Ainda o aportuguesamento dos topónimos estrangeiros
20 de Junho, 2008 por Miguel RMJá aqui referi algumas incoerências da língua portuguesa relacionadas com os topónimos estrangeiros. Hoje vou tentar comentar um aspecto importante que muito contribui para tais incoerências: o aportuguesamento ou melhor dizendo, os excessos de aportuguesamento. Já trabalhei em várias comissões destinadas a tentar uniformizar as designações portuguesas de nomes geográficos estrangeiros e tentei sempre nos debates (acalorados) defender uma posição moderada entre os fanáticos do aportuguesamento e os defensores dos termos na língua original. Fui vencido muitas vezes, como se verá nos seguintes exemplos: há uns anos, escrevi ao Primeiro-Ministro Guterres alertando-o para o facto de estar em preparação o Tratado de Amsterdão (ou Amesterdão) e de haver na imprensa portuguesa e mesmo em textos oficiais grandes discrepâncias quanto à inclusão do “e” mudo. Expliquei na altura que o “e” mudo não fazia falta nenhuma, que a palavra existia sem “e” mudo em muitas línguas latinas e no português do Brasil (“Amsterdã”) e seria sensato consagrar Amsterdão. Entre outros motivos evoquei o significado da palavra em holandês: dique/molhe do rio Amstel. A menos que se queira também escrever “Amestel” para designar o rio Amstel, não vislumbro vantagem nenhuma em incluir aquele “e” mudo em Amsterdão. Também sou contra o “e” mudo no Afganistão, mas os fundamentalistas do aportuguesamento insistem muito que há certos agrupamentos de consoantes, como “mst” em Amsterdão ou “fg” em Afganistão que “não são portugueses” e lá avançam com o “e” mudo. Como se os nomes estrangeiros tivessem de respeitar as regras do português. Foi o que disseram ao PM Guterres os linguistas que ele consultou e infelizmente lá consagraram o “e” mudo. Outro exemplo de incoerência, motivado por um aportuguesamento mal feito, inspirado no francês: São Petersburgo, cidade fundada em finais do século XVII, com uma designação que obviamente, significa “Cidade de São Pedro”. Ora, “São Petersburgo” é uma incongruência em português porque Petersburgo, obviamente, não é um nome próprio, e os santos têm nome próprio. A única “tradução” portuguesa aceitável seria “Cidade de São Pedro” ou “Burgo de São Pedro”. Muito mais elegante era a forma de escrever no início do século XX: Sampetersburgo. Uma palavra comprida (como horizontal é a cidade em causa), uma clara adaptação dum topónimo estrangeiro.
Enfim, o que pretendo com estes exemplos é mostrar como os excessos de aportuguesamento são prejudiciais à língua. Numa dessas comissões em que trabalhei, cheguei a ter de engolir a inclusão do inacreditável vocábulo “Listenstaine” para designar aquilo que em todas as línguas europeias é conhecido como Liechtenstein. Embora me tenha batido como um leão contra o inútil aportugesamento, o máximo que consegui foi que ficassem consagrados os dois termos, isto é, o que todos usamos e o aborto proposto para “facilitar a leitura a quem não sabe alemão”.
Que prazer! Franciso José Viegas, no seu blogue Origem das Espécies, e António Mega Ferreira, na revista NS, suplemento do “Diário de Notícias” de sábado, escrevem do modo que defendo neste artigo: Sampetersburgo
Junho 24th, 2008
Caro amigo o aportuguesamento é algo necessario bem que por vezes pode ser prejudicial… Mas acho claro que nos devemos defender a nossa lingua assim os franceses nao disem Lisboa mas “lisbonne” obrigado
Novembro 2nd, 2008