Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Desidério Murcho anima debate…

19 de Fevereiro, 2009 por Miguel RM

Nos últimos dias, no blogue De Rerum Natura tem aparecido um curioso debate sobre a língua portuguesa e a ciência. Há um artigo provocatório de Desidério Murcho, que põe em causa as motivações de pessoas como eu, empenhadas na defesa da língua. Cito:

“Quem instrumentaliza a língua entende que os superiores desígnios da língua se sobrepõem naturalmente às pessoas que quiserem falar ou escrever outra língua, por qualquer razão. Quem vê a língua como um mero instrumento entende que a língua está ao serviço das pessoas, e não as pessoas ao serviço da língua. Eu pertençao ao segundo grupo. As pessoas que pertencem ao primeiro grupo não se apercebem que não estão a defender os interesses reais de pessoas reais, mas meras abstracções políticas, que não foram concebidas para servir as pessoas mas antes para as oprimir. As ideias nacionalistas de Língua, Nação, Estado, Povo, e muitas outras ameaças deste jaez são mentiras políticas concebidas para oprimir as pessoas, nada mais.” 

Pois bem, tenho novidades: as abstracções políticas, como Desidério lhes chama, nasceram do esforço de muitos, pelas melhores e pelas piores razões. Mas fizeram História, são a nossa História. Nunca fui, não sou, nem serei nacionalista, mas o autor está enganado quando julga que língua, nação, estado e povo são conceitos apenas defendidos pelos nacionalistas. Digo mais. Um dos nossos grandes problemas com esses conceitos é termos deixado que tenham sido raptados pelos nacionalistas. “Entregando” a nação aos nacionalistas fizemos o pior negócio que é possível conceber, foi como se entregassemos a educação duma criança ao mais despótico dos educadores. Como é óbvio, o resultado será a total aversão da criança a qualquer espécie de educação.

Pois neste blogue defende-se a língua portuguesa, mas defende-se também a língua inglesa, pois haver uma grande língua de comunicação internacional é uma vantagem inestimável para a humanidade. Não vejo contradição entre a promoção generalizada da fluência em inglês e o empenho na defesa da língua portuguesa. Não me ofende em nada eu dever exprimir-me em inglês perante uma assembleia constituída por pessoas que não falem português. É apenas natural, pois procuro ser entendido.

O que é isso de “instrumentalizar a língua?” Eu não sei se instrumentalizo, pois nem entendo aonde Desidério quer chegar. Compreendo que ele quererá dizer algo de negativo, mas gostaria que explicasse. Nós, os que pensamos que devemos usar a nossa língua com cuidados, devemos tentar promovê-la, melhorá-la, etc. estamos a instrumentalizar?

Fico muito satisfeito por haver debate sobre a língua portuguesa, seja qual for o debate, mas as raivas pessoais de Desidério Murcho contra o sistema político levam-no a imaginar inimigos em toda a parte. Sendo uma pessoa com preparação filosófica indesmentível, talvez devesse olhar com mais cepticismo para as alegadas virtudes do exagero.

3 Comentários »

  1. Miguel, há uma grande diferença entre cuidar da língua no sentido de procurar escrever bem, expandindo a capacidade expressiva da língua e tornando-a veículo de expressão de ideias sofisticadas e não apenas para comprar batatas. Isso tu fazes e eu faço, há anos. Outra coisa completamente diferente é defender o seguinte:

    1) A superioridade intrsínseca da nossa língua, por ser nossa: isto é fascismo linguístico;

    2) Obrigar as pessoas a escrever ou a falar numa dada língua, para defender grandes desígnios nacionais: isto é indefensável, pois se as pessoas que constituem a pátria não querem falar ou escrever essa língua, não é do interesse da pátria que o façam;

    3) Impedir o acesso dos estudantes às bibliografias relevantes, não lhes dando o conhecimento linguístico necessário para isso: se os teus filhos tiverem muita curiosidade sobre o Egipto clássico, por exemplo, ou astrofísica, como raio se safam se só souberem ler português? Claro, os filhos dos pais cultos, saberão outras línguas cultas que não o português e por isso ficam em situação vantajosa relativamente aos outros, que ficam a chuchar no dedo convencidos de que dominam uma Grande Língua Universal, ao mesmo tempo que não têm acesso à cultura, à ciência e à filosofia, como os outros. Daí que os hinos cantados à língua portuguesa ocultem muitas vezes uma discriminação social injusta: é que quem canta esses hinos trata de preparar muito bem os seus filhos para ler bem outras línguas, ao mesmo tempo que impede as universidades de preparar os filhos culturalmente carenciados de dominar outra língua.

    Desidério Murcho
  2. Caro Miguel,
    Há uma espécie de doença ideológica que consiste em pensar que o mundo é um aglomerado de indivíduos, que na sua individualidade são o princípio e o fim de tudo. E que nada além disso tem justificação. A ideia de que a língua é um instrumento para as pessoas, e só isso, exemplifica aquela doença. Se a língua não estivesse no mundo quando cada indivíduo chega ao seu uso, e se os indivíduos pudessem fazer da língua o que a cada um bem apetecesse, a língua já se teria tornado há muito uma algaraviada.
    Se podemos fazer o que bem entendermos dos meios de vida em comum, como é a língua, porque não começam os partidários de tais teses a falar uma língua absolutamente original criada por eles? Nós, no respeito por essa liberdade individual absoluta, poderíamos sujeitar-nos a tentar compreender o que nos queriam dizer. Ou poderíamos, em alternativa, ignorá-los. As coisas não são assim, porque o que nos faz participar em algum tipo de comunidade (mesmo que apenas a comunidade dos falantes da língua X) passa por entrarmos numa tradição, entrarmos num caminho que começou antes de nós – sem pensarmos que podemos “revolucionar” tudo à nossa inteira e livre vontade.
    Isto é ser, em certa medida, conservador. Na medida em que são conservadores todos os que desconfiam das possibilidades ilimitadas de cada um estar no mundo como se todas as ferramentas comuns estivessem ao seu dispor.
    Um abraço.

    Porfírio Silva
  3. Obrigado por estes dois comentários. Ao Desidério só posso dizer que tenho dúvidas quanto à sua tese conspirativa segundo a qual há quem impeça”as universidades de preparar os filhos culturalmente carenciados de dominar outra língua”. Embora possamos desconfiar da qualidade das nossas elites, não serão certamente estúpidas até ao ponto de não entenderem o interesse que têm em que a sociedade se renove através dos mais aptos. Francamente, não vislumbro na sociedade portuguesa de hoje aonde estará esse discurso “nacionalista” contra a aprendizagem e o uso do inglês. Quanto ao Porfírio, obrigado pelas sábias palavras. E sim, em matéria de língua não é despropositado ser-se conservador. Na História de todas as línguas há muitos episódios de excesso de voluntarismo que só servem para criar erros. Alguns dos opositores ao acordo ortográfico (AO) têm razão quanto a isto, mas o curso da História é avassalador. António Emiliano, um dos grandes opositores ao AO, não se cansa de clamar contra a reforma ortográfica de 1911, tal como fez no seu tempo Fernando Pessoa. Contudo, passou quase um século e querer agora arrepiar caminho é fazer o mesmo que andou a fazer a Direcção dos Monumentos Nacionais nas décadas de 40, 50 e 60 do do século passado, reconstruindo castelinhos e monumentozinhos para parecerem “medievais”. Sou muito céptico em relação a voluntarismos reformistas em matéria de língua, mas não sou tolo e aceito os factos quando eles se tornam irreversíveis.

    Miguel RM

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