Quem tem saudades do Império?
4 de Junho, 2008 por Miguel RMO escritor Desidério Murcho, que escreve no blogue De Rerum Natura, afirmou ontem no suplemento P2 do jornal “Público”, na sua crónica semanal das terças-feiras, sob o título “Fascismo linguístico”, que “a suprema importância da língua portuguesa é uma treta” e que Portugal nunca conseguiria melhorar “enquanto continuarmos a tapar o sol com a peneira da ilusória pátria grandiosa da língua portuguesa”. Já Rui Ramos, há umas semanas, também no “Público”, tinha afirmado algo de semelhante num artigo em que acusava os defensores do acordo de sonhos “neo-coloniais”. Ora aqui está um argumento digno de ser discutido. Quem é que tem ilusões grandiloquentes sobre o Império ou algo de parecido que sirva de “consolação” para a perda do dito? Serão as pessoas como eu que aceitam a necessidade de concertação entre todos os países de língua portuguesa? Ou serão os que acham que Portugal não tem nada que se preocupar com outras variedades da língua comum? Eu não tenho ilusões grandiloquentes sobre a língua portuguesa, apenas tenho a noção, por ter trabalhado muitos anos em organizações internacionais de língua oficial portuguesa, que há em todo o mundo países para quem a presença internacional do português é uma prioridade. Há vários países africanos que muito têm feito para que o português seja língua ofical da União Africana e de outras organizações regionais. Para muitos desses países, o português é um cimento de identidade nacional. Há Timor-Leste, que faz esforços consideráveis para impor o português como língua nacional. Há o Brasil, que está a investir meios consideráveis na promoção do português (Museu da Língua, política da língua no Mercosul). E, pasme-se, há Portugal: desde que o português se tornou língua oficial da União Europeia, em 1986, houve um esforço considerável para que a presença da língua portuguesa esteja permantemente assegurada nas instituições europeias. Resumindo, aquilo de que estou a falar não tem nada a ver com a mania das grandezas, é até bastante chão e pragmático: há no mundo de hoje uma presença real do português nos meios internacionais. Embora eu concorde com muito do que diz Desidério Murcho sobre a necessidade de “assumirmos que somos um pequeno país” e não tenha nehuma paciência para a retórica sobre as nossas “glórias passadas”, muito comum em Portugal, penso que podemos tirar algum proveito do facto de haver um “produto” nosso, a língua, que tem bastante mais importância do que Portugal. É claro que há outra opção: podemos ignorar todos os outros falantes de português, continuar a decidir tudo por nós (ou não decidir, que é a nossa verdadeira especialidades nesta área) sem cuidarmos dos outros e daqui a não muito tempo o português de Portugal será apenas língua oficial na UE, com uma presença semelhante ao romeno, ao húngaro, ao sueco (para dar exemplos de países com população em torno dos 10 milhões), e o português internacional será o do Brasil. É uma opção legítima, mas não é a única. Obrigado a Desidério Murcho por colocar a questão onde ela merece ser colocada.
Caro Miguel
Obrigado pelo seu comentário. É a única pessoa que conheço que defende a unificação ortográfica com algum tino. Mas infelizmente sem bons argumentos.
Primeiro, qual é o problema de o português mais usado internacionalmente ser a variante brasileira? Isso acontece precisamente com a língua inglesa, e qual é o problema?
Segundo, é pura e simplesmente falso que o acordo unifique o que quer que seja. Nada unifica porque a) as diferenças fundamentais não são ortográficas, mas sim lexicais e gramaticais e fonéticas e b) o acordo introduz diferentes grafias onde antes não existiam e c) o acordo não desfaz grafias diferentes que já existiam.
Por isso, o acordo ortográfico é uma treta.
Junho 4th, 2008
Caro Desidério,
Obrigado pelo seu comentário. Eu não defendo a “unificação” ortográfica, defendo a concertação. Se o acordo está mal feito, então sentemo-nos de novo à mesa com os nossos parceiros. Não tenho problema nenhum em que o português mais usado internacionalmente seja o do Brasil, pois será um facto consumado, mais tarde ou mais cedo. Aquilo com que eu tenho problemas é a nossa tendência para disparar sobre os nossos próprios pés. Nesta polémica do acordo eu só desejaria que não tomassemos atitudes que ponham em causa a nossa credibilidade internacional.
Junho 4th, 2008
Vivi dois anos em Moçambique, entre 1997 e 1999. Também já visitei Angola. Pude verificar como o português é uma língua importante em África e como os africanos contribuem para isso.
Em 1998 os jogos do Campeonato do Mundo de Futebol foram transmitidos pela televisão para África por uma organização europeia. Havia emissões em várias línguas. Dada a importância do português em África, as tansmissões para os PALOP tiveram emissões em português. Porquê? Devido à importância do português em África. Foi a organização que o afirmou.
