Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Já está em linha o número de a folha com o meu artigo “O paradoxo do icebergue”, contra os excessos aportuguesadores dos linguistas da União Europeia. Curiosamente, na mesma edição, há um outro artigo, que suponho ser de autoria de um desses linguistas, pois é uma espécie de “direito de resposta” ao meu artigo, sem dizer que o é…

Tudo bem, aceito qualquer tipo de discussão, mesmo que fracamente assumida por uma das partes. Obviamente, irei analisar cuidadosamente e reponderei daqui a uns dias.

Conforme prometido, aqui está o artigo que enviei para publicação em a folha. Ainda não está em linha, mas já foi publicado em papel, motivo pelo qual aqui o transcrevo na íntegra:

«O paradoxo do icebergue

Há muitos anos que me preocupo com a harmonização da toponímia estrangeira em língua portuguesa. Durante os anos em que trabalhei como tradutor na Comissão Europeia  (CE) intervim frequentemente em decisões acerca de como designar países e cidades estrangeiros em língua portuguesa. Tendo participado em muitas das sucessivas listas de países que foram sendo publicadas pelas instituições europeias, devo esclarecer que sempre me causou impressão o entusiasmo de alguns colegas pelo aportuguesamento de nomes geográficos que os leitores de jornais e livros portugueses estavam habituados a ver grafados em línguas estrangeiras, mormente em inglês, mas também em francês (Nantes, Loire, Nancy, Seychelles), espanhol (Jaén, San Sebastían, Medellin) ou alemão (Frankfurt, Kiel, Würzburg, Rostock). Felizmente, a maior parte destes vocábulos aqui dados a título de exemplo escaparam à militância aportuguesadora, mas tal não foi o caso das Seychelles, passadas a Seicheles (ler-se-á “seichêles?). E Frankfurt não sei se escapou, pois havia no  tempo em que eu trabalhei na CE alguns entusiastas de Francoforte (já eu sempre preferi Frankfurt, e quanto ao Franco… prefira-o fraco).

Aparentemente, pela leitura no último número de a folha do artigo “A revisão da lista de países do Código de Redação Interinstitucional”, a tendência aportuguesadora parece dominar actualmente entre os linguistas das instituições europeias, pelo menos entre aqueles que trabalham predominantemenete em terminologia. Não posso pois deixar de repetir aqui alguns dos argumentos contra o excesso de aportuguesamento que tentei defender em 25 anos de carreira na CE (artigo em a folha nº 18, em 2005, por exemplo) e que, pelos vistos, têm sido ignorados.

Quem quiser recordar os pressupostos teóricos dos aportuguesadores militantes, pode consultar o artigo “A revisão da lista do Código de Redação Interinstitucional” no boletim a folha nº 40 do Outono de 2012, nomeadamente os pontos II a) e b).

O meu ponto de partida é menos teórico e mais pragmático. Para explicar o meu ponto de vista, recorrerei sobretudo à minha visão acerca da experiência histórica de “importação” de topónimos estrangeiros no Brasil e em Portugal.

Comecemos por Portugal: ao contrário do que afirmam os autores do supracitado artigo, não é verdade que “até meados do século XX era comum afeiçoar  topónimos estrangeiros à pronúncia efectiva e às tradições ortográficas do português”. Pelo contrário, sempre existiu uma tensão ideológica entre duas linhas da cultura portuguesa que se definiam pela sua postura perante as influências do exterior (castiços versus estrangeirados). Em épocas de exacerbamento nacionalista como foram os tempos finais da monarquia, em que os republicanos, na sua propaganda marcadamente nacionalista, usaram e abusaram dos mitos da História do nosso país), a República e o Estado Novo, havia de facto predominância intelectual dos chamados castiços que causaram grandes danos à língua portuguesa, nomeadamente na sua relação com o Brasil. O primeiro grande golpe dado na sintonia entre línguas de Portugal e do Brasil foi dado pela reforma ortográfica de 1911, logo no início do regime republicano, em que o governo português nem se deu ao trabalho de consultar o Brasil, embora naquele país houvesse uma Academia Brasileira de Letras desde o final do século XIX.

Embora o aportuguesamento fosse a tendência dominante, havia muitos intelectuais “estrangeirados” que usavam com grande à-vontade termos estrangeiros nos seus textos (basta pensar em Eça de Queiroz). Esta oscilação foi permanente desde o século XVI, primeiro mais em relação ao espanhol, depois mais em relação ao francês, modernamente mais em relação ao inglês.

No Brasil também existiu sempre esta oscilação, havendo inclusive uma clara demarcação entre autores mais citadinos, cosmopolitas e regionalistas, castiços. Foram os modernistas do século XX que resolveram esta questão com a sua defesa da antropofagia cultural, isto é, o embrasileiramento da influência cultural estrangeira (um exemplo característico, muitos anos mais tarde, é a influência do jazz na bossa nova). No Brasil existiu sempre uma tendência aportuguesadora de nomes estrangeiros bem mais forte do que em Portugal, o que se explica por ser um país menos aberto à influência exterior europeia (menos turismo, menos emigração, menos proximidade de Madrid, Paris e Londres). Assim, por exemplo, no Brasil escreve-se Iugoslávia, Madri e Moscu, aportuguesamento do francês Moscou. Como curiosidade para os meus leitores, mais um exemplo: um dos membros da Academia Mineira (Minas Gerais) de Letras chama-se Oiliam José, sendo o primeiro nome “aportuguesamento”…de William.

Pelo contrário, Portugal, embora seja um país periférico na Europa (ou por isso mesmo), sempre foi muito marcado culturalmente pela influência dos grandes centros europeus difusores de cultura, mesmo em épocas de maior fechamento político.

