A propósito de ministros e secretárias de Estado, uma questão de concordância
2 de Dezembro, 2008 por Miguel RMHoje, no Ciberdúvidas, é dada uma resposta interessante a uma questão suscitada por uma leitora brasileira a propósito da concordância do adjectivo geográfico americana. Aproveito a ocasião para denunciar um tique linguístico aparecido ultimamente na imprensa portuguesa, que consiste em colocar o adjectivo geográfico logo a seguir ao substantivo ministro ou secretário de Estado para assim evitar a justaposição dum substantivo e dum adjectivo de géneros diferentes, como acontece por exemplo com “Ministro da Cultura” português. Suspeito que esta mania recente tem duas origens:
- a cópia servil de notícias escritas originalmente em francês, língua em que sistematacamente o adjectivo geográfico aparece logo a seguir à designação genérica do cargo: le ministre français de la Culture. É um problema insolúvel, pois o ritmo de trabalho nas redacções impede que se escreva com tempo suficiente para que o redactor não se deixe contaminar pela língua original (há uns anos um tradutor inglês que traduzia as notícias portuguesas da agência Lusa para a língua inglesa explicou-me como agia quando a frase lhe aparecia estranha em português: “Primeiro tento imaginar como seria o inglês jornalistico do texto original que estava certamente na origem do texto português e então, a partir desse texto imaginado por mim, escrevo algo bem escrito em inglês.”)
- em segundo lugar, há um problema que está relacionado com a forma como se aprende português. Na época em que comecei a estudar, há meio século, o estudo da língua portuguesa obrigava-nos a entender a lógica estrutural das frases. Não nos passaria pela cabeça que as expressões Secretária de Estado ou Ministro da Cultura fossem consideradas enquanto palavras separadas para efeitos de continuação da frase. Por isso, não nos chocaria Secretária de Estado americana, nem Ministro da Cultura português. Ora, entretanto passaram-se cinquenta anos de sucessivas reformas do ensino do português, com inúmeros disparates e hesitações (para além de coisas acertadas, que também as houve, mas perderam-se no meio daquele barco sem rumo que tem sido o Ministério da Educação) e actualmente estamos na situação de iliteracia que todos conhecemos, que não existe só na Matemática, como tem sido repetidamente denunciado por pessoas como Nuno Crato, mas também na língua portuguesa. Tendo sido destruída a forma antiga (e antiquada, reconheço…) de se ensinar português, perdeu-se a noção essencial de que se deve escrever com lógica, concisão e rigor. O que acontece então é que nas redacções, também porque se escreve à pressa, tudo é escrito por imitação, o que resulta em imitar sintaxes estrangeiras ou na repetição dos tiques linguísticos que vão aparecendo. Há um exemplo recente que é o aparecimento do artigo definido em Chipre, mas vou deixar isso para outra entrada.
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