queixam da ineficácia da justiça como se não fosse nada com eles ou que permitem que haja fugas de informação nos processos que tutelam ou dirigem. É o caso dos políticos que se queixam da degradção do sistema político como se não fosse nada com eles (há mais de dez anos houve um primeiro-ministro que abandonou o poder queixando-se do “pântano” político). É o caso de algumas classes privilegiadas como juízes, procuradores, médicos, pilotos de avião, trabalhadores dos transportes públicos, estivadores e alguns outros acharem-se no direito de recorrer com ligeireza a formas de luta próprias das classes menos favorecidas, nomeadamente as greves, fazendo-se passar por meros “trabalhadores” sem mordomias nem privilégios. Nesta matéria há muito poucas pessoas que estejam imunes a esta espécie de populismo que consiste em “esconder” os benefícios de pertencer a determinadas “aristocracias” profissionais, com segurança de emprego e vida desafogada em comparação com a média nacional. E os políticos que tanto se esforçam por parecerem “pessoas normais”, dando confiança a jornalistas, participando em reportagens frívolas, mostrando as suas casas e famílias, só ajudam a este regabofe de lamentações de pseudocoitadinhos.

Penso que foi Fernando Pessoa quem denunciou em alguns dos seus textos políticos as elites portuguesas (a sua fraca qualidade) como um dos maiores problemas do nosso país. Não vou agora pretender que os polícias pertencem às nossas elites, mas não posso deixar de pensar que são profissionais com responsabilidades “de elite”, no sentido em que podem (e devem) exercer uma autoridade essencial para a vida democrática. Em países mais bem organizados do que o nosso a pertença às forças policiais é encarada como uma prova de elevada cidadania, e não como motivo para dixotes, como acontece por cá. O que os manifestantes-polícias fizeram na passada semana só pode contribuir para que não os tomemos a sério, já que, como crianças a fazer pirraça, resolveram “violar” um preceito que lhes cabe fazer cumprir. Esta lamentável patetice já levou a demissões nas forças da ordem e a ridículas declarações do PS “ofendido” por a polícia não ter impedido a polícia de “violar” a escadaria. Não sei mesmo se não deveriamos rir.

 

  • http://Estoril Jorge Garcia

    Não entendi porque será o caso para rir. Acho que normalmente quem invade a escadaria da Assembleia da República Portuguesa é normalmente autoado, pela infração que comete, ou estou enganado? Pouco importa que não tenham sido impedidos de subir a escadaria. Eu mais me interrogo é se esses manifestantes-policias tenham sido detidos, identificados, libertados e posteriormente notificados a pagar uma coima, tal como qualquer cidadão que o faça, seja rei ou mancebo. Agora de tudo o que este senhor escreveu, eu não percebi nada, ou se percebi, foi que foi caso sem importância, a que não se deve ligar nenhuma, que até dá para rir. Francamente.

  • http://www.enxuto.org Miguel RM

    O leitor não entendeu? Paciência…No entanto, vou tentar explicar a minha crítica à falta de civismo de quem tem a obrigação de o garantir (o civismo). É risivel os polícias tentarem subir a escadaria,porque uma das suas missões nas manifestações realizadas em frente a Assembleia é precisamente evitar que as escadarias sejam invadidas. A falta de respeito das autoridades por si próprias só pode reforçar a ideia popular de que a polícia vale pouco, quando precisamos dela, uma ideia perigosa que historicamente tem contribuido para a aceitação de ditaduras de várias cores…