No passado dia 28, em Olivença…
4 de Março, 2009 por Miguel RMUm leitor que esteve presente na Jornada de Olivença aqui anunciada fez o favor de me enviar um relato, a título de comentário. Embora tenha autorizado a sua publicação, ficou com uma formatação esquisita que não consigo alterar. Por isso, volto a publicá-lo aqui:
«UM ESTRONDOSO ÊXITO, A JORNADA DO PORTUGUÊS DE OLIVENÇA DO DIA 28 DE FEVEREIRO DE 2009
O dia amanheceu sem nuvens significativas. O Sol pareceu querer saudar o evento. E não era para menos! Neste dia 28 de Fevereiro de 2009, e pela primeira vez desde 1801, a Língua Portuguesa manifestava-se livremente em Olivença. Mais do que isso, com a “cobertura” das autoridades espanholas máximas a nível local e regional. E, talvez ainda (!) mais importante do que tudo isso, graças à iniciativa, ao esforço, à coragem de uma associação oliventina, a Além-Guadiana.
Não por acaso, jornais e televisões estavam representados. E talvez por acaso, pois outra razão seria insustentável, não estavam órgãos de comunicação portugueses, empenhados com outras realidades informativas. De facto, decorria o Congresso do Partido do Governo em Lisboa. A Jornada do Português Oliventino decorreu na Capela do vetusto Convento português de São João de Deus. Num clima de alguma emoção. Estava-se a fazer História… e quase 200 pessoas foram testemunhas disso, entre as quais o arqueólogo Cláudio Torres, o “herói” do mirandês Amadeu Ferreira, e… bem… fiquemos por aqui! Falou primeiro o Presidente da Junta da Extremadura espanhola, Guillermo Fernández Vara. Curiosamente, um oliventino. Foi comovente ouvi-lo confessar que, na sua casa paterna, o Português era a língua dos afectos. Uma herança que ele ainda conserva, apesar de já ser bem crescidinho… e Presidente duma região espanhola. De certa forma, estava dado o mote. O Presidente da Câmara de Olivença, Manuel Cayado, falou em seguida, realçando o amor pela língua portuguesa, e acentuando o papel de Olivença como ponto de encontro entre as culturas de Portugal e Espanha. Joaquín Fuentes Becerra, presidente da Associação, fez então uma breve intervenção, em que se destacou a insistência no aspecto cultural da Jornada. Juan Carrasco González, um conhecido catedrático, falou das localidades extremenhas, quase todas fronteiriças, onde se fala português, com destaque para Olivença, e defendeu que tal característica se deveria conservar. Usou depois da palavra Eduardo Ruíz Viéytez, director do Instituto dos Direitos Humanos e Consultor do Conselho da Europa, vindo de Navarra, embora nascido no País Basco, que defendeu as línguas minoritárias e explicitou a política do Conselho da Europa em relação às mesmas. Informou a assistência sobre o ocorrido com o Português de Olivença. De facto, o Conselho da Europa já havia pedido informações ao Estado Espanhol sobre este desde 2005, sem que Madrid desse resposta. Em 2008, graças à Associação Além-Guadiana, fora possível conhecer detalhes, com base nos quais o Conselho fizera recomendações críticas. Seguiu-se Lígia Freire Borges, do Instituto Camões, que destacou o papel da Língua Portuguesa no mundo, com assinalável ênfase e convicção. Tal discurso foi extremamente importante, já que, tradicionalmente, em Olivença, se procurava (e ainda há quem procure) menorizar o Português face ao “poderio planetário” do espanhol/castelhano. Uma pequena mesa redonda antecedeu o Almoço. Foi a vez de ouvir a voz de alguns oliventinos, em Português, bem alentejano no vocabulário e no sotaque, em intervenções comoventes, em que não faltaram críticas e denúncias de situações de repressão linguística não muito longe no tempo. À tarde, falaram Domingo Frade Gaspar (pela fala galega, nascido na raia extremenha) e José Gargallo Gil (de Valência, a leccionar em Barcelona), ambos professores universitários, que continuaram a elogiar políticas de recuperação e conservação de línguas minoritárias. O segundo fez mesmo o elogio da existência defronteiras e do de seu estatuto de lugar de encontro e de compreensão de culturas diferentes, embora não como barreiras intransponíveis. Seguiu-se Manuela Barros Ferreira, da Universidade de Lisboa, que relatou a experiência significativa de recuperação, quase milagrosa, do Mirandês, a partir de uma muito pequena comunidade de falantes, convencidos, afinal erradamente, de que aquela língua tinha chegado ao fim. O exemplo foi muito atentamente escutado pelos membros do Além-Guadiana. Falou finalmente o Presidente da Câmara Municipal de Barrancos, a propósito dos projectos de salvaguardar o dialecto barranquenho e de o levar à “oficialização”. Queixou-se do estado de abandono em que se sentia o povo de Barrancos face a Lisboa. No final, foi projectado um curto filme sobre o Português oliventino, organizado por Mila Gritos. Nele surgiam oliventinos a contar a história de cada um, sempre em Português, explicando os preconceitos que rodeavam ainda o uso da Língua de Camões e contando histórias pitorescas. A finalizar o “documentário”, uma turma de jovens alunos de uma escola numa aula de Português pretendia mostrar para a câmara os caminhos do futuro. Deu por encerrada a sessão Manuel de Jesus Sanchez Fernandez, da Associação Além-Guadiana, que ironizou um bocado com as características alentejanas do Português de Olivença, comparando-o com o pseudo superior Português de Lisboa. A noite já tinha caído quando, e não sem muitos cumprimentos e alegres trocas de impressões finais, os assistentes e os promotores da Jornada abandonaram o local. Com a convicção de que tinham assistido a algo notável.
Estremoz, 28 de Fevereiro de 2009
Carlos Eduardo da Cruz Luna
Força Associação Além -Guadiana, mostrem que as liguas em minoria também têm direitos e que Portugal é um país pequeno mas está no mapa mundi e tem uma História digna de ser contada.
Bem haja!
Março 12th, 2009