“Uma estratégia simples”, de Rui Tavares
9 de Junho, 2008 por Miguel RMNa última página do jornal “Público” de hoje, Rui Tavares, sob o título “Uma estratégia simples” (está em linha no blogue 5dias) expõe com clareza os motivos de todos nós que não aceitamos a forma de actuar dos assinantes da petição contra o acordo ortográfico. Rui Tavares denuncia o grande propósito táctico dos peticionistas que consiste em “esperar” que o Presidente da República opte por vetar o acordo. Felizmente, parece-me pouco plausível que tal venha a acontecer, pois Cavaco Silva tem sido bastante cauteloso em relação a esta matéria e das poucas vezes que se pronunciou fê-lo com moderação e bom senso. Mas o artigo fala sobretudo de algo que me interessa muito que é a relação dos portugueses com o Brasil. Há temas como o acordo ortográfico (ou os futebolistas brasileiros que adquirem a nacionalidade portuguesa) que despertam reacções antibrasileiras no nosso país, sempre marcadas por uma mistura de complexos de superioridade e inferioridade, muito típica da relação doentia com “as nossas grandezas do passado”. Note-se que no Brasil também existe um sector da opinião pública com ressentimentos de tipo idêntico no sentido inverso, que tenta culpar Portugal por tudo de mau que existiu no Brasil, desde a escravatura até à má governação. Sempre que oiço tais argumentos, respondo chamando a atenção para o facto de o Brasil estar perto de festejar dois séculos de independência.
Há portanto, de ambos os lados do Atlântico, quem considere que os ressentimentos oriundos do passado são úteis para nos situarmos nos dias de hoje. Penso exactamente o oposto. Sei que, na sua grande maioria, a opinião pública de ambos os países tem sentimentos positivos em relação ao país parceiro do outro lado do Atlântico. Mas sei, sobretudo, que é do nosso interesse comum semos aliados na cena internacional. E a política externa tem sobretudo a ver com interesses, e não com “estados de alma”. Por isso, independentemente de se gostar mais ou menos da MPB, do futebol brasileiro ou de seja do que for do Brasil, o interesse estratégico de Portugal passa por relações privilegiadas com o Brasil. Esta é minha resposta a Vasco Graça Moura e a Pedro Mexia, que tentaram desqualificar as posições de quem se opõe à petição anti-acordo, designando-as como “tonto-tropicalistas” (que consideram bom tudo o que vem do Brasil). Não se trata de não ter espírito crítico, trata-se de saber onde está o interesse do país. Pela parte que me toca, apraz-me registar que há actualmente de ambos os lados do Atlântico regimes democráticos consolidados, uma situação de que todos deveríamos tirar partido para explorar melhor os nossos interesses comuns.
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