Semanário “Expresso” e restantes publicações do grupo Impresa passam a ser publicados com grafia do acordo ortográfico
27 de Junho, 2010 por Miguel RMNa edição de ontem do jornal “Expresso” é anunciada a decisão do grupo Impresa de passar a publicar todos os seus jornais e revistas com a grafia do acordo ortográfico (AO). Excelente decisão e interessantes artigo e editorial a explicar esta decisão aos leitores. Note-se que a agência Lusa já o faz desde o início do ano e vários jornais também o fizeram (“Record”, por exemplo).
Neste blogue tenho defendido ao longo destes anos, com argumentos de ordem política e geo-estratégica, a necessidade de respeitar um acordo internacional que vincula o Estado português. Fi-lo sobretudo por ter a noção clara de que somos um país pós-colonial, tal como o são todos os países de língua oficial portuguesa. Ter consciência de como as relações coloniais e pós-coloniais deixaram e deixam marcas na nossa História é extremamente útil para agir no mundo globalizado de hoje. Só assim pode haver em toda a lusofonia relações descomplexadas, baseadas na confiança e no respeito mútuos.
Aproveito novamente esta ocasião para lançar um apelo aos opositores ao AO: parem de confundir a questão da defesa da língua portuguesa com a questão do acordo. A língua portuguesa tem de ser defendida por aqueles que a cultivam, haja ou não haja este ou qualquer outro acordo. Os excessos verbais de alguns activistas anti-AO em nada beneficiaram a causa da defesa da língua portuguesa. Pelo contrário, deram cobertura a manifestações públicas de xenofobia e arrogância eurocêntricas.
Infelizmente, no debate público em Portugal, há uma tendência perniciosa para “misturar alhos com bugalhos”. Não é por querermos respeitar um acordo internacional que nos preocupamos menos com a qualidade da língua portuguesa no espaço público. Não é por vociferarmos contra uma pretensa “influência brasileira” no texto do acordo que passamos a ser um país com mais atenção à sua língua. A responsabilidade que nos cabe enquanto portugueses de defendermos a nossa língua tem de ser compatibilizada com o realismo e o pragmatismo necessários à manutenção e à expansão da língua portuguesa enquanto língua de comunicação internacional.
Há muitos anos que sonho com o dia em que Brasil e Portugal trabalhem sistematicamente em concertação na promoção internacional da língua portuguesa, evitando a duplicação e a dispersão de meios. Não excluo nenhum outro país, mas tenho consciência de que, por enquanrto, só estes dois têm prática nesta áreas. Contudo, não quero deixar de salientar que Angola, por exemplo, dá orientações claras aos seus representantes em reuniões internacionais para que se exprimam em português sempre que possível e para que exerçam pressão política sempre que constatarem obstáculos a que tal aconteça.
Uma nota final: apesar de saudar a decisão do grupo Impresa, não quero deixar de chamar a atenção das autoridades portuguesas para o problema da dupla grafia. O facto de haver publicações em grafias (ligeiramente) diferentes não ajuda em nada a língua portuguesa. É urgente o governo agir para que a nova grafia passe a ser utilizada por todos.
Sinceramente, poderíamos mesmo abolir as duplas grafias – inclusive as que restaram no acordo. Por exemplo:
1. Não há porque aqui no Brasil escrevermos Antônio, pois pronunciamos o “o” ora aberto, ora fechado.
2. O “e” acentuado em também invariavelmente pronuciamos fechado e o escrevemos com acento agudo.
Se ninguém estranha isso, porque é que restaram as opções património/patrimônio ou género/gênero. A desculpa da pronúncia para manter as grafias duplas é esfarrapada.
Julho 1st, 2010
Eu cheguei ao seu blogue através de uma pesquisa no Google e estou aqui há horas a lê-lo.
Muitissimo bom. Um abraço
Agosto 26th, 2010
Caros amigos,
Agradeço os comentários de apoio, mas vou aproveitar para fazer eu próprio um comentário meio malicioso: o facto de haver comentários de brasileiros que apoiam as minhas posições podem até ser-me prejudiciais pois lançam a “terrível” suspeita de eu ser uma espécie de agente dos interesses do Brasil, quiçá um eterno candidato à Ordem do Cruzeiro do Sul. Sendo assim, aqui vai uma declaração de interesses bem enxuta para benefício de quem gosta de suspeitar de tudo e mais alguma coisa: sou, de facto, um grande admirador de algumas instituições e de muitos linguistas brasileiros, reconhecendo o papel fundamental que desempenham na promoção da língua portuguesa. Também sou um admirador incondicional de alguns escritores brasileiros, alguns dos quais considero dos melhores do mundo (por exemplo, Machado de Assis e Rubem Fonseca, para só citar dois de que me sinto especialmente próximo). Dito isto, as minhas posições de defesa do acordo ortográfico assentam sobretudo numa vontade de defender os interesses portugueses no plano da língua e decorrem da minha experiência de tradutor e intérprete numa grande instituição internacional (Comissão Europeia) de que fui funcionário durante 25 anos. Olho descomplexadamente para o passado histórico português e não me deixo impressionar por sentimentos de superioridade e/ou inferioridade típicos das sociedades pós-coloniais, como é o caso da portuguesa. Em matéria de relações com os países de língua oficial portuguesa, gosto de ser frio, objectivo e pragmático, ou seja, o contrário do que é usual. Tenho pouca paciência para declarações de amor ocas imbuídas de retórica saudosista. Não penso que nos leve longe declararmo-nos “irmãos” ou “primos” ou seja lá o que for. Prefiro amizades sólidas, construídas com paciência e compreensão mútuas.
Agosto 26th, 2010