O inglês, uma língua para saloios?
26 de Abril, 2009 por Miguel RMHoje, ao passear pelo Chiado, em Lisboa, deparei com cartazes duma campanha louvável para trazer mais animação a este bairro histórico. Embora a campanha se destine obviamente a quem trabalha naquela zona, isto é, um público que fala e/ou compreende português, a campanha tem um nome inglês, como poderão comprovar aqui: “Chiado after work“.
O Movimento Fórum Cidadania Lisboa insurge-se contra o carácter intrusivo dos painéis que anunciam a campanha. A crítica parece-me ser exagerada, mas o que não será exagerado é pensarmos nesta omnipresença de termos ingleses para dar relevo a qualquer iniciativa. Faz-me lembrar alguém que dizia não haver pior provincianismo em Portugal do que aquele que se pratica em Lisboa.
Este blogue tem tido sempre posições moderadas quanto ao fascínio que a língua inglesa exerce. Tem até sublinhado a enorme utilidade desse precioso instrumento de comunicação internacional que é a língua inglesa, mesmo na sua versão básica de 100 palavras.
Mas não posso ficar calado perante manifestações saloias de subjugação causadas pela ânsia de “parecer moderno”. Já há uns tempos uma crítica de arte da nossa praça tinha falado no carácter provinciano de certos artistas jovens (e menos jovens também) que julgam estar a internacionalizar-se só por darem títulos ingleses às suas obras. Pois a campanha “Chiado after work” sofre do mesmo mal. O pior é que a iniciativa é apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa: que os particulares queiram ser saloios é um problema deles, mas a Câmara representa-nos a todos.
Como não sou da escola do proibir, que parece estar a ganhar adeptos todos os dias no nosso país, aqui fica uma modesta sugestão para os dirigentes da Câmara: quando tiverem de reagir a pedidos de apoio, tenham algum cuidado com as questões da língua. Tentem impor sempre o português. E, já agora, tentem zelar pela qualidade do português. Não vos parece que se trata duma questão de serviço público?
Provincianismo e parolice de uma certa pseudo-elite que vive na sombra e na crença da superioridade do sistema inglês.
Abril 26th, 2009
Aqui no Brasil a “ânsia de ‘parecer moderno’” com o uso termos em inglês já é uma epidemia há anos. Já reclamei tanto disso, mas hoje estou vendo-me obrigado a usar os termos para não parecer de outro planeta. Temos xampu com o ridículo nome “shampoo queda control”, chamamos ao rato do computador de “mouse” (pronunciamos “mauze”), apagamos arquivos “deletando”, nosso público-alvo é “target”, os presidentes de nossas grandes empresas são “ci-i-ôus”, tudo o que é grátis por aqui é “free”, tudo que é a mais é “plus” e até nossos canais de noticiário vêm todos com o ‘sobrenome’ “News” (Globo News, Band News, etc).
Isso sem falar em “show”, “shopping”, “marketing”, “happy hour” e também nos já aportuguesados “escâner” e “estresse” que, ao que parece, vieram em definitivo ao Brasil.
Para voltar ao velho assunto – todos os grandes meios de comunicação nacionais já adotaram a nova grafia e pouco a pouco estão a resolver por conta própria as lacunas deixadas pelo AO (não sei se isto é bom ou ruim).
Mais uma vez meus parabéns por continuar a manter este entusiasmante fórum.
Maio 4th, 2009