Porquê cêntimos e não centavos?
3 de Maio, 2010 por Miguel RMRui Tavares, eurodeputado independente eleito nas listas do Bloco de Esquerda, resolveu há uns dias “meter-se” com os burocratas de Bruxelas, gente com costas largas sempre a pedir que lhes malhem, como é sabido. Num artigo no jornal Público, que transcreveu para o seu blogue, Rui Tavares pratica o seu direito à indignação contra o termo “cêntimo”, segundo ele uma criação de um “burocrata qualquer”.
Como participei, como muitos outros colegas meus, no complicado processo de introdução do euro, senti-me “apalpado” e reagi escrevendo ao eurodeputado a seguinte mensagem:
«Caro Rui Tavares,
Como eurodeputado deveria ter algum cuidado antes de sacar da arma. Vou-lhe contar a história dos “cêntimos”, para que não se limite a disparar pólvora seca contra os “burocratas anónimos”. Quando foi introduzido o euro estavam previstas duas aberrações linguísticas: em primeiro lugar, “euro” não seria alterável no plural, isto é, em todas as línguas deveria dizer-se “100 euro”. Em segundo lugar, a subdivisão seria “cent” em todas as línguas. Não tenho a certeza se foi alterado, mas inicialmente, pelo menos, estes dois disparates figuravam na legislação. Os tradutores das instituições europeias, nomeadamente os portugueses, tentaram alertar as autoridades políticas para não fazerem tal disparate. Era-lhes normalmente respondido que se tratava de um compromisso político, que não poderia ser posto em causa. A verdade é que, sorrateiramente, com o apoio (discreto) de alguns responsáveis do Banco de Portugal, lá fomos impondo os euros no plural e foi decidido adoptar o termo “cêntimos” para a centésima parte do euro. Se se tivesse optado por centavos, como sugere, estariamos a contribuir para uma confusão terminológica inútil, pois teria sempre de se especificar se se trataria de centavos do euro ou do escudo. Pode não parecer importante, mas a língua deve ser adaptada para servir os propósitos de quem a utiliza. Já pensou nos pobres coleccionadores de moedas do futuro, que teriam de estar sempre a descobrir se eram cantavos de escudo ou de euro? Enfim, caro Rui, pode não gostar dos cêntimos, mas pelo menos fica a saber que foram introduzidos com um propósito prático. E quanto aos disparates linguísticos, é verdade que há “burocratas” que os querem impor, mas a verdade é que há também outros “burocratas” que conseguem frequentemente impedi-lo. Como sabe o mundo tem vários tons de cinzento…
Bacana, adorei aprender a respeito; mas os estadunidenses chamariam a divisão deles de cêntimos; podem crer?
Julho 4th, 2010