Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

A petição contra o acordo ortográfico que circulou amplamente e foi assinada por muitos portugueses parte de um erro político grave, que é ignorar totalmente o facto de haver um acordo assinado por Portugal e os outros países lusófonos. Ao apelar a uma rejeição unilateral do acordo, sem qualquer consideração pelas posições dos outros países signatários, a petição revela ao que vem. Os peticionistas querem manter o português de Portugal tal como está, sem ter em conta as opiniões dos outros países de língua oficial portuguesa e sem se preocuparem com as consequências duma atitude unilateralista.

Há muitos outros lusófonos, no entanto, que estão genuinamente preocupados com a língua portuguesa e que não precisam de estar zangados com o acordo para manifestar essa preocupação. Já que os inimigos do acordo fazem tanto alarido, não seria útil que nos manifestássemos também, todos os que pensamos que a língua portuguesa precisa de mais concertação entre países lusófonos e de menos «indignação»  unilateralista?

3 Comentários »

  1. A propósito do Manifesto contrário, sou contrário ao mesmo e peço que me entendam.

    Sou brasileiro. Sou falante do português; o português é a minha língua-mãe. Não gosto de me sentir olhado de soslaio por alguns portugueses, que pensam que, por ser brasileiro, falo e escrevo mal. A expressão em português é a minha forma de dizer ao mundo que SOU. É, portanto, o meu sinal de existência no mundo. Poderia existir, com o meu corpo, como um animal. Exisitiria, mas não seria. O meu corpo faz uso das suas faculdades mentais para dizer quem sou. E, para isso, usa um código lingüístico que nasaliza as vogais, que arredonda as terminações verbais em AWN, soando redondo, diferente, próprio, que fexiona o infinitivo. Sou brasileiro e falo português. Isso é fato.
    Pronunciamos, nos dois lados do Atlântico, a palavra escrita, no Brasil, ATO, e em Portugal, ACTO como /a/tu/ . Não é bom que se escreva de duas formas. O Brasil eliminou a consoante muda em 1943. Por praticidade, por adequação. Portugal, não. Seria /o/ti/mu/ se o ÓPTIMO português fosse escrito como no Brasil, já que pronunciamos igual, sem a consonate. Não o é. Para o FATO brasilerio ser FACTO em Portugal, concordo que não se retire o “C”, para não gerar confusão com o FATO português.
    O Acordo tem coisas boas, mas também tem debilidades. Claro está. E para isso, nós, sociedade usuária da língua, devemos estar atentos e falarmos com as autoridades.
    Contudo, caracterizar o movimento que agora se levanta em Portugal como movimento de oposição, com tanta radicalidade, é ação tardia. O Acordo vem gerando-se desde 1990. Porquê os escritores, intelectuais e demais integrantes do movimento de oposição não chegaram a tempo de contribuir e construir? Não chegaram…… A discussão estava lançada.
    Ora, como brasileiro, aprendi a escrever TRANQÜILO e não TRANQUILO. Soa-me feio. Não consigo pronunciar bem. Logo, vou confundir QUENTE com QÜENTE? Eu, não, porque como disse e faço questão de frisar, sou nativo. Os portugueses retiraram o trema há tempos. Agora, com o Acordo, como um estrangeiro aprendente da língua vai resolver o dilema???? Com o professor, sei. Mas será mais difícil.
    Tampouco sou a favor de retirar o acento circunflexo de VÔO e MAGÔO. Parece-me /vu/u/ e /ma/gu/u/. Mas os portugueses já o retiraram há tempos. Porque não se fala disso?
    Há coisas bastante engraçadas para se pensar, senhoras e senhores. No Brasil, pronunciamos a palavra RECEPÇÃO assim: /re/cep/sawn. Em Portugal, pronuncia-se /re/ce/sawn. Neste caso, retirar a consoante soa-me fatal, soa-me “recessão”. Vêem que o problema não é só vosso? E por falar em VÊEM, LÊEM, CRÊEM….. acho ruim também retirar o circunflexo. Mas se for para facilitar a escrita, aceito. Se for para gerar desenvolvimento, aceito! Imaginem o quanto podemos participar, só com a questão da língua unificada, no desenvolvimento das nações-irmãs africanas. E do próprio nordeste brasileiro, região mais castigada pela pobreza. A questão está em não criticar à toa, mas, sim, contribuir.

    Obviamente, estou totalmente de acordo com algumas críticas a alguns pontos do Acordo. Como, por exemplo, a supressão do acento tônico das palavras proparoxítonas. Carece de sentido. No italiano, sim, porque há uma tendência natural do falante a pôr o acento na antepenúltima sílaba das proparoxítonas. Mas em português, não. A retirada do hífen nalguns casos não me parece de bom tom, como, por exemplo, na palavra ibero-americano. Parece que estarei escrevendo em espanhol: iberoamericano.