Passemos a exemplos práticos, por ordem alfabética, todos extraídos da lista em vigor actualmente nas instituições europeias: Abu Dabi, Baamas, Bangladeche, Bisqueque, Catar, Catmandu, Doa, Dublim, Erevã, Iaundé, Jamena, Listenstaine, Nuaquechote, Numéa, Pionguiangue, Pnom Pene, Porto Luís, Porto do Principe, Porto de São Pedro, Quigali, Quinxassa, Reiqueiavique, Santo Helério , São Dinis, Saraievo, Taline, Tasquente, Ulã Bator.

Há aqui nomes que dificilmente serão identificados, como a capital da ilha de Jersey (vá lá, não lhe tiraram o ipsilon): Saint Helier. Outros, como Listenstaine, são mesmo fruto de algum radicalismo aportuguesador, pois não existe nem mais uma língua europeia de alfabeto latino com grande dimensão internacional (como a portuguesa)em que o nome do país não seja escrito em alemão: Liechtenstein. Depois temos a perseguição aos K, W e Y, um perfeito anacronismo num tempo em que tais letras estão consagradas em Portugal pelo mais recente acordo ortográfico. Em todos estes casos, o que choca mais é a sensação de que existe uma vontade militante de ignorar anos e anos de habituação do leitor português com os termos estrangeiros: Abu Dhabi, Bahamas, Bangla Desh, Bichkeck, Katmandu, Doha, Dublin, Erevan, Yaoundé, N´Djamena, Liechtenstein, Nouakchott, Nouméa, Pyongyang, Phnom Penh, Port Louis, Port-au-Prince, Saint Peter Port (capital de Guernsey), Kigali, Kinshasa, Reykjavik, Saint Hellier, Saint-Denis (Reunião), Sarajevo, Tallinn, Tashkent, Ulan Bator.

Os meus colegas, no seu afã normalizador, ignorarão, por acaso, que muitos destes termos têm anos e anos de consagração em publicações portuguesas?

Os defensores do aportuguesamento à outrance usam frequentemente o argumento de que se impõe facilitar a escrita a pessoas que desconhecem línguas estrangeiras. Ora, em Portugal, precisamente, sempre houve proximidade com várias línguas estrangeiras (filmes e séries legendados e não dobrados, presença de muitos portugueses que nalguma época da sua vida foram emigrantes, importância do turismo). Acresce que, nos últimos tempos, o país introduziu o ensino obrigatório do inglês a crianças de tenra idade, pelo que se poderá facilmente pensar que daqui a poucos anos a maioria da população portuguesa será bilingue (inglês e português).

A actividade aportuguesadora dos meus colegas só pode ser explicada por um militantismo ideológico anti-cosmopolita. O caso do Liechtenstein (Listenstaine???) brada aos céus. Mas o grave nesta questão é que, aparentemente tem existido nos últimos anos uma política sistemática de aportuguesamento de termos que aparecem frequentemente grafados na imprensa portuguesa “à estrangeira”, como diriam os nossos aportuguesadores militantes. O último em que reparei foi o yuan, a moeda da República Popular da China (iuane, segundo os aportuguesadores). Esta miltância contra os nomes estrangeiros leva-me a colocar esta questão num plano mais grave, que é o da política pura e dura: em primeiro lugar, noto que os jornais de referência em Portugal não seguem a lista das instituições; em segundo, friso que isto acontece apesar da dita lista estar amplamente divulgada (por exemplo, na Wikipedia aparecem sistematicamente as sugestões da lista “europeia”).

Falemos então de política: a ausência de entidades reguladoras da língua em Portugal sempre colocou graves problemas aos tradutores portugueses das instituições europeias. A multiplicidade de fontes a consultar em Portugal para obter esclarecimentos em matérias terminológicas causa dificuldades constantes. Com o desenvolvimento dos meios informáticos, obviamente, a própria produção de textos das instituições passou a ser uma fonte amplamente reconhecida e divulgada. Esta nossa presença num meio já muito atomizado (o das fontes credíveis de normalização da língua portuguesa) deveria obrigar-nos a ser prudentes, optando frequentemente pelas soluções mais consensuais, evitando posições controversas. Pelo contrário, verifico que os meus colegas das instituições usam os (consideráveis) meios públicos postos à sua disposição pelos contribuintes europeus para levarem a cabo uma campanha ideologicamente marcada de aportuguesamento exagerado de nomes estrangeiros. Penso que esta questão não deveria ficar no plano de um debate meramente linguístico, por isso chamo a atenção dos meus compatriotas com responsabilidades políticas nas instituições europeias (nomeadamente o presidente da CE e os deputados do PE) para esta prática exageradamente aportuguesadora de nomes estrangeiros, que não é seguida em Portugal e que coloca as instituições europeias numa posição de “mais papista do que o papa”, muito prejudicial nesta fase em que tem crescido na opinião pública portuguesa um olhar mais crítico em relação às instituições europeias.

A História da língua portuguesa está cheia de palavras-cadáveres que alguns portuguesadores militantes do passado tentaram impor. Alguns casos: Arécio, Cambrígia, Cálhari, Danzigue, Oxónia, Liverpul, Nimega, Samora, Tolosa, Valhadolide. Felizmente, parece ter havido, ao longo dos tempos, alguma sensata resistência à fúria aportuguesadora. É claro que a discussão entre linguistas mais atentos às práticas usuais (o meu caso) ou mais empenhados no aportuguesamento de nomes estrangeiros nunca acabará, mas não foi por isso que quis chamar este assunto à baila. Foi por causa dos efeitos negativos que o aportuguesamento exagerado “vindo da Europa” poderá ter na opinião pública portuguesa.