O português é realmente uma língua importante. Afirmá-lo não é manifestação de qualquer mania das grandezas ou de fascismo linguístico.
Junho 5th, 2008
Claro, a língua portuguesa é importante para quem a fala e há muitos milhões de pessoas que a falam. Mas a língua portuguesa não é culturalmente significativa, porque a cultura feita em português não tem expressão universal. Contudo, isto interessa.
O que interessa é só isto: precisamos de legislar sobre a língua para as pessoas em África poderem continuar a falar português? Não.
Então, do que estamos a falar? De fascismo linguístico, que faz o estado intervir para obrigar as pessoas a escrever as palavras de certa maneira em vez de outra, com a desculpa de que isso serve para unificar a língua. A língua não está unificada e não deve ser unificada legislativamente porque se as pessoas que usam a língua quisessem que a língua estivesse unificada ela estaria unificada. Não está, porque não o querem.
Nenhum africano culto tem dificuldade em compreender o português do Brasil ou de Portugal. Então, para que servem as leis fascistas que querem obrigar as pessoas a escrever assim em vez de assado? Os ingleses escrevem “colour” e os norte-americanos “color”. Mas nestes países, porque têm profundas tradições democráticas, não passa pela cabeça de ninguém unificar a ortografia para… para quê, exactamente?
Mas concordo com o Miguel numa coisa crucial: o debate feito nos moldes em que o Vasco Graça Moura e o Carlos Reis o fazem é tonto. Eu discordo dos dois, por exemplo. Mas sou contra qualquer legislação sobre a língua, porque isso é claramente centralismo totalizador, ao estilo da velha senhora. E acho que todas as pessoas que defendem a legislação sobre a língua são centralistas, mesmo que não se apercebam disso. É como querer obrigar legislativamente as pessoas a usar cuecas amarelas de linho, porque é melhor do que de algodão.
Junho 5th, 2008
Deixe-me dizer-lhe só mais uma coisa, Miguel: há uma diferença brutal entre uma concertação feita pelos linguistas dos vários países de expressão portuguesa e o resultado dessa concertação ser imposta legislativamente. Nada tenho contra a primeira, se bem que acho desnecessária (em vez disso, precisamos é que a produção científica, filosófica, artística, linguística, etc., circule livremente entre os vários países); mas tenho tudo contra a segunda: contra a imposição estatal do que os linguistas decidirem entre si. Os linguistas devem publicar gramáticas, prontuários, dicionários, etc., onde proponham as suas ideias. E se essas ideias resultam da concertação com os seus colegas de outros países, óptimo. Mas imporem tais ideias legislativamente é absolutamente inaceitável. Seria como impor legislativamente que o nome dos electrões é “electron”. Que os cientistas decidam isso entre eles, óptimo. Mas não têm o direito de me impor isso a mim legislativamente. Para mim, é só isto que está em questão, e lamento que quase ninguém compreenda este aspecto crucial.
Junho 5th, 2008
Que ortografia usa Desidério Murcho? A estabelecida por decretos de Salazar e Caetano. Foram os últimos com direito a mudar a ortografia?
Parece que Caetano se preparava para acabar com as consoantes mudas – essa praga! – e, se isso tivesse acontecido, hoje Desidério escreveria “atuar” em vez do tolo “actuar”. Estaria a obedecer a algum fascismo?
Mesmo que o português só se falasse em Portugal, a sua ortografia merecia ser reformada. Desidério sente-se bem quando tem de escrever “actividade”? O que faz o cê? Nem se lê nem abre o “a” anterior – uma imbecilidade.
A ortografia deve ser mudada de vez em quando para não cairmos na situação do inglês, em que “bury” se lê “béri”. Quem é que a pode mudar? O governo, evidentemente, apoiado em pareceres de especialistas. Ou seria a Federação Portuguesa de Badminton?
Os países de língua espanhola têm a mesma ortografia e concordaram recentemente em reformá-la. Sabiam? Motivo para pensarmos.
Reformas ortográficas não têm faltado. Recentementeo o alemão teve uma e vai ter outra. É pena é não terem acabado com as maiúsculas iniciais nos substantivos, não terem abolido o “th” e o “ph” ter sobrevivido em muitos casos. Muitos alemães tolerarão “telefon” em vez de “telephon”, mas “Filosofie” seria demais. “Philosophie” pois então!
Junho 6th, 2008
Agradeço muito aos dois comentadores que têm escrito aqui, pois estão a colocar o debate onde eu sempre quis que ele estivesse. Há algo que é certo: as reformas ortográficas são sempre polémicas, pois os meios académicos são sempre meios muito marcados por guerrinhas. No caso da língua, tendo eu estado na minha vida profissional muito envolvido em alterações na língua portuguesa de Portugal, posso dizer isto: em Portugal falta muita coisa: falta bom senso, moderação e capacidade para gerar consensos da parte de quem deveria dar o exemplo, isto é, os próprios linguistas. É fácil bater nos políticos, mas eu, que não o sou, fico muito preocupado com o nível geral do debate público. Elevar o nível desse debate é a minha primeira prioridade, como tenho sido, reconheço, a destes dois companheiros.
