Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Com data de 1 de Outubro, foi publicada no Ciberdúvidas uma resposta de Edite Prada a uma carta duma pessoa que lamentava não existir em Portugal uma Academia da Língua Portuguesa. Não posso pôr a ligação, porque entretanto desapareceu, devido a (explicação que recebi do Ciberdúvidas): “A coordenação editorial de Ciberdúvidas considera que o texto de Edite Prada é merecedor de atenção, mas veicula uma perspectiva muito pessoal que não reflecte a posição da maioria dos nossos consultores. Por essa razão, retirámo-lo de linha mas decidimos enviá-lo directamente à consulente, contando, para tanto, com a concordância e o consentimento da autora. Como entendemos que se impõe, neste momento, a criação de uma entidade reguladora do uso da língua portuguesa, divulgaremos em breve esta nossa posição sobre o assunto”. Não vou alongar-me a comentar a dita resposta, que basicamente tentava demonstrar que a existência duma Academia não seria uma questão prioritária, posição com a qual aliás concordo, mas aproveito a ocasião para revisitar alguns dos temas que tenho tratado neste blogue nestes poucos meses de existência.

1 - Academia: é verdade que não há em Portugal uma Academia da Língua Portuguesa, mas o Ciberdúvidas não deveria ter omitido o que há de facto: é uma “classe” de Letras na Academia das Ciências de Lisboa (ACL). Mas, atenção! No Brasil há a Academia Brasileira de Letras (ABL), cujo primeiro presidente foi o grande escritor Machado de Assis entre 1897 e 1908, com actividade persistente há mais de um século na defesa da língua portuguesa. Se o leitor tiver paciência para consultar a lista de membros da classe de Letras da ACL, verificará facilmente que se trata de personalidades de valor nas Letras portuguesas, embora sejam todas de provecta idade. Por que motivo não será possível ter académicos em idade menos avançada? Por que motivo se mantém esta designação obsoleta das “Letras”, que inclui Direito, Ciência Polítca, História, Geografia, Sociologia, Economia, Finanças? Não tenho nada contra as tradições, desde que representem de facto algo. Por exemplo, não há motivo para que a Academia Brasileira de Letras mude de nome, pois tem tido uma actividade meritória e persistente. Mas a ACL? Chama-se de Lisboa porquê? Não pretende ser portuguesa? Então por que motivo não adopta um nome mais consentâneo com o objectivo? (Sou de Lisboa, amo Lisboa, mas gostaria muito de libertá-la do peso que lhe põem em cima ao exagerarem o seu papel de representante de todo o país). Por que motivo não conseguirá a classse de Letras da ACL fazer algo de verdadeiramente importante para a nossa língua? Ficam estas dúvidas…  

2 - Será importante não haver Academia da Língua Portuguesa? Bom, importante seria haver uma em Portugal (como há no Brasil) pois talvez ajudasse a tornar as nossas polémicas linguísticas um pouco menos dependentes das guerrinhas de tertúlia que as caracterizam. Mas, obviamente, uma Academia apenas seria mais uma tertúlia, com algum prestígio, é certo, mas mais uma. O que não tem interesse nenhum é chorarmos a não existência da dita. Em todas as questões relacionadas com a língua, temos de agir com o que temos. Temos instituições, jornais, portais e blogues que tratam questões linguísticas. Todos são de louvar, mas poderia haver mais sinergias. O recente debate sobre o acordo ortográfico envolveu um amplo leque de activistas, que deveriam cooperar mutuamente com espírito aberto e produtivo.

3 - Em todas as questões que trato neste blogue (acordo ortográfico, aportuguesamento de topónimos estrangeiros, política da língua) tenho posições de prudência, que apelam a que se mude apenas o que está mal: a oposição unilateralista ao acordo ortográfico é um erro, por isso combato-a; não se deve ter um proselitismo aportuguesador, deve-se ter em conta a situação de que partimos e agir com prudência para ir melhorando o que pode ser melhorado; a cooperação entre diversos países de língua portuguesa é fraca, por isso apoio a vontade do governo de promover uma nova política da língua. Nunca defendo a mudança só por causa de modas ou de motivos fúteis de cariz ideológico. Sou prudentemente conservador em matéria linguística, mas não defendo o imobilismo e oponho-me a exageros puristas.

2 Comentários »

  1. Ouvi dizer que na Espanha há uma Academia que dita as regras da Língua.

    No Brasil, a Academia Brasileira de Letras publica um “Vocabulário Ortográfico” que serve de referência para o português escrito no Brasil. Entretato, os diccionaristas da equipe do “Dicionário Aurélio” é que aparentemente são os mais seguidos com relação à ortografia aqui nas terras de Machado.

    Veja esse exemplo:
    A equipe do “Aurélio” ainda utiliza o acento diferencial em “fôrma”, por julgá-lo extremamente necessário. Isso faz com que as principais universidades do país acabem forçadas a aceitar as duas grafias da palavra em seus exames de admissão, embora não exista no documento da ABL a grafia “fôrma”, o que mostra a força que esse dicionário tem no país.

    Aí vai um atalho para mais informações sobre o vocabulário da ABL: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=19

    Espero ter contribuído de alguma “fórma” (não resisti à brincadeira!) e mais uma vez parabéns por manter este interessantíssimo blogue.

    Cláudio
  2. Obrigado, Cláudio, pelas suas simpáticas palavras. O principal motivo pelo qual faço questão de divulgar informações sobre a língua portuguesa no Brasil é o incómodo que me causa a ignorância de muitas das pessoas que se manifestam contra o acordo ortográfico, quando falam numa pretensa “pureza” do português de Portugal e difundem teses alarmistas sobre uma espécie de “colonização” invertida que estaria em curso, desta vez de Portugal pelo Brasil.

    Miguel RM

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