Por último, expliquemos o título deste artigo. Quando se aportuguesou a palavra inglesa iceberg optou-se por acrescentar “ue” a berg no fim, mas não se aportuguesou o “ice” inicial. De facto, “aissebergue” pareceria, no mínimo, ridículo. Por que motivo se manteve “ice” que só em inglês é que se lê “aisse”? Para manter a proximidade com o vocábulo de partida. Ora aqui está um caso em que se que demonstra que, mesmo quando se aportuguesa, há que manter uma certa moderação. Moderação que também deveria ser seguida para evitarmos vocábulos ridiculos como “Bisqueque” (serão dois queques?), “Catar” (piolhos?), “Doa” (a quem doer?), “Tasquente” (ou ´tás frio?).

Um dos maiores problemas da língua portuguesa perante a omnipresença do inglês na vida pública é o facto de muitas vezes os “grandes defensores” da língua portuguesa serem os principais causadores da sua menor popularidade, nomeadamente entre os jovens. Qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo do ensino secundário em Portugal sabe como abundam os estudantes que são óptimos alunos em inglês e mediocres em português. Claro que os sucessivos ziguezagues experimentalistas do Ministério da Educação não têm ajudado nada, mas a solução não será certamente pugnarmos por uma língua portuguesa mais nacional, mais isolada, menos amiga da interacção com outras línguas. Por isso mesmo diria que a pretensão de acentuar o particularismo do português perante as outras línguas, de forçar a sua singularidade, de exagerar a sua casticez só nos poderá levar a ver diminuidos o seu prestígio e a sua utilidade internacionais.

(Miguel Magalhães, funcionário aposentado da Comissão Europeia – [email protected]

 

Como se sabe, a Constituição da República Portuguesa foi aprovada por uma Assembleia Constituinte num período politicamente agitado, com o Estado ainda sob tutela de órgãos militares revolucionários. Por isso por lá ficou, no penúltimo parágrafo do preâmbulo, a seguinte frase: “A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno”. Ora todo este fraseado poderia ser subscrito por qualquer partido democrático, com excepção do “abrir caminho para uma sociedade socialista”. Na altura, para além dos partidos de esquerda, mais ou menos comprometidos com o ideal de “socialismo”, também o PPD (mais tarde PSD) se sentiu obrigado a subscrever a tal “abertura de caminho”, apesar de os seus eleitores certamente não o terem querido. O CDS, coerentemente, votou contra a constituição proposta.

Ora, é fácil de ver que nos dias de hoje é indefensável que figure no nosso texto constitucional uma tal prescrição, pois há muitos ideais democráticos que certamente se oporiam a que se “abrisse um tal caminho”. Porém, a nossa Constituição, infelizmente, tem um articulado que se presta muito à politiquice entre esquerda e direita, sendo que se parte do princípio de que a direita quer sempre rever a dita e a esquerda nunca o quer fazer, e isto porque, precisamente. a Constituição “pende” fortemente para a esquerda.

Contudo, o socialismo que lá está no preâmbulo é obviamente simbólico, pois ninguém ousaria argumentar pela inconstitucionalidade de uma lei por ela se opor ao tal “caminho”. Pode-se mesmo dizer que ao longo destes quase 40 anos de democracia muitas foram as leis que se destinavam mais a fechar tal caminho, do que a abrir.

Sendo assim, tenho uma proposta prática a fazer para eliminarmos este pequeno problema: dado que a frasita não serve para nada, proponho que sejam os próprios  partidos de esquerda a propor a sua eliminação do preâmbulo. Poderão os meus leitores pensar que estou a brincar, mas não, o meu propósito é apenas aproveitar a efeméride do 25de Abril para fazer uma proposta radical: já que o socialismo é uma ideia de esquerda, deveriam ser os próprios partidos de esquerda a querer que não figure na constituição.

O ideal seria que a iniciativa partisse de todos os partidos de esquerda, já que todos almejam uma sociedade socialista. Ser uma proposta de todos evitaria também que algum partido que ousasse propô-lo fosse contestado pelos outros. Contudo, todos sabemos como é difícil em Portugal os partidos de esquerda unirem-se sobre seja o que for. Passo portanto a explicar por que motivo qualquer um deles poderia ter a iniciativa: o BE, lembrando-se de que não existia em 1976, poderia ousar mais uma vez lançar-se numa causa “fracturante”, que seria tirar o socialismo da constituição, já que é uma causa pela qual devem lutar e não algo que esteja numa lei. O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao PC, pois ninguém duvidaria que esse partido continuaria a defender o “caminho para o socialismo”, independentemente do facto de tal desejo estar ou não plasmado numa lei. Por último, o PS é o partido ideal para propor esta alteração da constituição: em primeiro lugar é o único que tem o socialismo no seu nome. Em segundo, tem uma história de defesa da liberdade e da democracia e de luta contra algumas das derivas autoritárias durante este regime. Em terceiro, tem um peso numérico no parlamento que lhe permite ser essencial para qualquer revisão da constituição.

Claro que poderão opor-me alguns argumentos, como dizer que o preâmbulo é um texto que só tem valor histórico e simbólico. Concordo, mas concluo que, por isso mesmo, deveremos assumir o tempo histórico de hoje e criar um simbolo dos dias de hoje. Se me disserem que não poderemos eliminar nenhuma parte do preâmbulo porque estariamos a desvirtuá-lo, então defendo que se elimine o preâmbulo.

Seja como for, a minha sugestão aqui fica. Sei que difcilmente alguém me ouvirá, mas hoje é 25 de Abril e apeteceu-me propor algo de útil par o meu país.

