Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Ontem, no jornal “Público”, José Mário Costa,  um dos fundadores do Ciberdúvidas, publicou um excelente artigo de opinião que esclarece algumas dúvidas suscitadas pela argumentação demagógica dos inimigos do acordo ortográfico. Não tenho nada a acrescentar…

Acordo ortográfico em 2010?

30 de Dezembro, 2009 por Miguel RM

A polémica em torno do acordo ortográfico continua viva. No jornal “Público” de hoje é publicado um artigo de Alexandra Prado Coelho que resume a situação presente. Infelizmente, ao contrário do que tem sido defendido neste blogue, as posições permanecem irredutíveis. O “radicalismo” de Vasco Graça Moura e de António Emiliano, dois eminentes inimigos do acordo, tem prejudicado seriamente a possibilidade de haver posições serenas e produtivas que permitam uma aplicação racional do acordo, nomeadamente prevendo as alterações e os melhoramentos que são necessários.

Para que se veja como não é só em Portugal que se discute a língua com paixão, eis uma notícia surpreendente de Cabo Verde: o partido do governo queria uma revisão constitucional que consagrasse o crioulo como língua oficial, paralelamente ao português, mas a oposição não deixou. Os argumentos de quem se opõe assentam na ideia de que “o terreno não está preparado para que se dê esse passo”. É um argumento clássico de quem quer impedir que se avance seja para onde for e é muito eficaz. Como as condições ideais nunca estão criadas, é fácil assim colocar sistematicamente obstáculos a qualquer evolução. Nos cafés de Portugal e de todo o mundo (suponho) usa-se muito este tipo de argumentação.

A profusão de termos ingleses em áreas comerciais é um problema crescente para a língua portuguesa. Hoje venho falar-vos do vending, que é o termo utilizado para designar o sector das máquinas de venda automática. Procurei no Google e um dos primeiros sítios que encontrei foi este Vending Portugal, que contém logo de início uma explicação pseudo-erudita sobre a origem do termo. Dizem então que “vending” provirá do latim. A verdade é que provém do inglês, pois o sufixo “ing” é o que serve na língua inglesa para formar o gerúndio. Ao contrário do que se afirma, “vending” não quer dizer “vender”, mas sim “vendendo”. Na língua inglesa é que a introdução do termo precisa duma justificação como aquela que dão no “Vending Portugal”. Pelo contrário, nas línguas latinas “vender” é a palavra comum para designar uma transacção em que se troca um bem ou um serviço por um valor. Limitaram-se portanto a traduzir a explicação que encontraram em inglês, como se se aplicasse também à língua portuguesa. Fica a pergunta: Qual seria o problema se a actividade fosse conhecida por “venda automática”???

Foi publicado há dias no Ciberdúvidas um excelente texto de D’Silvas Filho (Do vocabulário comum ao dicionário para toda a CPLP) que expõe com clareza os verdadeiros desafios colocados pelo acordo ortográfico.

Nesta altura, em que os adversários do acordo continuam a tentar, por todos os meios, impedir que Portugal avance para que seja assegurada a perenidade de um língua portuguesa pluricultural e pluricontinental, saúdo este texto sensato duma pessoa que me ensinou com os seus escritos quase tudo o que eu sei sobre este tema.

Uma boa notícia para todos os amantes da língua portuguesa.

Depois de semanas de agitação política e ainda no meio doutra campanha, venho agora apresentar o meu rescaldo das eleições. Como sabem os leitores, mantive-me relativamente silencioso durante a campanha, embora tenha declarado logo em 24 de Julho que votaria PS, por considerar que seria um “mal menor”. Pelos vistos terá havido mais gente a pensar como eu, pois é sabido que o voto militante é uma pequena parte do eleitorado. A maior parte dos eleitores que se deslocam às urnas são como eu, sem fé clubista em matéria de política.

Teremos a partir de agora um parlamento mais interventivo, um governo menos autoritário e mais política, três aspectos muito positivos.

Teremos também mais conflitualidade interintitucional, menos autoridade do Executivo e, provavelmente, algumas “trapalhadas”, três aspectos bastante negativos.

Seja como for, para já, na esperança de que seja ultrapassado o disparate de Verão causado por alguns zelotas de ambos os lados do conflito PR-PM, há que formar governo.

É provável que José Sócrates prefira fazer um governo compacto e coeso, mais fácil de controlar, evitando assim algumas personlidades mais erráticas e/ou conflituosas.

Neste blogue são sobretudo discutidas questões de política da língua e, por vezes, também da política de cultura. Por uma feliz coincidência, o actual ministro da Cultura é uma personalidade política com um discurso articulado e sensato sobre a língua portuguesa, uma novidade absoluta na nossa História recente. Há quem critique muito os discursos de Pinto Ribeiro sobre a política da língua, nomeadamente invocando o facto de se estar a “imiscuir” em áreas de outros ministérios (Negócios Estrangeiros, Educação). Discordo totalmente. Em primeiro lugar, não é nada despropositado o ministro da Cultura preocupar-se com a projecção e promoção da língua portuguesa. Em segundo lugar, esta questão (da língua) está intrinsecamente relacionada com a pasta da Cultura, enquanto nos outros ministérios (muito maiores) é apenas uma das muitas áreas em que actuam. Seria aliás defensor, se o Ministério da Cultura conseguisse finalmente ser um ministério com poder e meios, de que assumisse a tutela da política da língua.

