Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Tendo sido tradutor durante mais de trinta anos habituei-me a ler muito, sobre muitos assuntos e sob muitas perspectivas.

Para além de estar a participar em debates no Machina Enxuta, irei deixando aqui reflexões adicionais e dicas para quem quiser ler mais.

Hoje, em primeiro lugar, quero recomendar vivamente o blogue Margens de Erro, de Pedro Magalhães (tem o mesmo apelido que eu, mas não é meu familiar, nem o conheço), instrumento indispensável para saber algo mais sobre sondagens. Confesso que o leio há anos com prazer sempre que há eleições à porta.

Seguidamente, aqui vão alguns artigos de opinião que me interessaram nos últimos dias:

- “Poupar, what else” de Cristina Casalinho

“Esta gente não tem vergonha” de Camilo Lourenço

“A queda do Forte Apache” de Luís Naves

“A realidade não se engana” de João Villalobos

Por hoje chega. Optei por divulgar algumas reflexões de pessoas diferentes dos comentadores mais consagrados. Essa será a minha opção nos próximos tempos.

Talvez não tenha ficado clara, no debate publicado nesta semana, a minha posição quanto a saber se há Estado a mais em Portugal. Em termos genéricos, subscrevo a ideia expressa no debate de que se há Estado a mais em algumas áreas, noutras há Estado a menos. Mas, em termos mais concretos, é inegável que o Estado cresceu demais nos últimos trinta anos e os governos PS destes últimos anos só agravaram a tendência.

As eleições que se aproximam devem servir para julgar os últimos seis anos de governação do PS e não há nenhuma gesticulação do PS, vitimizando-se e passando culpas para a oposição, que possa levar o eleitorado a esquecer tal facto. Eu votarei no partido da oposição que apresentar propostas mais sérias para cortar a despesa pública, para privatizar empresas que não devem estar no Estado, para cortar nos organismos do Estado.

Como já expliquei, sou um eleitor moderado e não limitado por qualquer peretença partidária. Votarei desta vez na oposição de direita pelos mesmos motivos que votei há seis anos no PS: na altura queria virar a página “Pedro Santana Lopes”. Agora quero virara a página “José Sócrates”.

Não há nisto nenhuma fulanização excessiva, há apenas o reconhecimento de que a alternância é útil e desejável. A oposição de direita só tem de se manter calma, não dar importância à gesticulação alarmista e às pressões do partido do governo e apresentar a seu tempo as propostas ao eleitorado.

Machina Enxuta

29 de Março, 2011 por Miguel RM

http://www.youtube.com/watch?v=G_w9aLI0h08

Machina Enxuta amanhã

28 de Março, 2011 por Miguel RM

Amanhã, lá para o fim da manhã, o Porfírio (Machina Speculatrix) e eu publicaremos o nosso debate número um (o da semana passada foi o número zero). Os temas que acordámos são:

- José Sócrates, o reeleito secretário-geral do PS;

- Há Estado a mais em Portugal?

- (se houver tempo) RTP, privatiza-se?

Aproveito para agradecer publicamente as mensagens de apoio que recebi e prometemos corresponder ao pedido de várias famílias de nos limitarmos a 15 minutos.

Machina Enxuta

21 de Março, 2011 por Miguel RM

ENXUTO regressa

21 de Março, 2011 por Miguel RM

A partir de hoje passo a publicar um debate político ao vivo entre o autor deste blogue e o do blogue Machina Speculatrix. Vamos ver quanto tempo durará esta experiência.

Adeus, até ao meu regresso…

4 de Janeiro, 2011 por Miguel RM

Este blogue tem andado esquecido, hoje vim cá e constatei que tenho comentários por aprovar que já têm uns meses. Isto quer dizer que está na altura de fazer outra coisa. Este blogue serviu-me durante uns anos para expor, divulgar e promover posições de pessoas como eu que entendem o sentido lógico do acordo ortográfico (AO), mesmo que não sejam seus entusiásticos defensores.