 

O paternalismo na tradução

26 de Março, 2013 por Miguel RM

Ando há uns tempos a clamar contra alguns colegas meus tradutores que pensam que se deve traduzir para português um grande número de nomes geográficos estrangeiros. Bem sei que a minha crítica se tem dirigido sobretudo aos meus ex-colegas tradutores das instituições europeias que parecem empenhados em aportuguesar nomes como Lichtenstein (Listenstaine?), Pyongyang (Piongueiangue?), Phnom Penh (Pnom Pene?) ou Tashkent (Tasquente?). Partem do princípio de que têm de auxiliar o pobre povo “ignorante” a escrever palavras estrangeiras esquisitas.

Hoje vou usar o exemplo dos nomes franceses: há algumas cidades francesas ou de países de língua francesa que têm aportuguesamentos consagrados (Antuérpia, Berna, Bordéus, Bruxelas, Estrasburgo, Genebra, Marselha, eis alguns exemplos). Mas há muitas mais cujo nome não é aportuguesado, nem tem de o ser: Charleroi, Lausanne, Liège, Montpellier, Nancy, Nantes, Rennes, Rouen, Valenciennes. Se seguissemos a lógica paternalista dos aportuguesadores furiosos, como deveriamos escrever Rouen? Ruã?.

A minha questão é que não entendo qual o propósito útil que se pretende atingir com a furia aportuguesadora.

Mas este não é um caso isolado. Nas legendagens de filmes e séries televisivas passa-se algo idêntico, porque a tendência actualmente dominante entre os tradutores especializados em legendas é tornar tudo tão “português” ou “europeu” quanto possível. Assim, é comum ler em legendas de séries televisivas americanas que “fulano ganhou o euromilhões” ou ver cenas de tribunal em que advogados e  procuradores são todos “drs.” e os juízes são todos “meritíssimos”, num esforço insane de “localização”, não vá o bom povo perceber que nos EUA doutores são só os médicos e os doutorados ou que por lá ninguém pode jogar no euromilhões, só em lotarias, lotos, etc. (pobres americanos, nem sabem o que perdem…). Outra coisa que alguém que não saiba inglês nunca saberá é que nos EUA há milhas, galões, dólares e outras designações esquisitíssimas para o pobre público português incauto. Podem não acreditar, mas já vi legendas de filmes em que cowboys negociavam em …euros.

Tanto no caso dos aportuguesadores militantes de nomes estrangeiros como no caso dos legendadores “localizadores”, o ponto de partida é sempre o mesmo: parte-se do princípio de que o público é ignorante e “precisa de ser guiado”.

Assim, a tradução, em vez de ajudar o público a compreender realidades diferentes, ajuda-o a aprofundar a sua (pretensa) ignorância. Ora, se me permitem, embora não ignore que um bom tradutor deve adaptar o seu estilo de linguagem ao público visado, como é que se visa o público? Rebaixando-o à sua (pretensa) ignorância ou, pelo contrário, respeitando-o, partindo do princípio de que no vasto mundo do público indeferenciado há níveis diferentes de conhecimento e de que a informação mais correcta será entendida por uma percentagem grande desse público e obrigará os outros, eventualmente perplexos, a informarem-se devidamente?

 

No jornal Publico de hoje, Renato Epifâneo,  presidente do Movimento Internacional Lusófono, pronuncia-se sobre o acordo ortográfico com um artigo equilibrado e sensato, que passo a transcrever:

“Há algo que assaz me incomoda em toda esta querela em torno do Acordo Ortográfico (AO): um certo sentimento antilusófono que emerge em alguns dos argumentos aduzidos, como se fosse possível confundir a questão (bem vasta) da lusofonia com esta questão do AO, questão bem específica, por mais fracturante que seja. Essa confusão, deliberada nalguns casos, involuntária noutros, encontro-a, devo dizê-lo, tanto nalguns apoiantes como nalguns detractores do AO: nos primeiros, quando fazem do AO uma questão, quando não “a questão”, fundamental da lusofonia, como se não fosse possível defender a lusofonia sem apoiar o AO; nos segundos, quando, a respeito do AO, falam do “lusofonês” ou da “abrasileirização” da língua portuguesa.

Gostaria, pois, de começar por desfazer essa confusão: o AO não é a questão fundamental da lusofonia e é possível defender a lusofonia sem apoiar o AO. Conheço, de resto, várias pessoas que têm essa posição, desde logo no universo do MIL: Movimento Internacional Lusófono, a que presido. Numa sondagem que realizámos junto dos nossos aderentes, verificou-se que esta era mesmo, de longe, a questão mais fracturante – muitas delas defendem, sem qualquer reserva, o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da lusofonia no plano cultura, social, económico e político, considerando que, para tal desiderato, o AO não é fundamental, sendo mesmo contraproducente.

Pela minha parte, defendendo em teoria os benefícios de um AO, devo reconhecer que este AO a que se chegou, após o longo e sinuoso processo negocial que escusado será aqui recordar, tem causado muitos danos à lusofonia que tanto defendo. Não vou aqui entrar na argumentação mais técnica – sendo certo que sou particularmente sensível, por formação (filosófica) à questão da filologia (“sem filologia não há filosofia”), não é menos certo que a língua portuguesa, antes deste AO, já estava, em muitos casos, longe da raiz filológica. Para mais, tenho, até por razões académicas, uma visão histórica da língua: leio frequentemente textos antigos e constato que a língua já mudou (muito) mais antes do que agora com este AO. Dito isto, não posso deixar de reconhecer que este AO tem recomendações que a mim me causam as maiores reservas.

Sem orgulho nisso, devo até confessar que, quando tenho de escrever segundo este AO uso o seguinte expediente: escrevo a primeira versão sem me preocupar com o assunto; na revisão, sempre que tenho de “corrigir” algum vocábulo, arranjo um sinónimo, nem que para isso tenha de alterar a construção frásica. É daqueles casos em que me sinto mais dividido. Racionalmente, considero que um AO seria benéfico – não apenas no interior do espaço lusófono (para o ensino da língua, desde logo), mas também para fora: na ONU, por exemplo, como noutros fóruns internacionais, os documentos para divulgar são, por regra, traduzidos para português e brasileiro, como se fossem duas línguas independentes. Seria a meu ver benéfico que isso deixasse de acontecer – mas o problema é que com este AO isso não fica devidamente resolvido, como se sabe (dada a profusão das duplas grafias).

