Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Neste blogue só muito raramente se fala de questões não relacionadas com a língua portuguesa. Mas, de vez em quando, dá-me uma vontade irrepremível de abrir a excepção. É o que farei hoje, falando sobre a actual polémica acerca das sondagens causada pelo clamoroso falhanço das empresas de sondagens nestas eleições europeias. Basicamente, há o facto de nenhuma ter acertado na vitória do PSD (e foi por 5 pontos percentuais!!!) e o facto já verificado noutras ocasiões de o CDS ser subestimado.

Vamos por partes. Sempre houve no universo das sondagens, como em todas as actividades humanas, gente mais e menos séria. Contudo, se as sondagens falham bastante, nem sempre o fazem por razões moralmente criticáveis. Em primeiro lugar, há que ter em conta que as pessoas inquiridas em sondagens mentem. Posso dar um testemunho pessoal indesmentível: eu faço questão de mentir SEMPRE em sondagens. Faço-o, se quiserem, por motivos electivos, já que gosto muito que a vida seja imprevisível, incerta, complicada. A mim agrada-me sobremaneira que as sondagens falhem, pois isso apimenta as noites eleitorais na televisão, que são espectáculos sempre interessantes.

Vamos agora ao caso em presença, as eleições europeias de 2009. As duas falhas constatadas podem ser analisadas como uma só: há uma sistemática subestimação dos partidos mais à direita. Penso que tal acontece porque a esquerda é maioritária no país (mesmo nestas eleições que correram mal ao partido de esquerda no governo a proporção é de 60-40). Sem querer pôr em causa a seriedade dos institutos de sondagem, é normal num país culturalmente dominado pelas ideias mais à esquerda que haja retraimento nos eleitores de direita e desenvoltura nos de esquerda. Não será portanto de excluir que haja algum retraimento na manifestação das preferências pelo PSD e pelo CDS. Não me esqueço que quando apareceu o fenómeno Cavaco na política portuguesa parecia impossível ele ter ganho com maioria absoluta. Eu próprio tive a experiência de ter estado a ver a noite eleitoral televisiva em casa duma amiga na margem sul do Tejo e de ter sido a única pessoa (em 40) que afirmou ter votado em Cavaco, o que me deu, admito-o, um certo prazer. Anos mais tarde vim a descobrir que pelo menos uma mão cheia delas tinha feito o mesmo, mas escondeu-o na altura.

É preciso ter em conta que a maioria dos eleitores não são pessoas “amarradas” ao voto num partido. Talvez haja umas dezenas de milhares de portugueses que votam sempre no mesmo partido, mas a grande maioria que vota tem dúvidas. Mesmo no PCP, onde a percentagem dos votos certos é maior do que nos outros partidos, tenho a certeza que a grande maioria dos seus eleitores poderá  votar noutros partidos. E para os eleitores ”normais”, isto é, os tais que interessam verdadeiramente, pois votam sempre com dúvidas, e não com certezas, o facto de as sondagens falharem não irrita nada, antes pelo contrário. A incerteza realça a importância do seu voto.

Parece que o CDS quer agora propor que as sondagens sejam proibidas nas últimas duas semanas antes das eleições. Espero que alguém no Largo do Caldas tenha o bom senso de explicar que não é proibindo seja o que for que se consegue algo de positivo. O CDS está convencido que a sistemática subestimação da sua percentagem o prejudica, mas eu penso que está enganado: quem se deixa influenciar pelas sondagens é o eleitor “normal”, o tal que hesita. Ora, o facto de o CDS ser subestimado pode levar muito eleitor que tenha esta ou aquela reserva em relação ao CDS a pôr de lado tais reservas por não querer que o partido desapareça. Do mesmo modo, penso que as centenas de milhares de eleitores que hesitam em todas as eleições entre PS e PSD não deverão ser condicionados pelo facto de as sondagens favorecerem tendencialmente mais o PS. Pelo contrário, penso que isso pode até ter o efeito perverso contrário. Penso sinceramente que a sistemática subestimação dos partidos da direita é susceptível de os beneficiar. Mais uma vez uma nota pessoal: como eleitor habitual de um ou outro dos dois grandes partidos portugueses, confesso que sou sensível aos sinais de arrogância política e se sinto que os media se inclinam demais para um dos lados tenho tendência para olhar com mais atenção para o lado oposto. Poderão dizer-me que não sou um eleitor típico, mas tudo me leva a crer que o sou. O eleitor “médio” não é estúpido e, salvo em épocas de grave crise, tem tendência para “não ir em conversas”.

Pela parte que me toca, em matéria de sondagens, sou um leitor atento do blogue Margens de erro e da página da Marktest, que utilizo como fontes de informação que considero credíveis. Mas nunca renunciarei ao prazer que me dá saber que todas as eleições são incertas.

 

PS: os resultados das eleições europeias foram interessantes para o futuro do país. A hipótese de haver uma alternativa de direita passou a existir, o que é benéfico para a saúde dos sistema. A elevadíssima votação de protesto à esquerda do PS é um sinal inequívoco de quanto pesam as injustiças sociais e de como continuam a ter peso os preconceitos marxistas.

2 Comentários »

  1. Miguel,
    Análise interessante, fora das esquadrias habituais adoptadas pelos “interessados” (entre os quais me incluo).
    Só acrescentaria que a proibição agora “imaginada” já existiu entre nós – e desapareceu por inutilidade comprovada por atestado.
    Abraço.

    Porfírio Silva
  2. Como sabes, não tenho nada contra os “interessados”, limito-me a tentar explicar como se sente um eleitor não comprometido à partida. O CDS quer fazer crer que os eleitores indecisos são negativamente influenciados pelo enviesamento das sondagens num certo sentido, Eu reivimdico que talvez não seja assim. Quanto aos institutos de sondagem, não posso afirmar que os principais são todos sérios, mas posso afirmar claramente o seguinte: se houver um que não e sério e faz fretes (até posso imaginar que é o caso de um deles), ele só sobrevive porque nunca ousa afastar-se demais da tendência geral. Ou seja, o mercado funciona.

    Miguel RM

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