O actual ministro tem sido muito criticado por pessoas importantes do sector, nomeadamente por não ouvir e atender as reclamações dos principais dirigentes do Ministério. Também foi muito criticado por ter declarado, logo que assumiu a pasta, que iria tentar “fazer mais com menos dinheiro”. Quanto a esta última questão, dicordo, pois o ministro, ao falar assim, deu um sinal claro de que a Cultura não se pode dar ao luxo de ser uma área com uma espécie de desprezo altivo pelo dinheiro. Pelo contrário, tem que mostrar boas contas, boa capacidade de gestão dos meios públicos, para que seja possível convencer quem decide que seria útil atribuir-lhe bastante mais dinheiro. Quanto à hostilidade de muitas personalidades da área, permitam-me alguma cautela: a Cultura é um sector politicamente muito dinâmico, com muitos grupos de interesse e muitas “capelinhas”, demasiados aliás para o magro orçamento que está em causa (“Em casa em que não há pão todos ralham e ninguém tem razão”). Este ministro tem duas qualidades inegáveis: tem peso político, uma qualidade indispensável para que a Cultura seja mais tida em conta no Conselho de Ministros, e sabe falar com clareza. Não sei se chegará para se manter no governo, mas penso que não seria mau para o país se isso acontecesse. Se for substituído, espero que o PM não volte a cair na asneira que tem acontecido muito nos últimos anos, que é a atribuição do cargo sem grande critério. Lembro José Saportes, uma pessoa sem experiência política e com grande pendor para cometer erros estratégicos, Pedro Roseta, uma simpática pessoa que recebeu o ministério como “prémio de fim de carreira”, e Isabel Pires de Lima, uma pessoa insensata que só foi promovida por ser mulher e do Porto. Com José António Pinto Ribeiro estamos noutro campeonato. Pode-se embirrar com o estilo, mas parece-me claro que se trata duma pessoa com capacidade política para o cargo.

Muitos dos críticos do actual ministro “descobriram” recentemente que seria melhor não haver ministério da Cultura. Mais uma vez discordo. O facto de estar presente no Conselho de Ministro constitui um trunfo que não se deve deitar fora. Bem sei que a pessoa que foi um dos dois melhores responsáveis políticas pelo sector, Teresa Gouveia (o outro foi obviamente Carrilho), só era Secretária de Estado, mas estavamos noutra época, com menos consciência sobre o valor estrtégico da Cultura. Talvez não se lembrem, mas eu lembro-me bem que Cavaco substituiu Teresa Gouveia por Santana Lopes (Cavaco “precisava” de arranjar algo para o calar), um dos gestos mais negativos do então Primeiro-Ministro. Isso só foi possível porque a Secretaria de Estado tinha pouco peso político perante os interesses aparentemente “superiores” do partido (PSD).

Há entre os críticos do ministro muitos amigos meus e várias pessoas que admiro. Mas não me convencem (ou, pelo menos, ainda não me convenceram) de que a Cultura teria algo a ganhar com o desaparecimento do Ministério ou deste ministro.

Hoje de manhã, na Basílica da Estrela, em Lisboa, realizou-se uma cerimónia de homenagem a Jorge de Sena, antecedendo a trasladação dos seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres. Sobre o longo processo que agora se conclui há muito pouca informação na imprensa. Dos jornais publicados hoje, ha algo no DN, algo no JN, algo no Sol, mas nada no Público on-line (*) e nada no i. Das televisões só la vi a RTP.

A Basílica teve bastante público, mas grande parte dele era formado por pessoas com cargos políticos (PM, Ministro da Cultura, Director da Biblioteca Nacional, Ramalho Eanes, 3 esposas de Presidentes da República (do actual, de Mário Soares e de Ramalho Eanes) e respectivos a companhantes ou familiares de Jorge de Sena. Entre o público não institucional havia uma clara predominância de pessoas idosas, os únicos jovens eram os da família de Jorge de Sena. 

Enquanto admirador indefectível do escritor declaro que fiquei agradecido a quem trabalhou para que isto acontecesse e comovido com a dignidade da cerimónia.

Enquanto português amante da nossa língua, fico satisfeito por ter regressado à nossa terra este grande autor, dos maiores das letras portuguesas.

Não querendo ser desmancha-pazeres, penso que talvez seja tempo para que alguém investigue a sério o que se passou a seguir ao 25 de Abril nas universidades portuguesas, quando foi posta a questão de se dar a Jorge de Sena a possiblidade de vir para Portugal exercer o seu ofício. Talvez tenha chegado a altura de explicar aos portugueses de hoje a mesquinhez “revolucionária” com que foi acolhido este espírito livre e íntegro.

(*) Na versão em papel do próprio dia havia duas páginas no suplemto P 2 e no jornal do dia seguinte há um artigo informativo, em ambos os casos de autoria de Isabel Coutinho, uma boa jornalista da área cultural. Curiosamente, num caso como no outro, não parece nada no Público on-line. Será uma daquelas “guerrinhas” terrotoriais tão típicas do nosso espaço público?

Cultura europeia?

1 de Setembro, 2009 por Miguel RM

Um excelente texto do Embaixador de Portugal em França, por enquanto em francês. Pedi autorização para o traduzir e espero publicá-lo em português daqui a uns dias.

Por concordar com o exposto por Henrique Monteiro no último Expresso, aqui vai o seu editorial