Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Depois de semanas de agitação política e ainda no meio doutra campanha, venho agora apresentar o meu rescaldo das eleições. Como sabem os leitores, mantive-me relativamente silencioso durante a campanha, embora tenha declarado logo em 24 de Julho que votaria PS, por considerar que seria um “mal menor”. Pelos vistos terá havido mais gente a pensar como eu, pois é sabido que o voto militante é uma pequena parte do eleitorado. A maior parte dos eleitores que se deslocam às urnas são como eu, sem fé clubista em matéria de política.

Teremos a partir de agora um parlamento mais interventivo, um governo menos autoritário e mais política, três aspectos muito positivos.

Teremos também mais conflitualidade interintitucional, menos autoridade do Executivo e, provavelmente, algumas “trapalhadas”, três aspectos bastante negativos.

Seja como for, para já, na esperança de que seja ultrapassado o disparate de Verão causado por alguns zelotas de ambos os lados do conflito PR-PM, há que formar governo.

É provável que José Sócrates prefira fazer um governo compacto e coeso, mais fácil de controlar, evitando assim algumas personlidades mais erráticas e/ou conflituosas.

Neste blogue são sobretudo discutidas questões de política da língua e, por vezes, também da política de cultura. Por uma feliz coincidência, o actual ministro da Cultura é uma personalidade política com um discurso articulado e sensato sobre a língua portuguesa, uma novidade absoluta na nossa História recente. Há quem critique muito os discursos de Pinto Ribeiro sobre a política da língua, nomeadamente invocando o facto de se estar a “imiscuir” em áreas de outros ministérios (Negócios Estrangeiros, Educação). Discordo totalmente. Em primeiro lugar, não é nada despropositado o ministro da Cultura preocupar-se com a projecção e promoção da língua portuguesa. Em segundo lugar, esta questão (da língua) está intrinsecamente relacionada com a pasta da Cultura, enquanto nos outros ministérios (muito maiores) é apenas uma das muitas áreas em que actuam. Seria aliás defensor, se o Ministério da Cultura conseguisse finalmente ser um ministério com poder e meios, de que assumisse a tutela da política da língua.

O actual ministro tem sido muito criticado por pessoas importantes do sector, nomeadamente por não ouvir e atender as reclamações dos principais dirigentes do Ministério. Também foi muito criticado por ter declarado, logo que assumiu a pasta, que iria tentar “fazer mais com menos dinheiro”. Quanto a esta última questão, dicordo, pois o ministro, ao falar assim, deu um sinal claro de que a Cultura não se pode dar ao luxo de ser uma área com uma espécie de desprezo altivo pelo dinheiro. Pelo contrário, tem que mostrar boas contas, boa capacidade de gestão dos meios públicos, para que seja possível convencer quem decide que seria útil atribuir-lhe bastante mais dinheiro. Quanto à hostilidade de muitas personalidades da área, permitam-me alguma cautela: a Cultura é um sector politicamente muito dinâmico, com muitos grupos de interesse e muitas “capelinhas”, demasiados aliás para o magro orçamento que está em causa (“Em casa em que não há pão todos ralham e ninguém tem razão”). Este ministro tem duas qualidades inegáveis: tem peso político, uma qualidade indispensável para que a Cultura seja mais tida em conta no Conselho de Ministros, e sabe falar com clareza. Não sei se chegará para se manter no governo, mas penso que não seria mau para o país se isso acontecesse. Se for substituído, espero que o PM não volte a cair na asneira que tem acontecido muito nos últimos anos, que é a atribuição do cargo sem grande critério. Lembro José Saportes, uma pessoa sem experiência política e com grande pendor para cometer erros estratégicos, Pedro Roseta, uma simpática pessoa que recebeu o ministério como “prémio de fim de carreira”, e Isabel Pires de Lima, uma pessoa insensata que só foi promovida por ser mulher e do Porto. Com José António Pinto Ribeiro estamos noutro campeonato. Pode-se embirrar com o estilo, mas parece-me claro que se trata duma pessoa com capacidade política para o cargo.

Muitos dos críticos do actual ministro “descobriram” recentemente que seria melhor não haver ministério da Cultura. Mais uma vez discordo. O facto de estar presente no Conselho de Ministro constitui um trunfo que não se deve deitar fora. Bem sei que a pessoa que foi um dos dois melhores responsáveis políticas pelo sector, Teresa Gouveia (o outro foi obviamente Carrilho), só era Secretária de Estado, mas estavamos noutra época, com menos consciência sobre o valor estrtégico da Cultura. Talvez não se lembrem, mas eu lembro-me bem que Cavaco substituiu Teresa Gouveia por Santana Lopes (Cavaco “precisava” de arranjar algo para o calar), um dos gestos mais negativos do então Primeiro-Ministro. Isso só foi possível porque a Secretaria de Estado tinha pouco peso político perante os interesses aparentemente “superiores” do partido (PSD).

Há entre os críticos do ministro muitos amigos meus e várias pessoas que admiro. Mas não me convencem (ou, pelo menos, ainda não me convenceram) de que a Cultura teria algo a ganhar com o desaparecimento do Ministério ou deste ministro.

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