Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

O Ministro da Cultura, na inauguração da Feira do Livro de Lisboa, fez mais uma vez declarações sensatas sobre a questão do acordo ortográfico (AO), que foram notícia no Público.

A ideia de que a Academia das Ciências de Lisboa será incapaz de editar um Vocabulário da Língua Portuguesa já foi muitas vezes expressa neste blogue. O lógico seria criar uma entidade capaz de pôr em andamento uma tal empreitada. No entanto, com o terreno minado que temos à nossa frente, duvido que seja fácil.

Como conheço bem a questão e não estou ligado a nenhum interesse do sector (editores, universidades, Instituto Camões, diversos ministérios, etc.), sinto-me livre para dar alguns conselhos que poderão ser úteis para quem tenha força e engenho para criar uma tal entidade:

- Criar um corpo de consultores que seja variado, crente nas virtudes do trabalho de equipa e, sobretudo, não enfeudado aos interesses instalados no sector. Para isso, sugiro que se olhe também para as universidades fora do eixo Porto-Coimbra-Lisboa (em Aveiro há excelentes especialistas de dicionários e no Minho há uma experiência interessante de modernização do ensino das línguas). É bom não esquecer também que o Porto tem a maior universidade do país, um dado pouco conhecido num país em que se crê que universidades “a sério” são as de Lisboa e de Coimbra. Também não será inútil olhar para as universidades que se têm destacado no interesse pela língua portuguesa enquanto língua internacional de comunicação, nomeadamente a Católica e algumas privadas em Lisboa e no Porto. 

- Evitar os “suspeitos habituais”. Há uma geração de pessoas (os da minha idade e mais velhos) viciada em guerrinhas inúteis sobre a questão do AO. São algumas das pessoas que negociaram o acordo, como Malaca Casteleiro, e algumas que mais se destacaram a tentar impedir a sua aplicação, como Vasco Graça Moura e António Emiliano. A inclusão de pessoas destas na tentativa de criar algo susceptível de fazer avançar o AO só serviria para acirrar os ânimos. O ideal seria encontrar pessoas experientes, mas mais novas (há muitas entre os 35 e os 55 anos), que tivessem disponibilidade para se lançarem num trabalho difícil e moroso com espírito de grupo e de serviço público. Para além das universidades há muitas pessoas que têm mostrado um interesse genuíno pela questão, nomeadamente na Internet (basta ver o Ciberdúvidas), na rádio, na TV, nos jornais. Também não devem ser esquecidos os linguistas portugueses que trabalham em organizações internacionais, nomeadamente nas instituições europeias, que há mais de vinte anos produzem terminologia portuguesa ininterruptamente. 

Voltando ao artigo do Público, aconselho os leitores mais uma vez a lerem os comentários que, salvo raras excepções, são uma bela ilustração do campo de minas que teremos de atravessar.

Declaração de interesses: o autor deste blogue é lisboeta, trabalhou 25 anos como linguista na Comissão Europeia e tem mais de 55 anos.

 

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