Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Há uns dias ouvi Clara de Sousa, jornalista da SIC, anunciar no principal telejornal do dia (20h00) a seguinte notícia: “Vastas áreas de floresta estão a arder há dias no Canadá.” Obviamente, dada a extensão do país, esperei que de seguida acrescentasse alguma especificação, nem que fosse mínima: na costa oeste, na costa este, junto aos grandes lagos, em Alberta, no Quebec. Nada…Os fogos são no Canadá que, como sabemos, é um pequeno país. Basta dizer que foi no Canadá, como bastaria dizer, por exemplo, que foi em Malta.

Já não é a primeira vez que constato esta indigência informativa. Já me aconteceu ficar a perguntar “mas onde foi?” perante notícias sobre catástrofes públicas “na Austrália, na Califórnia (vá lá, não disseram nos EUA), no Nordeste brasileiro, na África do Sul, na Índia, na Indonésia”. Como se vê, são pequenas ilhas, não é preciso dizer onde é.

Obviamente, não faço esta crítica apenas por eu ser uma pessoa interessada em Geografia, faço-a porque estamos perante mais um caso de infantilização da informação, de completa falta de consideração pela inteligência do público (ver minha entrada de 15 de Junho, últimos parágrafos). Mais uma vez, grande parte da responsabilidade por esta falta de informação provém da permanente pressa com que se trabalha nas redacções. Para indicar (mais ou menos) onde se situaria a área em causa, seria preciso em primeiro lugar que a pessoa que escrevesse a notícia soubesse algo de geografia, de modo a entender se se trataria do nome duma região, duma vila, dum rio, dum monte, dum lago, etc. Em segundo lugar, que tivesse conhecimentos para saber o nome português da área em causa. Enfim, o cabo dos trabalhos para uma noticiazeca sem interesse nenhum a não ser, é claro, que haja imagens ou que haja vítimas portuguesas. Lembro-me dos últimos grandes fogos no Estado de Vitória, na Austrália, há um ano e meio, em que um dos canais de TV descobriu um português que esteve no meio dos fogos e aí tivemos um verdadeiro regabofe informativo. O homem, que tinha vivido dentro da catástrofe, dava pormenores extraordinários, só compreens’iveis para alguém que conhecesse o dito Estado da Austrália. Claro que entre este excesso de informação e a míngua habitual, é muito preferível este excesso.

Portugal deve ser o único país europeu com noticiários de uma hora, muitas vezes “enchidos” com matérias sem qualidade informativa (alguns exemplos: meia hora a vermos nos 3 canais a apresentação de Cristiano Ronaldo no Estádio do Real Madrid; as “reportagens ad nauseam sobre a investigação policial do desaparecimento da “pequena Maddie”; as apresentações comerciais de “novos discos”; os sucessivos boatos, mexericos e suspeitas sobre a morte de Michael Jackson; a promoção de telenovelas e programas do canal). Pois bem, um pouco mais de profissionalismo e “respeito pelo cliente” poderia dar-nos telejornais mais curtos e muito mais informativos. Na RTP 2, pelo menos, a duração é adequada. Mas infelizmente, o conteúdo não presta, porque dependem do que é feito para a RTP 1. E, à boa maneira portuguesa, como se trata dum canal para “públicos minoritários”, os meios são escassíssimos, e todos os dias há uma notícia, uma reportagem ou um anúncio que é elaborado com aquela lógica imparável de ter de mostrar como a cultura é chata, uma coisa mesmo para esquisitos.

Fico por aqui. Mas não me conformo com a indigência da informação geográfica nos telejornais deste país que, há que notá-lo, deixou marcas suas em quase todo o mundo, tem habitantes seus ou descendentes de habitantes seus em grande parte dos países do mundo e tem milhões de pessoas que fazem turismo no estrangeiro. Será que esses portugueses e descendentes de portugueses só interessam quando são vítimas???

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