Tudo seria mais fácil se a história fosse um jogo de computador, em que pudéssemos voltar atrás sempre que damos um passo em falso. Nesta questão, o grande passo em falso foi dado, como é sabido, por Portugal, em 1911, quando, unilateralmente, avançou para uma reforma ortográfica sem o acordo do Brasil. Já então “a língua não era só nossa, mas também nossa”. De então para cá, essa fissura ortográfica foi-se alargando – a ponto de, actualmente, ser talvez impossível um AO aceitável para ambas as partes. Mas talvez fosse possível dar ainda um último passo nesse sentido: face a todas as hesitações, agora até do Brasil, deveríamos sentar-nos a uma mesa e, sem qualquer pressão mediática, repensar este AO desde a raiz. Sem recriminações nem preconceitos – a esse respeito, gostaria também de dizer que os defensores deste AO que conheço (falo apenas daqueles que conheço) são pessoas genuinamente bem-intencionadas – não os “vendidos a interesses comerciais” como, por vezes, são apresentados.

Estou, de resto, cada vez mais convencido de que, mesmo que este AO entre em vigor, mais cedo ou mais tarde ele terá de ser revisto. Talvez agora isso não seja possível, dado o impasse a que se chegou. Mas isso, fatalmente, irá acontecer. Nem que seja para, em última instância, reconhecer que nenhum AO será aceitável para ambas as partes. Não será por isso que a lusofonia morrerá. Como é cada vez mais reconhecido, o maior erro estratégico de Portugal nestas últimas décadas foi ter desprezado os laços com os restantes países e regiões do espaço lusófono – isso fragilizou-nos, em muito, no plano global e, em particular, no seio da União Europeia, onde estamos, cada vez mais, numa posição subalterna. O impasse em que agora estamos é, de resto, bem maior do que o impasse do AO. Não podemos sair do euro e, ficando no euro, pior cada vez mais estaremos. Sem ser uma panaceia, longe disso, a convergência lusófona é a via que, a médio-longo prazo, melhor garante o nosso futuro. Com ou sem AO.”

 

Assino por baixo

 

A História da língua portuguesa está cheia de palavras-cadáveres que resultaram de tentativas falhadas de aportuguesar à força nomes geográficos estrangeiros. Também resultantes dos esforços de alguns aportuguesadores militantes há inúmeras incongruências. Eis algumas: por que motivo se escreve Nova Iorque, se York é um condado inglês, ou seja, um nome próprio inglês, que na tradição portuguesa se escreve mesmo assim (York). Por que motivo se escreve em português icebergue, ou seja, aportuguesa-se “berg”, mas deixasse intacto o “ice”? Coerente seria deixar sossegado o termo inglês “iceberg” ou então, sendo-se fanático do aportuguesamento, inventar uma palavra verdadeiramente horrorosa como “aissebergue”. Há casos de gritante idiotice como, por exemplo, escrever-se Sidney, em vez de Sydney, para designar a bela capital da Nova Gales do Sul, na Austrália. Acontece que Sydney também é o nome próprio do lorde inglês que deu o nome à cidade.

Já ninguém se lembra, mas Oxónia (Oxford) e Cambrígia (Cambridge) já foram palavras defendidas por linguistas radicais defensores do aportuguesamento de nomes estrangeiros. E por que motivo estou a voltar a este tema? Porque, infelizmente, os meus ex-colegas dos serviços de tradução das instituições europeias parecem estar lançados numa deriva aportuguesadora de nomes estrangeiros, que considero errada, prejudicial à língua portuguesa e um abuso dos meios públicos postos à disposição dessas instituições para fazerem valer as línguas oficiais europeias.

Sob o pretexto paternalista de quererem ajudar as pessoas que não conhecem línguas estrangeiras a grafarem correctamente os nomes geográficos não portugueses, lançaram-se numa actividade de aportuguesamento furioso de imensos nomes estrangeiros que estão consagradíssimos em publicações portuguesas. O casio mais gritante é o do Liechtenstein, país cujo nome alemão é aceite tal e qual em inglês, em francês, em espanhol e em italiano, e também tem sido aceite em português, mas os linguistas das instituições europeias querem que escrevamos “Listenstaine”, mais um caso de aportuguesamento infeliz e desnecessário. O mesmo se passa com nomes asiáticos como Pyongyang, em que, em vez deste nome curto e sincopado resultante da transcrição do coreano para o inglês, nos propõem uma palavra “portuguesa” bem comprida, Piongueiangue, ou seja, Pi-on-gue-ian-gue, um comboio de cinco silabas que prolongam inutilmente a palavra. Basicamente, os aportuguesadores militantes têm duas obsessões: a primeira é eliminarem todos os K, W e Y que puderem, a segunda é acrescentarem a letra “e” muda sempre que seja possível (é a lógica de Amesterdão e Afeganistão, infeliznmente já muito consagrados), para assim evitarem sequências vocálicas ou consoantes agrupadas que não sejam usuais em língua portuguesa.

Este exagero aportuguesador é contrário à tradição portuguesa de contacto fácil e contaminação da nossa língua com outras grandes línguas de comunicação europeias. É um excesso de zelo inaceitável por parte de funcionários internacionais cuja principal preocupação em matéria cultural deveria ser o de respeitarem o princípio da subsidariedade e estarem atentos às práticas mais comuns no país em causa.

