Machina Enxuta regressa hoje
10 de Maio, 2011 por Miguel RMEis um pequeno apontamento do debate que gravámos hoje e que mostraremos daqui a umas horas:
Eis um pequeno apontamento do debate que gravámos hoje e que mostraremos daqui a umas horas:
Hoje às 16h00, na Fundação Gulbenkian, realiza-se uma conferência sobre a vida de Snu Seidenfaden Abecassis, que porá em destaque a actividade editorial da D. Quixote, editora que fundou e dirigiu, e a influência desta cidadã dinamarquesa junto de Francisco Sá Carneiro nos últimos anos da vida de ambos. Às 18h30 terá lugar o lançamento do primeiro livro da jornalista Cândida Pinto, intitulado “Snu e a vida privada com Sá Carneiro”. Cândida Pinto, jornalista consagrada conhecida pelas suas reportagens televisivas em zonas de guerra, tem vindo a investigar a vida de Snu e já venceu há uns anos um prémio com uma reportagem da SIC sobre o tema.
Também hoje na Gulbenkian é inaugurada uma exposição fotográfica sobre Snu em Portugal.
Qualquer pessoa que leia o meu blogue reconhecerá uma certa aversão à omnipresença dos media na sociedade contemporânea e aos efeitos perversos que isso tem na qualidade da democracia. Não quer isto dizer que não haja jornalistas sérios, mas antes que o ambiente geral puxa mais para a mediocridade do que para a excelência. Eis alguns exemplos que ilustram o meu ponto de vista de que a qualidade existe em toda a parte, desde que a procuremos:
Um artigo excelente dum especialista de relações públicas que explica a (inteligente) táctica eleitoral de Paulo Portas
Uma queixa justificada duma jornalista
E, para terminar, um excelente texto sobre a “caça ao homem” de que foi vítima Ferro Rodrigues há uns anos, escrito por Eduardo Graça em 2007 e agora republicado no seu blogue Absorto:
Prosseguindo a reflexão que tenho vindo a fazer sobre o actual período eleitoral, constato com estupor que o PS tem estado a subir nas intenções de voto, enquanto a alternativa mais plausível (PSD) parece estar a perder terreno. Bem sei que a máquina de propaganda socialista tem andado muito activa a repetir até à exaustão os cinco pontos da narrativa que ficou “combinada” no Congressso de Matosinhos. Bem sei que o PSD tem dado algumas indicios de estar a hesitar quanto ao programa a apresentar aos eleitores, facto que o PS tem aproveitado com atitudes agressivas e dolosas. Felizmente, há uns dias houve apresentação do programa do PS e foi possível verificar que estamos perante uma “mão cheia de nada”.
Entretanto, houve a comemoração do 25 de Abril, uma iniciativa inteligente de Cavaco Silva, em que ouvimos vários apelos à unidade e à concertação, com destaque evidente para o de Jorge Sampaio, que não poupou nada nem ninguém.
O modelo das promessas a crédito que tem dominado a actuação dos partidos políiticos está esgotado. Infelizmente, o país está viciado no crédito barato, na dependência do Estado, na mediocridade das corporações, nomeadamente a dos políticos….Só assim se pode entender que o PS ainda tenha possibilidades de discutir o lugar de primeiro partido português nas eleições de Junho. Num país menos dependente do Estado, menos atemorizado com as consequências do abuso do crédito e mais crítico com os actores políticos e com o próprio sistema político o PS e o seu “trunfo eleitoral” José Sócrates estariam agora bem abaixo dos 30% nas sondagens.
Mas enfim, as coisas são o que são. Temos um ”Estado forte com os fracos e forte com os fracos”, os grandes protagonistas dos diversos poderes bem tentam salvar o PS da derrocada eleitoral que mereceria e o PSD faz muito bem em sublinhar que qualquer concertação (que deve existir) só poderá ser concretizada depois de feitas a eleições. O episódio da crítica ao termo escolhido por Passos Coelho foi mais uma demonstração da eficácia da propaganda socialista e da falta de espírito crítico dos media, que engoliram a “papa” que lhes deu o PS. Com que então agora ninguém pode falar em “União Nacional” sem frisar que esse era o nome do “partido” do Estado Novo? Pois bem, vão-se catar. Eu afirmo que Passos Coelho fez muito bem ao declarar que o país não precisa de nenhuma “União Nacional”, o que precisa é de aproveitar as eleições para que haja mudança no poder e depois, se houver mesmo a desejável mudança, então falaremos de concertação entre os três partidos que aceitam a ajuda internacional. O PSD também faz muito bem em não se deixar “comer” pela táctica do PS de tentar comprometer o PSD com ajuda internacional ao mesmo nível a que o governo tem de se comprometer. O que o PSD tem de fazer é falar directamente com a troika de negociação e acertar com ela uma fórmula de compromisso que seja distinta da do governo.