    Mas, senhores, entre isso e promover um movimento, que não se propõe a, antes, explicar ao povo o que é o Acordo, o vai mudar na ortografia (1,6% em Portugal e 0,6 no Brasil) e deixar que o povo opine, não me parece bom. Estive, outro dia, a ver as opiniões dos portugueses num website português e todos, praticamente todos, estavam crentes de que seriam obrigados a falar “brasileiro”. Pasmem, senhores, pasmem. Eu pasmei. Porque eu não falo brasileiro. Falo português, até que a vaca tussa, eu seguirei falando português. Depois disso, pode ser…. Com a engenharia biológica de hoje tudo é possível. Mas seguirei falando a língua de Camões. E de Machado de Assis. Tão de lá como de cá. De lá, digo, do Brasil (eu moro na Espanha). Muda tão pouco, é só um esforço. Não precisa esta revoada toda. Acho mais bem que os senhores intelectuais deveriam era produzir, isso sim. Produzir e propor, naquilo que não está bom. Mas não fazer o que estão fazendo.

    E quem disse que um português nativo vai chamar “moleque” ao que sempre denominou “miúdo”? Muito menos um brasileiro. Unamo-nos e defendamos a nossa língua da sua extinção frente ao poderio do inglês e, agora, do espanhol. Seremos mais fortes. Não retiraremos nenhum grão de cultura das nossas sociedades. Mas isso exige esforço e sacríficio. Dos escritores, dos ministros de educação, dos responsáveis pela atual péssima programação televisiva de lá e de cá, dos professores, dos padres, nos seus sermões dominicais. Precisamos formar mais e melhor os nossos professores de português, principalmente no Brasil, o grande celeiro dos lusófonos do Século XXI, mas também na África, onde a língua portuguesa funciona, hoje, como um elo de integração entre as diversas culturas que conformam os territórios de Moçambique e Angola. E que precisam de livros, muitos livros, brasileiros e portugueses!

    A questão está em que, continuar como estamos, não podemos. Temos de mudar. Se o texto do Acordo está desconchavado, como dizem, arranjemo-lo! Participemos! Exijamos o nosso direito a definir a nossa língua! Mas não paremos o movimento.

    E considerem: não perdemos tanta cultura, senão ganhámos, desde que D. Dinis escreveu estes versos:
    “Ai flores, ai flores do verde pino,

    se sabedes novas do meu amigo!
    ai Deus, e u é?
    Ai flores, ai flores do verde ramo,
    se sabedes novas do meu amado!
    ai Deus, e u é?
    Se sabedes novas do meu amigo,
    aquel que mentiu do que pôs comigo!
    ai Deus, e u é?
    Se sabedes novas do meu amado,
    aquel que mentiu do que mi há jurado!
    ai Deus, e u é?”
    (…)
    Mas hoje, hão de convir, nós já não escrevemos assim… Nem lá, nem cá. Purismo por purismo.

    Obrigado por se aterem ao meu pequeno comentário.

    José Lucimar Lourenço da Silva
  2. Obrigado pelo seu comentário. Tenho a certeza que há muitos portugueses que pensam como nós, mas infelizmente aparecem pouco no debate por temerem ser considerados próximos das “autoridades”. Há no meu país um preconceito idiota - criado pela mania das grandezas e por um posicionamento servil perante o Estado - que desqualifica sempre as posições moderadas, reformistas e evolutivas. O que tem “glamour” mesmo é ser contra “eles”, um poderoso grupo indefenido de “poderosos”. Infelizmente, agora só há más soluções, pois o acordo só poderá avançar se o partido do governo (PS) ousar avançar contra a opinião de tantas personalidades da cultura portuguesa. Embora seja uma solução menos boa, ainda assim seria menos má do que o isolamento de Portugal perante os países seus parceiros nesta questão.

    Miguel RM
  3. Não posso deixar de rectificar um pouco o meu comentário anterior. O que aconteceu de facto na AR foi que quase todos os partidos estiveram à altura da situação. No PS e no PSD, principais partidos do país, quase todos os deputados presentes votaram a favor (houve uma ou outra abstenção e uns poucos deputados que se retirararm na altura de votar). No BE votaram todos a favor, no CDS só cerca de metade votou a favor. O PCP absteve-se, provavelmente devido à aliança deste partido com alguns sectores mais “tradicionais” da vida cultural.

    Miguel RM

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