Como estou a pôr em causa a opinião dominante entre vários ex-colegas que estimo e com quem trabalhei proficuamente durante vários anos, escrevi um artigo mais longo para o boletim da língua portuguesa nas instituições europeias, que se chama a folha; indicaram-me que deverá ser publicado no final de Abril e nessa altura tenciono publicá-lo também aqui.

Chipre não é chifre

19 de Março, 2013 por Miguel RM

Irra!!!

Por causa duma triste notícia para os cipriotas, as televisões e os jornais portugueses voltaram a estar cheios de “o Chipre”. Já tentei várias vezes explicar que há países cuja designação não tem artigo definido. Alguns exemplos: Cabo Verde, Cuba, Chipre, Madagáscar, Malta, Marrocos, Moçambique, Portugal, Taiwan.

Quanto às ilhas que têm artigo definido, normalmente é feminino, por semelhança com a ilha, salvo os casos em que designam também algo concreto como, por exemplo, os Açores, que também são umas aves.

Como não entendo por que raio de carga de água é que apareceu o artigo “o” em Chipre (não há artigo definido em inglês, nem em francês, nem em espanhol, as três línguas que mais contaminam a portuguesa), só posso concluir que o artigo definido surgiu por a palavra Chipre ser parecida com “Chifre”.

Bem sei que existe um “corno de África”, nas margens do oceano Índico, mas Chipre é uma ilha do Mediterrâneo. Pese embora a proximidade com a palavra “chifre” e a própria forma da ilha que até pode fazer lembrar um chifre ou um corno, insisto, pela última vez, que Chipre é Chipre, sem artigo definido. Chipre não é chifre.

Há muitos anos que me preocupo com a harmonização da toponímia estrangeira em língua portuguesa. Durante os anos em que trabalhei como tradutor na Comissão Europeia intervim frequentemente em decisões acerca da forma que deveriamos usar para designar países e cidades estrangeiros em língua portuguesa. Se algum dos meus leitores quiser aprofundar esta questão, aconselho a leitura do artigo “A revisão da lista de países do Código de Revisão Interinstitucional” no boletim “A Folha” do Outono passado. Tendo participado em muitas das sucessivas listas de países que foram sendo publicadas pelas instituições europeias, devo esclarecer que o texto de “A Folha”  reflecte uma tendência defensora do aportuguesamento dos nomes, à qual me opus quase sempre. Num dos últimos parágrafos antes da conclusão, os autores sugerem-nos que designemos por “iuane” a moeda chinesa com a seguinte justificação: “atendendo à importância que entretanto (o yuan) assumiu à escala mundial e ao facto de que fontes credíveis utilizam já essa forma”. Nem sei se me dou ao trabalho de rebater a argumentação, mas vamos a isto: então se o “yuan” não tivesse importância nenhuma já poderia ser yuan? E, já agora, fontes credíveis? Quais?

Não quis deixar de recomendar o artigo porque é interessante e bastante informativo, mas não me poderia furtar a denunciar a fúria aportuguesadora que caracteriza alguns dos nossos linguistas. A argumentação dessas pessoas assenta sempre numa visão paternalista do leitor. Leia-se o seguinte parágrafo: “Não há, porventura, melhor teste da qualidade de um aportuguesamento do que o de fazer um ditado a uma criança ou a um adolescente que ainda desconheça a ortografia estrangeira do termo em questão. Quando se lhe propõe esse exercício, os termos são sempre escritos exatamente conforme a pronúncia, como se fosse essa a única forma concebível de os escrever na nossa língua (…..)”. É muito significativo que utilizem crianças e adolescentes para nos explicarem a utilidade de termos como “Catar” (Qatar, diria eu) ou “Doa” (Doha, claro). Espero que não lhes doa a consciência quando resolverem catarem-na. Os exemplos de grafias absurdas como Pnom Pene (Phnom Penh), Campala (Kampala), Zimbabué Zimbabwe) ou Pionguiangue (Pyongyang) fazem-me imaginar que deverá haver entre os meus colegas linguistas das instituições europeias uma espécie de brigada encarregada de eliminar os malditos k,w e y. Adiante…

A discussão entre linguistas mais atentos às práticas usuais (o meu caso) ou mais empenhados no aportuguesamento nunca acabará, mas não foi por isso que quis chamar este assunto à baila. Foi por causa doutra questão, que é a da interferência da política na forma como se escreve. Há inúmeros casos de países que mudam de nome por motivos políticos e os bons costumes internacionais aconselham a que se respeite a forma que cada país escolhe para se designar a si próprio. Mas até onde é que devemos respeitar este princípio? Há uns anos, a China resolveu contestar a forma como os caracteres chineses são transliterados para o alfabeto latino. Passou a haver uma chinês alfabetizado, chamado pinyin, que passou a ser a transliteração “reconhecida” pelas autoridades de Pequim (Beijing, segundo eles). Em Portugal, o jornal “Público” apressou-se a aceitar o pinyin, mas a maior parte da imprensa portuguesa não seguiu esse caminho (o “Público”, entretanto, recuou um pouco e passou a consagrar 3 excepções: Pequim, Cantão e Xangai). De facto, por que motivo é que as autoridades chinesas hão-de interferir na forma como transcrevemos para a nossa língua outras grafias? Outro caso: em 1985 a Costa do Marfim resolveu solicitar à comunidade internacional que se abstivesse de traduzir o nome do país e que usasse exclusivamente o nome “Côte d’Ivoire”. Em Angola, por exemplo, talvez por uma questão de  solidariedade africana, os jornais até escrevem “cotedivoirense”. Os meus ex-colegas das instituições europeias, muito sensatamente, no tal “Código de Redação Interinstitucional”, consagram “Costa do Marfim” e “costa-marfinense” e remetem para uma nota de pé-de-página a seguinte indicação: “República da Côte d’Ivoire em termos protocolares”. Eu faria o mesmo. Penso que devemos ser correctos e aceitar as opções dos outros, mas também devemos exigir dos outros que respeitem as nossas.

