Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

(Dedicado ao Nuno Morais)

Quando comecei a publicar este blogue, prometi que todos os meses faria uma campanha relacionada com a língua portuguesa. Em Maio, falei na confusão entre duas expressões: “ao encontro de” - “de encontro a”.  Agora, em Junho, vou lançar uma questão mais vasta, que é a forma como escrevemos em português os nomes estrangeiros, em especial as designações geográficas (topónimos). Esta é mais uma área em que se faz notar a ausência de entidades reconhecidas com competência de regulação em matéria de língua. Quem acaba por desempenhar mais ou menos esse papel é a imprensa escrita, devido à sua necessidade constante de escrever topónimos estrangeiros. Como em todas as questões relacionadas com a língua, os linguistas têm posições muito variadas que se situam entre dois extremos: os que querem aportuguesar todos os nomes e os que querem manter os nomes estrangeiros tal como são escritos na língua de origem. O que acaba por acontecer é que há aportuguesamentos que entram na língua comum e são aceites por todos e outros que nunca se conseguem impor. Por exemplo, nós em Portugal escrevemos Nova Iorque, mas não aportuguesamos o topónimo original inglês, a cidade de York. Escrevemos Berlim, Bona, Munique, Hamburgo, mas outros aportuguesamentos menos felizes como Francoforte e Dusseldórfia nunca se impuseram e normalmente são usadas as designações alemãs Frankfurt e Düsseldorf. Ninguém (felizmente) usa Oxónia e Cambrígia para designar Oxford e Cambridge. Esta incerteza é ainda agravada pelo facto de no Brasil se ter optado, em muitos casos, por palavras diferentes das utilizadas em Portugal (polonês-polaco, Irã-Irão, Moscou-Moscovo, etc.). 

Enfim, estou apenas a lançar a discussão e nos próximos dias irei publicar mais artigos sobre o tema. Não posso deixar de citar dois sítios preciosos onde podem encontrar muito material interessante: o Ciberdúvidas e o Público. Escrevam “topónimos” nos respectivos motores de pesquisa e encontrarão bastantes artigos úteis para se informarem sobre esta questão.

3 Comentários »

  1. Caro Miguel

    Sobre este assunto, transcrevo aqui uma nota que escrevi no recente livro de Orwell que organizei e traduzi para a Antígona, “Por Que Escrevo e Outros Ensaios”:
    “A designação portuguesa canónica de Britain é Grã-Bretanha, mas devia ser Britânia, usando-se então Grã-Britânia para Great Britain. Não faz grande sentido chamar Grã-Bretanha a Great Britain quando Bretanha é em português a designação de uma área da França — Bretaigne em francês e Britanny em inglês. A infâmia linguística actual é reveladora de um inaceitável desmazelo linguístico e geográfico. Ao longo do texto, traduziu-se o comum Britain por Grã-Bretanha, como é de lei, mas nesta passagem foi necessário verter pelo incomum Britânia para não se perder uma designação do texto original.”
    Atrevo-me, contudo, a discordar de ti no seguinte aspecto: não é por não haver uma entidade ou legislação centralizada sobre estas coisas, mas por pura incompetência dos linguistas e lexicógrafos, que não fazem o seu trabalho como deveriam, e dos intelectuais em geral, que nada escrevem. Há uns anos fiquei estarrecido quando falei com um editor de um importante dicionário de língua portuguesa e ele me disse que os lexicógrafos da casa usavam os jornais para acrescentar palavras ao acervo — mas não publicações académicas. Isto é patético, mas até percebo porquê: basta ler uma publicação académica para se perceber que aquelas pessoas não sabem português, falam o tempo quase todo copiando uma língua estrangeira qualquer (inglês ou francês, geralmente). Contudo, nada disto se resolve com legislações e instituições centralizadas que resolvam as coisas. Resolve-se com coisas como o seu blog e com o nosso trabalho meticuloso e fundamentado, como tradutores e autores; resolve-se com a nossa troca de ideias pública sobre estas coisas.

    Desidério Murcho
  2. Caro Desidério,
    Isto até parece a nossa conversa sobre o acordo ortográfico. Concordamos em quase tudo quando diagnosticamos as insuficiências, mas depois discordamos quando se trata de soluções a propor. Não é que eu não valorize o que propõe (”Resolve-se com coisas como o seu blog e com o nosso trabalho meticuloso e fundamentado, como tradutores e autores; resolve-se com a nossa troca de ideias pública sobre estas coisas”). Só que não chega. O Estado tem obrigações nesta matéria que estão previstas na Constituição. Por muito que desconfiemos do centralismo e da actividade política, de nada serve estarmos convencidos que nós, cidadãos, trataremos do assunto autonomammente, porque a verdade é que não o faremos se não houver alguma concertação “com as autoridades”. Não digo isto por defender que deve ser assim, é simples realismo de quem conhece a História do meu país.

    Miguel RM
  3. Pois, eu diria que é precisamente por causa da nossa história de centralismo que os cidadãos não fazem o que deviam fazer. E fazer o estado intervir mais só perpetua essa situação!

    Desidério Murcho

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