Junho 6th, 2008
Caro Miguel: obrigado pelas suas palavras!
Caro João Manuel: não me fiz entender. Há uma diferença crucial entre as mudanças ortográficas serem feitas livremente pelas pessoas, incluindo os linguistas; e serem sancionadas legislativamente. É só contra o segundo aspecto que me insurjo. Leis sobre a ortografia são de um centralismo e de uma ingerência inaceitável em democracia. Ironicamente, se os linguistas e lexicógrafos se limitassem a introduzir essas alterações sem pedir a sanção legislativa, tais alterações seriam mais fáceis de introduzir, porque umas seriam aceites, outras não, permitindo a evolução natural e orgânica da ortografia, tal como ocorre com a gramática e a fonética — que não são legisladas.
Espero ter explicado agora melhor o que está realmente em causa, politicamente. Não está em causa se é melhor lavar os dentes em pé ou sentado, mas antes a existência de leis para obrigar as pessoas a lavar os dentes de uma determinada maneira em vez de outra. E se um dia os especialistas em sexologia se reunissem e fizessem os políticos aprovar uma lei sobre as melhores posições para você fazer amor com a sua mulher? Devíamos encarar com assombro a própria ideia de legislar sobre a ortografia, antes de começarmos a discutir se queremos escrever “óptimo” com ou seu “p”. Quanto às realidades espanholas e alemãs, não as conheço profundamente para me pronunciar, mas estes países nunca foram, historicamente, nem são hoje faróis de liberdade e democracia, pelo que não são exemplos para ninguém.
Junho 6th, 2008
Para que serve a legislação? Para promover a vida em sociedade, através de regras que permitam o convívio pacífico entre diferentes opções de vida. Por que é que é útil legislar sobre ortografia? Pela simples razão que não existe na sociedade portuguesa, sobretudo nos meios académicos, a capacidade para se concertarem de modo a desempenharem o papel que tem o “Oxford Dictionary” para a língua inglesa, a “Real Academia” para a língua espanhola, a “Académie française” para a língua francesa, etc. Quem conhece as universidades portuguesas sabe bem como é difícil concertar seja o que for, perante o poder dos interesses corporatrivos instalados. Compreendo os apelos à liberdade de Desidério Murcho e, em termos gerais, subscrevo-os. Mas, na prática, sei por experiência própria que em Portugal é muito difícil a sociedade civil pesar verdadeiramente seja em que área for. Por realismo, portanto, aceito com benevolência alguma intervenção estatal, já que a considero indispensável para que se avance em certas áreas. Preferiria que não fosse assim, mas é. Inadmissível na polémica em torno do acordo são as posições de oposição ao Brasil, por manifesta falta de conhecimento que muitos linguistas portugueses têm em relação a esse país. Parece-me inadmissível que nos cursos universitários de português não se aprenda seriamente literatura brasileira. Parece-me indamissível que os linguistas portugueses não sejam capazes, nem queiram, conhecer a norma brasileira da língua portuguesa. Pela parte que me toca, sempre usei dicionários brasileiros, sempre me interessei pela cultura brasileira e não tenho qualquer dificuldade em trabalhar como tradutor seguindo a norma brasileira, quase com a mesma facilidade com que uso a portuguesa. E, obiamente, se daui a uns anos surgirem outras normas, por exemplo em países africanos, terei todo o gosto em aprendê-las. Não me consideraria um bom professional desta área se naõ tivesse esta abertura de espírito, que é o mínimo que se pode exigir a um linguista profissional.
Junho 7th, 2008
Caro Miguel
Concordo consigo em tudo menos na legislação. E não me parece que o atavismo das universidades, tanto brasileiras como portuguesas, se resolva com legislação. Pelo contrário, com a legislação fica-se com a sensação de que nada mais é preciso fazer. E mais que não fosse por isso era importante não legislar, mas antes responsabilizar os profissionais relevantes. Eu sou professor no Brasil, e não em Portugal e por isso conheço bem a realidade de que fala. Ainda há poucos dias estive no site da Porto Editora, que disponibiliza online o seu novo dicionário de língua portuguesa segundo o acordo. Pois bem, você vai ver a palavra “fato”. E não encontra o sentido brasileiro da palavra, que é o mesmo que o nosso “facto”! Eis o resultado do acordo ortográfico em toda a sua inglória: passamos a escrever todos “ótimo”, mas as bestas dos lexicógrafos portugas continuam a ignorar pura e simplesmente os significados centrais das palavras básicas da língua. E já nem vou falar da terminologia sofisticada de ciência ou filosofia, porque aí só temos dicionários de terceiro mundo. E os brasileiros têm o Aurélio e o Houaiss, que são dicionários a sério.
Junho 7th, 2008