Felizmente, não me parece que a “indignadíssima” oposição ao AO tenha tido algum efeito prático. Estou satisfeito por haver uma aceitação mais ou menos maioritária do AO e penso que já não haverá recuo na sua aplicação. Por isso parece-me estar na altura de dar por encerrado este capítulo. Suspendo portanto este blogue e vou-me dedicar a outros projectos. Gostaria, antes de fechar a porta, de agradecer a todos os meus (poucos) leitores, aos pouquíssimos entusiastas (obrigado, Porfírio Silva) e, sobretudo a todos aqueles que me ajudaram a argumentar contra a recusa do AO. Entre muitos, destaco toda a equipa do Ciberdúvidas, em especial José Mário Costa, bem como Carlos Reis, José António Pinto Ribeiro, Rui Tavares, Lauro Moreira, D’Silvas Filho, José Eduardo Agualusa, Margarita Correia, Maria Helena da Rocha Pereira e muitos outros que fui lendo e a quem fui “roubando” ideias. Quero ainda agradecer publicamente a todos os meus colegas tradutores da Comissão Europeia com quem trabalhei durante 26 anos (1982-2008) e com quem mantive sempre um diálogo profícuo que nos ensinou a todos a sermos cautos e sensatos com a nossa língua.

Até sempre.

Paulo Varela Gomes publica semanalmente aos sábados no suplemento P2 do jornal “Público” crónicas sob o título genérico de “Cartas do Interior”. A de sábado passado continha um saboroso enumerado de “português” pedante. Aqui a transcrevo:

«Cartas do interior

Paulo Varela Gomes

24-07-10

E falar português, vai desejar?

Ora leiam, se fazem favor, a seguinte declaração de um militar da GNR a um dos telejornais de 2ª feira, 19 de Julho último a propósito de uma acção na qual participara: “Detivemos alguns indivíduos que se dedicam ao furto de estabelecimentos de venda de veículos velocípedes simples”. É uma pérola do português contemporâneo. Quer dizer que prenderam um grupo que assaltava lojas de bicicletas. Mas, é claro, da boca de um policia nunca podem sair vulgaridades como “assaltar” ou “bicicleta”. Eles falam policiês, um dos dialectos portugueses mais rebuscados que conheço. É até por isso que policias e jornalistas dizem “a autoridade tomou conta da ocorrência”, em vez de utilizarem uma expressão mais simples como, por exemplo, “chegaram os chuis”.

Mas não são só os polícias. Vejam os estudantes do ensino superior. Também falam rebuscado. Nenhum utiliza o verbo “ter”. Nenhum escreve uma frase como “a igreja tem uma abobada de pedra”, para citar um exemplo da minha área. Escrevem: “a igreja possui uma abobada de pedra”. Nem o verbo “fazer”: dizem “a igreja de S. Vicente de Fora foi elaborada por Baltazar Álvares”. Menos ainda o verbo “ser”: escrevem “constitui um projecto”. E nem pensar no verbo “pôr”: dizem “coloca-se o caixilho”.

Reparem também no modo como se eliminou pouco a pouco do português o verbo “querer” . Os empregados perguntam-nos nos restaurantes: “E café, vai desejar?”. “Querer” é aparentemente um acto demasiado assertivo para os portugueses, talvez até mal educado, tem-se um certo receio de querer ou de perguntar se alguém quer.

Os portugueses de hoje não querem, não são, não têm, não fazem. Desejam, constituem, possuem, elaboram. Só se exprimem verbalmente de duas maneiras: ou dizem ”eu não tenho palavras” ou mais valia que as não tivessem porque arrebitam a linguagem até ao ridículo.

A utilização saloia do inglês também é típica destes tempos: porque é que escrevemos “on line” quando não dava trabalho nenhum escrever “em linha”? Olhem em volta para os anúncios: ele é o “retail park”, o “express shopping”, as férias “low cost” (esta é particularmente significativa: nenhum português faz férias de “baixo custo” ou “baratas”; mesmo que as passem na Cova do Vapor, passam-nas em inglês).

A melhor explicação para esta substituição do português pelo imbecilês é o novo-riquismo. Durante décadas (séculos), a maioria dos portugueses não tinha qualquer hipótese de se exprimir em público, com excepção do círculo familiar. Agora, que essa hipótese existe constroem a linguagem como um parolo constrói a sua nova casa… e fazem idêntica figura de parvo.

Mas haja esperança: é bom sinal, por exemplo, que já estejam a desaparecer as bandas e cantores que cantavam em inglês. Nunca percebi se era o sonho de gravar o tal disco em Londres que lhes proporcionasse a fama mundial, se, como é mais provável, a incapacidade de escrever em português duas linhas que fizessem sentido.»

