Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Já aqui referi algumas incoerências da língua portuguesa relacionadas com os topónimos estrangeiros. Hoje vou tentar comentar um aspecto importante que muito contribui para tais incoerências: o aportuguesamento ou melhor dizendo, os excessos de aportuguesamento. Já trabalhei em várias comissões destinadas a tentar uniformizar as designações portuguesas de nomes geográficos estrangeiros e tentei sempre nos debates (acalorados) defender uma posição moderada entre os fanáticos do aportuguesamento e os defensores dos termos na língua original. Fui vencido muitas vezes, como se verá nos seguintes exemplos: há uns anos, escrevi ao Primeiro-Ministro Guterres alertando-o para o facto de estar em preparação o Tratado de Amsterdão (ou Amesterdão) e de haver na imprensa portuguesa e mesmo em textos oficiais grandes discrepâncias quanto à inclusão do “e” mudo. Expliquei na altura que o “e” mudo não fazia falta nenhuma, que a palavra existia sem “e” mudo em muitas línguas latinas e no português do Brasil (”Amsterdã”) e seria sensato consagrar Amsterdão. Entre outros motivos evoquei o significado da palavra em holandês: dique/molhe do rio Amstel. A menos que se queira também escrever “Amestel” para designar o rio Amstel, não vislumbro vantagem nenhuma em incluir aquele “e” mudo em Amsterdão. Também sou contra o “e” mudo no Afganistão, mas os fundamentalistas do aportuguesamento insistem muito que há certos agrupamentos de consoantes, como “mst” em Amsterdão ou “fg” em Afganistão que “não são portugueses” e lá avançam com o “e” mudo. Como se os nomes estrangeiros tivessem de respeitar as regras do português. Foi o que disseram ao PM Guterres os linguistas que ele consultou e infelizmente lá consagraram o “e” mudo. Outro exemplo de incoerência, motivado por um aportuguesamento mal feito, inspirado no francês: São Petersburgo, cidade fundada em finais do século XVII, com uma designação que obviamente, significa “Cidade de São Pedro”. Ora, “São Petersburgo” é uma incongruência em português porque Petersburgo, obviamente, não é um nome próprio, e os santos têm nome próprio. A única “tradução” portuguesa aceitável seria “Cidade de São Pedro” ou “Burgo de São Pedro”. Muito mais elegante era a forma de escrever no início do século XX: Sampetersburgo. Uma palavra comprida (como horizontal é a cidade em causa), uma clara adaptação dum topónimo estrangeiro.

Enfim, o que pretendo com estes exemplos é mostrar como os excessos de aportuguesamento são prejudiciais à língua. Numa dessas comissões em que trabalhei, cheguei a ter de engolir a inclusão do inacreditável vocábulo “Listenstaine” para designar aquilo que em todas as línguas europeias é conhecido como Liechtenstein. Embora me tenha batido como um leão contra o inútil aportugesamento, o máximo que consegui foi que ficassem consagrados os dois termos, isto é, o que todos usamos e o aborto proposto para “facilitar a leitura a quem não sabe alemão”.

2 Comentários »

  1. Que prazer! Franciso José Viegas, no seu blogue Origem das Espécies, e António Mega Ferreira, na revista NS, suplemento do “Diário de Notícias” de sábado, escrevem do modo que defendo neste artigo: Sampetersburgo

    Miguel RM
  2. Caro amigo o aportuguesamento é algo necessario bem que por vezes pode ser prejudicial… Mas acho claro que nos devemos defender a nossa lingua assim os franceses nao disem Lisboa mas “lisbonne” obrigado

    luis cantantante

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