Saber como se escreve isto ou aquilo em português é decisão nossa. Só é pena que nem sempre se saiba quem é que tem autoridade para decidir. Mas essa já é outra história…

 

O sexo de Chipre

27 de Janeiro, 2013 por Miguel RM

Sob este divertido título, Miguel Esteves Cardoso MEC), numa crónica publicada na passada sexta-feira, 25 de Janeiro no jornal PÚBLICO, escreveu um simpático e bem-humorado texto sobre o facto de o nome de Chipre exigir artigo definido indeterminado, tal como alguns outros nomes de países (Portugal, Malta, Marrocos, etc.). Citou a esse propósito um pequeno artigo meu aqui publicado há mais de uma ano. Como é raro alguém falar do meu blogue, agradeço obviamente as referências elogiosas, ainda mais vindas de um autor que muito admiro desde as suas primeiras crónicas na imprensa portuguesa (Expresso, A Causa das Coisas).

O pequeno texto de MEC teve outro efeito positivo: fez-me pensar que talvez não seja má ideia eu “ressuscitar” o meu blogue, pois verifica-se que sempre pode ter alguma utilidade, por pouca que seja. Acontece que eu criei o blogue para falar sobre o acordo ortográfico (AO), porque me chocava o desconhecimento acerca da realidade da língua portuguesa no Brasil manifestado por algumas reacções anti-brasileiras de inimigos do AO. Como escrevi já há quase um ano, num artigo intitulado “A questão do AO já fede”, o AO deixou de me interessar quando fiz algumas tentativas de conciliar posições entre os dois lados da barricada e me vi confrontado com reacções de total sectarismo de ambos os lados. Fartei-me da falta de sensatez com que a questão é debatida.

Claro que saúdo o facto de o Brasil ter adiado a aplicação do acordo, pois sei há muitos anos que do lado de lá do Atlântico a questão da língua é política com P grande: perante dúvidas face à utilidade do acordo, não se põem a dizer que só os que não querem o acordo é que defendem a língua, não se põem a brincar às guerras, assinado colunas em que escrevem “o autor (não) escreve segundo o AO”, limitam-se a influenciar os políticos para tomarem uma decisão sensata e esperar que a Academia Brasileira de Letras (pois é, lá há uma, fundada em 1896, com estatutos assinados por Machado de Assis) faça o “trabalhinho de casa”, que é aquilo para que parece nunca haver disponibilidade do lado de cá do Atlântico.

Resumindo, não voltarei ao AO, a não ser que apareçam mais pessoas que queiram trabalhar para melhorar a péssima situação actual em que estamos, com acordistas e anti-acordistas entretidos com despiques próprios de adolescentes em torno de saber quem é mais amigo da língua portuguesa. Entretanto, há uma questão tão “pouco” importante como esta: como agir para que se escreva melhor na nossa língua. E aí posso ir ajudando.

Não quero deixar de agradecer também publicamente a algumas (poucas) pessoas que sempre leram os meus artiguitos e que sempre me incentivaram a não desistir deste blogue. Devo também à sua insistência este meu regresso às lides, praticamente um ano depois de ter deixado este blogue adormecido.

Talvez o próprio MEC, que tanto contribuiu nos anos 80 para renovar o patriotismo em Portugal, seja sensível a este meu apelo que mais não visa do que arranjar soluções exiquíveis para a questão do AO e aproveitar as energias de tantos os interessados na nossa língua para que trabalhem para o bem comum, em vez de perderem tempo a marcar território.

 

 

No jornal “Público”, de dia 19 de Fevereiro de 2012
ACORDO ORTOGRÁFICO: PRÓS E CONTRAS
Helena Topa

  Sou uma de­fen­so­ra, em­bo­ra crí­ti­ca, des­te AO. Re­cu­so-me a re­jei­tá-lo li­mi­nar­men­te, e pug­no por uma re­vi­são dos pon­tos que ca­re­cem de cor­re­ção. recente episódio da proibição de seguir a nova norma ortográfica por parte do novo diretor do CCB, Vasco Graça Moura, veio relançar, e incendiar, o debate sobre o Acordo Ortográfico (AO). Debate esse, em boa verdade, escasso, dado que, com honrosas exceções, apenas ouvimos as vozes dos detratores.

 Tudo o que tenho lido e ouvido sobre o Acordo Ortográfico revela quase sempre posições extremas, a favor ou, mais frequentemente, contra. É claro que todos têm o direito de se sentirem lesados com estas mudanças, afinal aprenderam a ler e a escrever as palavras da sua língua de uma determinada maneira, e essa maneira de escrever, que se tornou automática, é agora alterada.

Mas o que mais me preocupa não é haver pessoas radicalmente contra ou a favor, é haver ainda muita ignorância e uma multiplicação de artigos de opinião que pouco fazem para esclarecer. Penso que caberia aos meios de comunicação social um papel pedagógico, expondo os factos, esclarecendo, chamando linguistas, professores, políticos e cidadãos a pronunciarem-se sobre o AO.

Este acordo é sobretudo político, fazendo com que os aspetos linguísticos, que deveriam estar à frente das preocupações dos redatores do acordo, quer em Portugal quer no Brasil, tivessem sido ou insuficientemente amadurecidos, ou demasiadamente sujeitos à lógica do acordo, o que implicou cedências, uma uniformização, mas não uma unificação. Não há uma norma absolutamente comum, não poderia haver.

