Uma trapalhada trapalhona: os peticionistas anti-acordo estão preocupados sobretudo com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau…
8 de Janeiro, 2009 por Miguel RMOntem, no Diário de Notícias, Vasco Graça Moura (VGM) vem confirmar aquilo que já assinalei aqui também ontem em “Entrada em vigor do acordo ortográfico: piratas, samba e outras particularidades da nossa língua”: uma inflexão táctica dos peticionistas anti-acordo ortográfico (AO). Depois de terem calmamente utilizado uma onda xenófoba de muitos dos seus apoiantes, certamente para aumentarem o seu número, estão agora muito preocupados em mostrar-se interessados nos problemas dos “outros” falantes de português. No artigo de anteontem, intitulado “Uma trapalhada trapalhona“, VGM fala agora numa “comunidade de língua portuguesa” nos seguintes termos: “para cima de 50 milhões de seres humanos que falam e escrevem a língua portuguesa na sua dimensão luso-afro-asiática”. Brilhante. Finalmente percebemos o que pretende alcançar. Uma cisão na CPLP. Claro que temos algumas dúvidas, nomeadamente sobre o número (será que incluiu toods os angolanos, moçambicanos e guineeneses como falantes de português?). Pretenderá então VGM que os novos países de língua portuguesa criem uma espécie de “imunidade” à influência brasileira e fiquem para sempre irmanados nessa “dimensão luso-afro-asiática”? Que poderemos nós fazer senão desejar-lhe (ironicamente, claro) boa sorte?
Gostaria de dizer que aqui no Brasil somos 193 milhões de falantes da língua portuguesa, que adoram o povo de portugal – qualquer um que tenha cruzado o oceano para esses lados sabe disso! Nossa pronúncia, com as vogais bem soletradas é bem compreensível aos ouvidos dos habitantes de Lisboa e do Porto(mais que a da Galiza, por exemplo) e jamais passou pela cabeça de qualquer linguísta respeitável aqui nesse país sugerir a criação de um “Idioma Brasileiro” autônomo, que certamente já nasceria maior que o “português luso-afro-asiático” dos oposicionistas ao acordo – mesmo que estes incluíssem no meio dos seus falantes aqueles que só falam Mandarim. Se as mesmas idéias dos atuais contrários ao acordo tivessem vigorado durante o passar dos séculos, ainda estaríamos a falar o Latim (quem sabe se não o Fenício…).
Sob minha ótica, já está quase na hora de fazermos um outro acordo, para simplificar ainda mais as regras do hífem e resolver de uma vez por todas questões fonéticas e padronizar os topônimos. Somos todos uma só língua, com mais de 200 milhões de falantes, com uma riquíssima literatura e, principalmente, uma língua viva e em evolução!
Janeiro 14th, 2009
Obrigado, Cláudio, por mais este comentário de apoio. Acontece que tenho estima intelectual por muitas das pessoas que criticam o acordo, mas não posso aceitar a falta de discernimento subjacente aos argumentos anti-Brasil. Concordo inteiramente consigo quando diz que deveríamos avançar para novo acordo, mas vamos ter de esperar uns tempos para que os ânimos se acalmem.
Janeiro 15th, 2009