Há cerca de ano e meio fiz uma entrada sobre localização e quero agora voltar ao tema. Há umas semanas estive nas “Jornadas de Línguas Aplicadas” na Universidade do Minho e tive ocasião de voltar a debater o tema com especialistas de legendagem. Verifiquei que consideram as minhas opiniões demasiado radicais. Volto pois ao ataque. Por que motivo estão sempre a traduzir milhas, pés, jardas, libras, etc. para o sistema métrico “universal”? Que o façam em filmes para crianças parece-me bem, mas para adultos? Por que motivo se há-de”esconder” a cidadãos maiores, com mais ou menos estudos, que nos países anglo-saxónicos tudo se mede por um sistema diferente? Cada vez que oiço um cowboy “falar” em quilómetros até me arrepio todo.
Recentemente, assisti a uma legendagem extraordinária de um filme sobre os príncipes das Astúrias, Filipe e Letícia. No filme ouvia-se claramente que todos os membros da família real espanhola se tratam por tu, como acontece em quase todos os casos em Espanha. Pois a legendagem passava tudo para “vocês”, certamente com a intenção de “localizar”, pois seria impensável, na opinião dos legendadores, os príncipes portugueses tratarem-se por tu. Felizmente, a língua espanhola é próxima da nossa e qualquer pessoa poderia entender claramente que os príncipes espanhóis se tratam por tu, mas os legendadores portugueses preferem “esconder” esse facto ao público português.
Os excessos da localização são parte integrante da tendência contemporânea para “infantilizar” a informação.
Na minha anterior entrada sobre este assunto, escrita ontem, dei vários exemplos de ataques pessoais soezes feitos a políticos de direita, nomeadamente a Paulo Portas. Não me esqueço, é claro que este mesmo Portas teve nos anos 8o do século passado uma actuação enquanto sub-director e director do “Independente”, que foi uma espécie de escola primária das fugas de informação como arma política. Há muitas vítimas dessa época, como Leonor Beleza, Miguel Cadilhe, António Vitorino, Cavaco Silva, só para mencionar alguns. E se Portas representou a escola primária, a pré-primária talvez tenha sido obra desse “ás” do comentário político em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que desde os seus vinte anos que pratica a “arte” com grande desenvoltura (como fui vítima pessoal das suas “habilidades” quando eu era da oposição esquerdista ao Estado Novo e ele era uma jovem esperança do marcelismo, não tenho pejo em falar do assunto). Aonde quero chegar? Bom, é simples, é que a política é uma arte suja, com muitas jogadas baixas e, talvez, não possa ser de outra forma. Mais, muitas vezes, as jogadas mais sujas não são entre partidos, mas dentro de cada um dos partidos. Churchill dizia com muita graça que os políticos dos outros partidos eram apenas os seus adversários, porque os seus verdadeiros inimigos estavam no seu próprio partido. Muitas das histórias mais sórdidas deste autêntico “triângulos das Bermudas” que é o trinómio justiça-media-política, nos últimos 30 anos, talvez sejam mais fáceis de entender se tivermos presente essa ideia do político conservador britânico. Adiante…
O problema principal destas guerras civis em que todos se portam mal é que, às tantas, já não há inocentes. E não haver inocentes cria a impossibilidade de justiça. Não quero exagerar, mas hoje é como me sinto. Tenho sempre a maior das cautelas em trazer questões de justiça para a luta política. Se a presunção de inocência é necessária, então, perante uma justiça disfuncional, é duplamente necessária. Opto sempre por não acreditar em nada, já que, para mim, uma justiça disfuncional fica apenas a um pequeno passo da lei da selva. E não acredito em nada independentemente da cor política do acusado, quer tenha simpatia pela dita ou não. Como não tenho ambições, posso dizer tranquilamente que não tenho a menor confiança na justiça, podendo assim fugir àquelas figuras tristes que todos os políticos são obrigados a fazer quando têm de declarar, sem se rir, que “confiam na justiça”, declaração canónica quando o arguido é de um partido adversário.
