Malditos descobrimentos…(um país embriagado com mitos de grandeza)
9 de Fevereiro, 2009 por Miguel RMO jornal Público de hoje traz uma “notícia” sobre um historiador brasileiro que nega a existência da chamada “Escola de Sagres”. Embora o artigo até seja esclarecedor, indicando nomeadamente outros historiadores portugueses que defendem a mesma tese, é muito interessante olhar para a caixa de comentários onde são manifestadas opiniões de cariz xenófobo sobre o Brasil, causadas pela embriaguez que reina em Portugal com as chamadas “glórias do passado”. Trata-se dum problema não exclusivamente português, mas antes de muitos países que não sabem viver com o seu passado de modo sério e desapaixonado. A Grécia, por exemplo, por ter sido considerada o “berço da democracia”, sofre do mesmo irrealismo histórico, que sobrevaloriza um passado glorioso para melhor esquecer um presente sem glória e sobretudo manter-se tolhida, sem capacidade reformista para melhorar esse presente. Outro exemplo é a Sérvia (e outros países dos Balcâs) que, como dizia Churchill, “sofre de ter demasiada História para a sua pequena Geografia”). O próprio Brasil tem muito deste irrealismo “português” sobre a sua própria História, oscilando entre fases de euforia (“Deus é brasileiro”) e de desânimo (“o Brasil não presta”), embora nas últimas duas décadas tenha finalmente beneficiado de governos verdadeiramente reformistas (2 mandatos de Fernando Henrique Cardoso e 2 de Lula da Silva), que colocaram o país no mapa do mundo com um estatuto à altura da sua dimensão e importância.
Os mitos dos Descobrimentos, criados pelos historiadores românticos do século XIX, reforçados com a República (1910-1928) e elevados à condição de “verdades indiscutíveis” durante o Estado Novo (1928-1974), ainda hoje têm grande influência na opinião pública portuguesa. É uma influência perniciosa, que nos dificulta a vida, pois prejudica a nossa capacidade de actuar com ponderação para levar a cabo as reformas tão necessárias ao país.
O problema dos mitos é que prejudicam as outras áreas políticas que ficam obscurecidas, mas prejudicam também a própria área que supostamente promovem. Não se entende por que motivo um país turístico como somos parece ser incapaz de explorar com inteligência aquela paisagem extraordinária que é o promontório de Sagres. Tudo o que se tem dito sobre aquele sítio (incluindo os tais “mitos”) deveria estar exposto ali, sem estragar a paisagem.
Sei que há na administração pública e nos meios académicos da História pessoas que lutam por soluções interessantes para preservar e promover Sagres, mas infelizmente não sei se serão ouvidas. É que em Portugal dá sempre mais votos ser irrealista e clamar à mesa de café contra os “traidores à Pátria”….
Porque é que será que são mitos? De repente surje uma catrefada de pessoal que acha que pode e deve contestar tudo… Acho piada a este senhor que diz que Portugal não avança porque há pessoas que têm orgulho no nosso passado… Não seja ridiculo!!!!! Portugal não avança exactamente por causa de pessoas como o senhor que acham que podem contestar tudo, deitar tudo a baixo e viver a vida auto flagelando-nos, e insinuando que somos maus em tudo o que fizemos e tudo o que fazemos… Tenha juizo, quem nega o seu passado, jamais poderá construir um futuro…
Fevereiro 9th, 2009
Acha mesmo que eu contesto tudo? Pois se tivesse estado atento ao que vou escrevendo saberá, por exemplo, que não contesto o acordo ortográfico. Acha que querer conhecer o nosso passado histórico é “deitar tudo abaixo flagelando-nos”? Pois a mim parece-me que a História se vai reescrevendo em função do que se vai descobrindo, reinterpretando, etc. Talvez o estimado leitor prefira uma história com cromos, mas eu prefiro perceber e aprender com o passado. Quem nega afinal o passado? Quem o olha através da iconografia dos “heróis” construídos com cegueira política ou quem quer conhecer o que se passou realmente? Eu não disse que os descobrimentos portugueses são mitos. O que disse foi que a mitificação dessa época histórica só nos prejudica e prejudica sobretudo o próprio aproveitamento que podemos fazer actualmente desse passado.
