A propósito de liberdades, tauromaquia e Natal
22 de Fevereiro, 2010 por Miguel RMCom os meios de comunicação atafulhados com historietas inspiradas pelos tristes militantes políticos que temos, talvez seja altura de falar sobre as liberdades. Em primeiro lugar, quero saudar a atitude corajosa de Teresa de Sousa, com a qual demonstra ter uma noção de honra sobre política e jornalismo que deveria ser mais generalizada. Em segundo lugar, quero lamentar o espectáculo lamentável a que se está a assistir na comissão de Ética da Assembleia da República. Entristece-me sobretudo o protagonismo bacoco assumido por Mário Crespo, um profissional que eu respeitava. Em terceiro lugar, lamento dizê-lo, mas nesta questão não estou com nenhum dos lados do conflito. O autoritarismo de uns não justifica a falta de escrúpulos dos outros. A falta de escrúpulos de uns não justifica a tentativa de vitimização dos outros e, sobretudo, nada justifica que a luta política esteja contaminada como está pelos casos judiciais revelados por manobras provenientes do interior do sistema de justiça com a conivência de jornalistas pistoleiros. Infelizmente, não é novo e há em todos os partidos portugueses antecedentes lamentáveis nesta área, desde o PC a atacar Sá Carneiro pelas dívidas, passando pelo PS a combater Paulo Portas com insinuações, pelo PSD a utilizar despudoradamente escutas telefónicas, sem esquecer o CDS e o BE que actuam com a mesma falta de princípios. Um dia talvez se venha a saber mais sobre o caso Casa Pia e sobre quem dentro dos partidos (sim, partidos no plural) andou a promover o processo. Bom, adiante…
Li hoje uma curiosa notícia sobre tauromaquia que me vai ajudar a falar sobre esta questão das liberdades. Há vários anos que se assiste em Portugal a um conflito público entre amigos e inimigos das touradas. Obviamente, os inimigos concentram-se nos grandes centros urbanos, onde a noção de amizade com os animais está profundamente influenciada pela profusão de animais de companhia, e os amigos concentram-se nas zonas rurais com tradições tauromáquicas e interesses económicos relacionados com as touradas. Esta questão interessa-me porque não posso deixar de compreender as motivações de uns e de outros. Mas interessa-me também porque está muito relacionada com a questão das liberdades. Ora, a existência duma tradição tauromáquica no nosso país, sobretudo no centro e no sul, não pode ser negada por ninguém. Também não pode ser negado que esta tradição mediterrânica está hoje muito limitada territorialmente (Espanha, Portugal, sul de França e alguns países da América Latina, nomeadamente México). Estou à vontade para falar sobre este assunto, pois não gosto de touradas. Mas não posso negar que há muitos que gostam, que há uma economia regional relacionada com esta actividade e que há justificação histórica para a existência e promoção do espectáculo. Sim, é cultura na acepção lata do termo, tal como se aceita que a culinária ou a moda fazem parte da cultura. Não têm portanto razão nenhuma os membros do chamado “Partido Pelos Animais”. Mas têm o direito de vociferar, tal como eu tenho o direito de considerar que os chamados “amigos dos animais” tendem a deixar-se levar por ideias erradas acerca do que são as condições de vida no campo. Não posso deixar de pensar que a profusão de animais de companhia nas grandes cidades está muito relacionada com a degradação das relações interpessoais. Quanta frustação com os humanos não é compensada com o desvelo dedicado a um animal de companhia? Não é de estranhar que a profusão de animais de companhia (e os interesses económicos do sector) tenha dado origem a algum fundamentalismo, nomeadamente em relação aos chamados “direitos dos animais”. Ora, para mim, só seres racionais são titulares de direitos. Obviamente, há direitos de seres sem plena capacidade racional (crianças, doentes mentais), mas esses são os direitos que nós, seres racionais, estabelecemos como limites à nossa acção. O mesmo se pode dizer dos animais (desculpem a crueza da comparação). Os direitos que lhes atribuimos são aqueles que nos impomos como limites à nossa acção, e mais nenhuns. Não posso deixar de salienta as corajosas declarações de Paulo Rangel há quase um ano, quando afirmou que gostava muito do cão dele, mas a morte dele não poderia nunca ter mais significado do que a morte de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo (espero que não entendam esta referência como um apoio implícito. Estou apenas a salientar uma declaração dum político que não teve medo de ser “politicamente incorrecto” acerca dum assunto).
Estou portanto com os aficionados das touradas, não porque seja um deles, mas porque defendo as liberdades. E defender as liberdades é, acima de tudo, defender os direitos dos nossos adversários. Para mim não é nada de novo: sendo eu agnóstico, indignei-me contra a ocultação do Natal a que se estava a proceder na instituição em que trabalhei (Comissão Europeia): substituição dos votos de “Feliz Natal” por “Festas Felizes”, vontade de não festejar o Natal nas creches, etc. É o memo caso que a tauromaquia: não tenho a menor paciência para a chamada época natalícia, mas choca-me que, em nome dum pretenso multiculturalismo, se negue ou se oculte a existência de valores tradionais maioritários. Os direitos das pessoas “conservadoras” não são diferentes dos das pessoas “progressistas”, a não ser para meia dúzia de iluminados embriagados com a noção central do materialismo histórico que consiste na fé num percurso gradual da humanidades das “trevas” para as “luzes”.
“Ora, para mim, só seres racionais são titulares de direitos.”
Nem Hitler diria melhor!
Março 2nd, 2010
Se querem “brincar” à tortura de collants e lantejoulas, a espetar ferros em animais e muito pior, que o façam entre vocês e deixem os animais (touros e cavalos) descansados.
Pratiquem essas actividades bárbaras nos vossos corpos e deixem aqueles que não têm voz a salvo dos vossos pérfidos e cruéis costumes.
Nos vossos corpos têm toda a liberdade de o fazer!
Março 2nd, 2010
Aconselho-vos a ler a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO ANIMAL proclamada pela UNESCO em 1978 !!! 30 anos decorridos e ainda há pessoas que vivem na idade das trevas em Portugal.
http://www.hospvetprincipal.pt/deda.htm
Março 3rd, 2010
Aos meus leitores indignados:
1 – os animais têm direitos, mas não são os seus titulares porque não têm discernimento para os instituir. É nesse sentido que não são titulares, mas sim e apenas beneficiários dos direitos. Quanto a Hitler, talvez seja bom lembrar um pormenor biográfico: o homem era grande amigo dos animais, como aliás muitos outros altos dignatários nazis. Pela minha parte, conheço vários chamados “amigos dos animais” que o são para compensar o seu ódio aos seres humanos. Bem sei que não é o caso da maioria, mas ainda assim…
2 – A ideia de que os animais sofrem como sofreria um ser humano naquelas circunstâncias é antropocêntrica. É fácil escrever páginas e páginas de textos pungentes sobre a “tortura aos animais”, mas nada nos prova que haja rigor nessas descrições.
3 – Pois fui ler a dita declaração proclamada pela Unesco e descobri nela este considerando: “Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo,”. Aqui está a confirmação cabal do que expliquei sobre titulares e beneficiários de direitos.
Resumindo, eu defendo uma atitude civilizada perante todos os seres vivos, mas sei que ela se deve a uma lenta evolução histórica. Na nossa ânsia de “modernidade” tendemos a esquecer que há modos de vida com a sua lógica própria, não menos dignos de ser preservados. Os touros só são criados porque há tauromaquia. Eu sou pela conservação dessa espécie.
Março 16th, 2010