Para além da língua…
23 de Julho, 2008 por Miguel RMEste blogue nasceu há pouco mais de dois meses para debater questões relacionadas com a língua portuguesa. Tentei tratar questões candentes, como o acordo ortográfico, sempre com um olho político. Agora passarei a tratar todo o tipo de questões, avançando assim para tornar o ENXUTO um blogue generalista. Irei manter um interesse especial pela língua portuguesa, até por a considerar uma questão política do maior interesse, mas não me coibirei de meter a colherada noutras áreas que me interessam: artes, cidadania, desporto, etc.
Hoje, para estabelecer uma ponte entre questões da língua e da política, vou falar sobre a Cimeira da CPLP que se realiza depois de amanhã, especialmente sobre as ausências dos presidentes de Angola e de Moçambique. O Diário de Notícias, tanto ontem como hoje, trata o assunto, embora pareça mais interessado em saber o que Sócrates, Cavaco e Luís Amado dizem sobre o assunto do que em esclarecer os seus leitores sobre as legítimas razões de política interna angolana e moçambicana que explicam em ambos os casos as ausências dos PR. Em ambos os países aproximam-se as eleições legislativas e em ambos os casos os partidos dominantes MPLA e Frelimo, que foram durante anos e anos partido únicos, têm interesse em trabalhar para que as eleições sejam limpas e reconhecidas internacionalmente. As ambiguidades de altos responsáveis do MPLA e e da Frelimo quando se pronunciam sobre o que se tem passado no Zimbabwe demonstram que a aposta na plena democratização de Angola e de Moçambique ainda é algo de frágil. O governo português tem-se mostrado solidário com os governos angolano e moçambicano, o que é correcto para os nossos interesses, mas nem sempre tem mantido a necessária distância em relação a aspectos contestáveis da política desses países (o Primeiro-Ministro exagerou um pouco nas loas que teceu ao governo angolano na sua recente visita a Luanda; o nosso apoio deve ser comedido e nunca deixar de evocar o caminho que ainda falta percorrer). Em Portugal, infelizmente, há um défice de frieza nas relações com as ex-colónias. Há calor a mais, emoção a mais. Ainda recentemente, quando o cantor Bono fez declarações muito críticas acerca dos dirigentes angolanos num evento organizado pleo Banco BES, as repercussões foram excessivas, não só em Angola como seria de esperar, mas também em Portugal onde nada o justificava. O próprio Presidente do BES mostrou-se demasiado crispado ao pôr em causa o cantor irlandês. Teria sido muito mais eficaz se tivesse minimizado o incidente (poderia até aproveitar o incidente para sublinhar como o banco que dirige não controla os oradores que convida), embora declarando obviamente que o BES não tem a mesma opinião que Bono.
Angola é hoje um país com parcerias estratégicas importantes com Portugal e tudo se passa nos dois sentidos: não são só os bancos portugueses que têm posições de destaque na banca angolana; o maior accionista do BCP é a Sonangol. Mas, a situação em Angola é apenas de “estabilização em curso”, não é propriamente de estabilidade e segurança consagradas (o volume dos seguros de crédito da COSEC não engana…) Os interesses de Portugal impõem que as declarações e actuações públicas dos nossos responsáveis sejam comedidas e cuidadosas. Mas não precisamos de exagerar… Basta-nos ser claros, frios e eficazes.
E, já agora, a imprensa portuguesa poderia interessar-se um pouco mais pelas próximas eleições legislativas em Angola e em Moçambique? É que há muito leitor interessado…
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