Não sei se têm notado, mas as organizações a que pertencem os negociadores da ajuda externa têm dito umas coisas que não são só “cortes”. Têm falado de reforma do sistema judicial, de leis do arrendamento, de legislação laboral, etc. Será que mais uma vez teremos que agradecer que venham de fora obrigar-nos a fazer aquilo que deveríamos ter coragem para fazermos nós próprios?
(continua…)
O meu companheiro de debate no Machina Enxuta tem falado muito acerca dos problemas da fulanização em política, a propósito da forma como tem sido atacado o actual secretário-geral do PS. Pois a mim a questão incomoda-me sobretudo por ser uma característica geral da política em Portugal. Se o PS fosse inocente nesta matéria, bem poderia queixar-se. Como não é, tem que sofrer como os outros. É longo o rol de ataques pessoais a políticos como Paulo Portas (João Soares, há uns anos, foi duma “subtileza” difícil de igualar, quando atacou Portas na televisão por não ter descendência), como já tinha sido a Sá Carneiro, a Freitas do Amaral (Soares pai também prevaricou muito nesta matéria, nomedamente quando falava do “gajo”) e a qualquer político não de esquerda que se alcandroe a uma posição em que se vislumbre a possibilidade de substituir um político de esquerda no poder. O fraco nível do debate político no nosso país tem culpados em todos os quadrantes políticos e tem cúmplices no sistema de justiça (todos os agentes das fugas de informação) e nos media (todos os beneficiários de fugas de informação). A falta de independência política de muitos funcionários públicos e titulares de órgãos de soberania (sim, refiro-me a juízes) faz-me sonhar com regras como há na Austrália (os funcionários públicos e juízes não podem pertencer a partidos políticos, agremiações, associações, etc.). Há uns anos diria que tal proibição é um exagero, mas hoje, no meu país, diria que não seria mau introduzir uma tal proibição por uns anos, embora, conhecendo-nos, o mais certo seria que a aplicação prática duma tal proibição desse origem a toda a espécie de abusos e de escapatórias. Aquilo que aconteceu ao actual Primeiro-Ministro é, provavelmente, aquilo que irá acontecer ao próximo. Bem pode no princípio do mandato ter algumas cumplicidades nos media, mas rapidamente irá saber o que é a agressividade incontida das matilhas de lobos.
Live by the press, die by the press.
Aqui segue o debate de hoje de manhã, um pouco mais acalorado do que o habitual. Estamos a conseguir, paulatinamente, encurtar o tempo. Ainda havemos de chegar aos almejados 15 minutos.
O espectáculo dado pelo PS em Matosinhos fez-me lembrar a actuação pouco cívica dos dirigentes do Benfica no final do jogo com o Porto que ditou a sorte da I. Liga de futebol.
A esse propósito, subscrevo as palavras escritas por um benfiquista como eu na entrada “Estádio das Luzes“.
Não quero parecer paranoico, mas a raiva evidenciada por alguns dos políticos mais próximos de Sócrates faz-me temer pela República. Que outros buracos haverá escondidos nas contas que têm medo de auditar? Que contratos ruinosos?
Não me acusem de especulativo. Todas as últimas passagens de poder em Portugal foram vergonhosas, sempre com contas mal apuradas, com muito lixo varrido para debaixo do tapete. Sendo Sócrates tão “determinado” como ele apregoa ser, temo que a vergonha se repita, provavelmente em pior.
Permitam-me, por breves instantes, voltar à minha área de especialidade para falar de um assunto que há muito me preocupa: tenho lido nos jornais muitas vezes artigos sobre um crime que se chama “participação económica em negócio“.
Serei eu a única pessoa que acha estranha esta designação? Que raio de país é este que plasma na lei uma definição destas? Os meus compatriotas acham normal que se fale com toda a calma desta expressão como um óbvio crime? Ninguém se interrogará sobre um país cujo legislador acha normal deignar por “participação económica em negócio” um crime de corrupção?
Dir-me-ão: olhe para o contexto, vê-se claramente que se está a falar de quem exerce funções públicas. Pois sim, mas quem exerce funções públicas não deixa de ser uma pessoa, uma pessoa que poderá arrendar ou comprar casa, adquirir um automóvel, pagar um serviço doméstico, comprar inúmeros bens e serviços, o que, pensando bem, representa uma “participação económica num negócio”.
Lamento dizê-lo, mas um país que tem uma expressão dessas na lei é um país assustador para quem queira fazer negócios legítimos.
Haverá aí alguém que me oiça? Que tal criarmos um movimento para tirar da legislação portuguesa essa horrorosa expressão que diz tanto sobre a mentalidade dominante no nosso sistema de justiça?