SOS! Alguém me ajuda contra a proliferação de jornalistas papagaios?
29 de Novembro, 2008 por Miguel RMHá muito tempo que assisto nas televisões portuguesas a um tique profissional muito irritante: o jornalista destacado num evento qualquer de interesse informativo faz-nos ouvir uma declaração de uma personalidade política e, seguidamente, repete o que acabámos de ouvir. Por vezes, trata-se dum verdadeiro resumo curto e incisivo, mas muitas outras vezes o pobre telespectador é obrigado a ouvir praticamente as mesmas palavras outra vez, como se o jornalista quisesse papaguear o que acabava de ser ouvido. Esta mania é muito irritante porque corta o fluxo informativo (o caso típico é o das conferências de imprensa em que o jornalista, depois de ter conseguido colocar a “sua” pergunta e de nos “deixar” ouvir a resposta, põe-se a repetir o que o orador disse em vez de nos deixar ouvir mais um pouco da conferência de imprensa que entretanto prossegue em surdina). Não duvido que esta prática provenha duma má interpretação de instruções dadas pelas chefias, mas o problema é que está generalizada. Há uns anos ainda pensei que esta mania era apenas dos jornalistas inexperientes que tinham ânsia de tempo de antena para “mostrar serviço”. Mas, infelizmente, não é assim. Para o demonstrar vou dar um exemplo duma jornalista que até ouço usualmente com agrado e dum canal de televisão que aprecio: ontem, na SIC Notícias, que estava a transmitir o debate na AR sobre o orçamento para 2009, Anabela Neves, que é uma experimentada jornalista parlamentar, depois da votação, fez o habitual resumo jornalístico (que a mim já me irrita sempre, mesmo quando é bem feito), depois parou um pouco para verificar o que se estava a passar seguidamente na AR. O telespectador ouviu que estava a ser apresentado um voto de pesar pela morte de Rui Valadares (ex-deputado e ex-Presidente da Câmara de Lamego), mas a jornalista não deixou ouvir, não porque tivesse algo importante para dizer, mas apenas porque estava ali para tratar do orçamento (e só do orçamento); consequentemente, continuou a falar num tom típico de quem está a tentar fazer tempo até que verificou que o governo (e bem) iria permanecer na sala até ao fim da sessão e remeteu então a emissão para o estúdio. Felizmente não sou de Lamego, pois ficaria ainda mais irritado
Não quero fazer disto uma questão de grande importância, mas não seria possível que as chefias das redacções tivessem um papel orientador mais incisivo para explicar aos jornalistas que eles não são notícia? Ou será que é difícil explicar que a mensagem não é o mensageiro? Uma das grandes conquistas da civilização é precisamente a autonomização do mensageiro e por isso é que o portador de más notícias, em sociedades evoluídas, deixou de ser punido. Infelizmente, entre nós parece haver muitos jornalistas que querem equiparação a políticos e, certamente por isso é que julgam que o espectador tem um idêntico interesse na opinião de ambos. Estão enganados.
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