Nota final minha: gostaria de ter sido eu a escrever isto.

Foi com desgosto que soube da decisão do Movimento Internacional Lusófono (MIL) de apoiar a candidatura de Fernando Nobre à presidência da República. Ao decidir assim envolver-se na luta eleitoral, o MIL está a comportar-se como um grupelho político, e não como um movimento democrático da sociedade civil, que, pela sua própria natureza, deve acolher e aceitar com igual dignidade todas as ideologias políticas democráticas. 

Admito que o perfil pessoal e profissional de Fernando Nobre possa levar pessoas certamente bem intencionadas a julgarem que estão a apoiar um candidato “diferente”. Lamento desiludir tais pessoas, mas quem joga com as armas do sistema político faz parte do sistema político. Por muito boa vontade que a personalidade de Fernando Nobre suscite em eleitores mais zangados com a política, o facto é que a sua candidatura tem um significado político, tem motivações políticas e tem efeitos políticos.

Consequentemente, parece-me inadmissível que o MIL, sem sequer consultar as pessoas que o apoiam, tenha decidido imiscuir-se na campanha presidencial. Ao fazê-lo está a dar um tiro no pé, pois irá perder um bem precioso e difícil de manter, que é a credibilidade pública.

Lamento, mas a partir de hoje, este blogue deixará de apoiar o MIL.

Na edição de ontem do jornal “Expresso” é anunciada a decisão do grupo Impresa de passar a publicar todos os seus jornais e revistas com a grafia do acordo ortográfico (AO). Excelente decisão e interessantes artigo e editorial a explicar esta decisão aos leitores. Note-se que a agência Lusa já o faz desde o início do ano e vários jornais também o fizeram (“Record”, por exemplo).

Neste blogue tenho defendido ao longo destes anos, com argumentos de ordem política e geo-estratégica, a necessidade de respeitar um acordo internacional que vincula o Estado português. Fi-lo sobretudo por ter a noção clara de que somos um país pós-colonial, tal como o são todos os países de língua oficial portuguesa. Ter  consciência de como as relações coloniais e pós-coloniais deixaram e deixam marcas na nossa História é extremamente útil para agir no mundo globalizado de hoje. Só assim pode haver em toda a lusofonia relações descomplexadas, baseadas na confiança e no respeito mútuos.

Aproveito novamente esta ocasião para lançar um apelo aos opositores ao AO: parem de confundir a questão da defesa da língua portuguesa com a questão do acordo. A língua portuguesa tem de ser defendida por aqueles que a cultivam, haja ou não haja este ou qualquer outro acordo. Os excessos verbais de alguns activistas anti-AO em nada beneficiaram a causa da defesa da língua portuguesa. Pelo contrário, deram cobertura a manifestações públicas de xenofobia e arrogância eurocêntricas.

Infelizmente, no debate público em Portugal, há uma tendência perniciosa para “misturar alhos com bugalhos”. Não é por querermos respeitar um acordo internacional que nos preocupamos menos com a qualidade da língua portuguesa no espaço público. Não é por vociferarmos contra uma pretensa “influência brasileira” no texto do acordo que passamos a ser um país com mais atenção à sua língua. A responsabilidade que nos cabe enquanto portugueses de defendermos a nossa língua tem de ser compatibilizada com o realismo e o pragmatismo necessários à manutenção e à expansão da língua portuguesa enquanto língua de comunicação internacional.

Há muitos anos que sonho com o dia em que Brasil e Portugal trabalhem sistematicamente em concertação na promoção internacional da língua portuguesa, evitando a duplicação e a dispersão de meios. Não excluo nenhum outro país, mas tenho consciência de que, por enquanrto, só estes dois têm prática nesta áreas. Contudo, não quero deixar de salientar que Angola, por exemplo, dá orientações claras aos seus representantes em reuniões internacionais para que se exprimam em português sempre que possível e para que exerçam pressão política sempre que constatarem obstáculos a que tal aconteça.   

Uma nota final: apesar de saudar a decisão do grupo Impresa, não quero deixar de chamar a atenção das autoridades portuguesas para o problema da dupla grafia. O facto de haver publicações em grafias (ligeiramente) diferentes não ajuda em nada a língua portuguesa. É urgente o governo agir para que a nova grafia passe a ser utilizada por todos.