Mas vamos aos factos. 1) Suprimiram-se as consoantes mudas c e p, mantendo-se quando são articuladas. 2) Suprimiram-se alguns acentos, sobretudo nas palavras graves. 3) Uniformizaram-se e clarificaram-se as regras da utilização do hífen. 4) Foram revistas as regras de utilização das maiúsculas e minúsculas. 5) Foram (re)introduzidas três novas letras no alfabeto, k, w e y.
Apresentados os factos — não exemplifico por questões de espaço, mas bastaria uma folha A4 para fazê-lo —, passo a expor a minha perspetiva de falante e escrevente nativa da língua portuguesa, também na qualidade de professora de português e de tradutora. Parecem-me óbvias as vantagens de muitas das alterações propostas pelo AO, sobretudo para quem aprende a escrever: a supressão das consoantes mudas, a uniformização das regras da hifenização e da acentuação facilitam a tarefa de quem ensina e aprende a ler e a escrever, sendo as restantes menos relevantes deste ponto de vista.
De entre todas, parece-me que a supressão das consoantes mudas, pela percentagem relativamente elevada de palavras sobre as quais incide, é especialmente importante. Os dois principais argumentos contra esta alteração prendem-se com: a) a etimologia e a tradição de uma certa norma gráfica e b) as exceções que esta regra admite. Quanto ao primeiro argumento, os detratores falam de uma descaraterização da língua, do perigo de fechamento das vogais que precedem as consoantes sacrificadas pelo AO; quanto ao segundo, são apontadas situações de possível dupla grafia, uma vez que, se se seguir o critério fonológico (“escrevo conforme falo”), é possível criar, no limite, regras “individuais” (ex.: se eu disser “característica” escrevo com C, se disser “caraterística” escrevo sem C).

Se em relação ao primeiro argumento, embora seja sensível ao critério etimológico da grafia, me custa aceitá-lo sem mais, em relação ao segundo, concordo com o risco de que estas exceções se revestem, sobretudo para quem tem de ensinar (e aprender) a ler e a escrever. De facto, como avaliar a escrita em função da articulação de cada aluno? Como ensinar a noção de norma se ela admite exceções e “regras facultativas”? Voltando ao primeiro argumento, o etimológico, posso contra-argumentar de várias formas: 1) Se a etimologia fosse um valor a preservar a todo o custo, não haveria sequer lugar a reformas ortográficas, como as de 1911 e 1945, em que se verificou, tanto numa como noutra, uma aproximação tendencial entre grafia e fonia (ainda deveríamos escrever “philosophia”, “addição” ou “auctor”, etc., se este critério fosse levado à risca); 2) A ortografia, ou forma correta de escrever, é um esforço para encontrar uma norma, o menos ambígua possível, de registar graficamente os sons da fala; como tal, implica convencionalidade e até um certo grau de arbitrariedade. Ora, parece-me ser desejável uma relação tão clara e inequívoca quanto possível entre a(s) letra(s) e os sons que pretendem transcrever, e penso que no caso da supressão das consoantes mudas se faz um avanço nesse sentido. 3) A análise de algumas palavras que são por certas pessoas articuladas com c ou p (e por outras não: ex.: característica vs. caraterística, sectorial vs. setorial, corrupção vs. corrução) mostra que estamos perante uma mudança linguística (fonética) ainda em curso, que tem vindo a ocorrer provavelmente desde o princípio do século XX. A nova norma trazida pelo AO dá conta dessa mudança, que não é ainda completa, pelo que admite, com as desvantagens referidas, a possibilidade de uma dupla grafia (em muito poucos casos, diga-se, e com tendência a desaparecer). 4) O argumento de que a ausência de consoante c ou p para abrir a vogal precedente não colhe. Quem apresenta este argumento, cita habitualmente palavras como setor, receção, aspeto, porque poderão vir a ser confundidas, respetivamente com s’tor (abreviatura de Sr. Dr.), recessão e espeto (o substantivo, não o verbo). E não sabe que este argumento não é totalmente fiável (por exemplo, nas palavras tactear ou exactidão o c não abre a vogal).

Em síntese: 1.º Parece-me que este acordo tem algumas vantagens (haver uma maior aproximação entre fala e escrita, e uma maior uniformidade de critérios, nomeadamente na hifenização); 2.º Tem, no entanto, muitas insuficiências e cria problemas novos onde não existiam (as “facultatividades”). 3.º Vai ser mais problemático para as escolas, para os professores que têm de ensinar a escrever e que se vão confrontar com as inconsistências da nova norma. 4.º Parece-me que algumas mudanças são empoladas e dramatizadas (e serão assim tantas e com tantos efeitos? Experimentem ler textos de jornal, aqui no PÚBLICO, por exemplo, onde as duas normas convivem, e não vão notar assim tantas diferenças). Aqui d’el-rei!, como irá um professor explicar ao pobre aluno que ‘Egito’ se escreve sem p e ‘egípcio’ com? Do mesmo modo que terá de explicar, por exemplo, que ‘dicção’ se escreve com c e ‘dicionário’ sem. E outras irregularidades (não só ortográficas) da língua. 5.º Ninguém é obrigado a escrever segundo a nova norma, a não ser que vá ser avaliado por isso. Fernando Pessoa recusou-se a aceitar a reforma ortográfica de 1911 e ninguém o multou por isso, Teixeira de Pascoaes também tinha muitas reservas em deixar de escrever “abysmo” com y porque, segundo ele, escrever abismo com i o convertia numa superfície banal.

Sou uma defensora, embora crítica, deste AO. Recusome a rejeitá-lo liminarmente, e pugno por uma revisão dos pontos que carecem de correção. É importante que surjam críticas, movimentos de desacordo, mas é importante também que haja uma discussão informada e serena, em que todos os lados e protagonistas estejam representados.