Fevereiro 9th, 2009
Diogo,
O Miguel não quis dizer que não avançamos porque temos orgulho na nossa História. Quis, isso sim, dizer que uma das coisas que castra o nosso potencial é a embriaguez de mitos que recusam uma visão objectiva, racional e acusam de traição todos os que o questionem. Enfabular o passado é tão negativo quanto negá-lo; olhar para ele racionalmente, dando-lhe valor por aquilo que ele é e não pelo que gostariamos que fosse, isso é um exercício de qualidades mentais que nos fazem falta, na História como em tantas outras áreas da vida em comunidade.
Mas o Miguel que me corrija se eu estiver errado.
Fevereiro 9th, 2009
Miguel,
A história é um assunto com uma vida muito difícil de perceber. Somos aquilo de que nos lembramos – e lembramo-nos daquilo que somos. E andamos a puxar as pontas para tentar a libertação do círculo passado/presente, não vá ele tornar-se vicioso. Em todo o caso, aprecio os que escrevem para nos acordar dos excessivos repousos nas glórias passadas.
Abraço.
Fevereiro 11th, 2009
Obrigado, Héliocoptero e Porfírio, por terem compreendido aonde quero chegar. A principal razão para eu ter pegado neste tema é a importância que ele assume no debate público sobre a língua portuguesa. E não são só os patrioteiros de café que estão ofuscados por um “império” que só existiu na imaginação fértil de alguns. Há também umas “madalenas arrependidas” que julgam poder acalmar a indignação pós-colonial assumindo culpas a torto e a direito (Rui Ramos, por exmplo, acusou os defensores do acordo ortográfico de sofrerem de “ilusões neo-coloniais”).
A culpa não se herda, a não ser nas cabeças de mentes totalitárias (na China de Mao as famílias dos condenados à morte sofriam a humilhação de ter de pagar a bala da execução).
Fevereiro 12th, 2009
Como brasileiro, ainda sinto-me um pouco colonizado… agora pelos norte-americanos. Mas discordo do jornalista Fábio Pestana Ramos. Creio que, se a “Escola de Sagres” não tivesse existido, os portugueses não nos teriam colonizado (talvez seja também eu um romântico)!
Junto-me mais uma vez ao teu protesto contra os xenófobos de ambos os lados: somos povos irmãos. É quase impossível encontrar um brasileiro sem nenhum antepassado Ibérico.
Se não conservamos o idioma “intacto” é porque já os colonizadores encontraram aqui outros idiomas e ainda com o passar deste 5 séculos recebemos milhares de imigrantes de todo o mundo e não pudemos simplesmente desprezar-lhes as culturas.
Parabéns mais uma vez pelo blogue. Está cada vez mais difícil deixar de consutá-lo.
Fevereiro 13th, 2009
Obrigado, Cláudio, pelas simpáticas palavras. Quando fala do idioma “intacto” penso que está pondo o dedo na ferida. Há pessoas convencidas de que existem estados puros de “portugalidade” ou doutra mistificação qualquer e estão sempre a “refilar” contra quem quer que seja que queira fazer evoluir o país, a língua, a cultura, o ensino, eu sei lá. Pelo contrário, eu e muitas pessoas que nos interessamos pelo mundo em que vivemos mais do que por mundos ideais que nunca existiram temos a pretensão de olhar para o que nos propõem, pesar os prós e os contras e encontrar uma actuação política possível. É o que fizemos nós, que recusamos opor-nos unilateralmente, enquanto portugueses, a um acordo assinado por 8 países independentes. Creio, como muitos eleitores, que “a política é arte do possível”.
Obviamente, a “Escola de Sagres” aqui serviu-me apenas para ilustrar um problema muito típico de países com “História demais para o tamanho da sua Geografia”: o irrealismo, a ciclotimia permanente entre estados de depressão e euforia.
Fevereiro 14th, 2009
Vai mas é viver para o Brasil e deixa-nos em paz.
Janeiro 18th, 2010
Felizmente, hoje não é fácil em Portugal obrigar aqueles com quem não concordamos a sairem de Portugal. Olha, Guedes, vai tu.
Janeiro 21st, 2010