Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Há uns dias, o Ministro da Cultura, ao pronunciar-se favoravelmente sobre o Plano Nacional de Leitura, referiu que seria necessário criar em Portugal também um Plano Nacional de Escrita, que promova a escrita certeira. Bem sei que este Ministro é muito criticado por algumas pessoas do sector da Cultura, mas a mim interessa-me o que ele diz sobre a língua portuguesa, já que é uma das poucas personalidades políticas que tem um discurso coerente, sensato e entuxiasmado sobre o assunto. E o Ministro, mais uma vez, tem razão: um dos graves problemas do português escrito é a constante importação de expressões e formas sintácticas do português falado. Acontece que, nos últimos anos, se tem acentuado muito a presença de estrangeirsmos na língua falada, um fenómeno que se explica pela omnipresença do inglês nas linguas de especialidade, sobretudo quando se trata de palavras novas ou repristinadas. Não tenho uma visão moralista sobre este assunto e compreendo perfeitamente que em muitos casos é inevitável esta generalização do inglês (há uns dias ouvi um quadro da Jerónimo Martins explicar que não haveria outro modo de gerir a empresa, já que está baseada sobretudo em dois países com línguas diferentes, Portugal e Polónia; e seria absurdo gastar uma fortuna para ensinar polaco e português a uns e a outros, quando a verdade é que o inglês é a segunda língua de quase todos). Em muitas áreas de actividade é uma grande vantagem haver uma grande língua de comunicação internacional como o inglês. 

Embora aceitando a inevitabilidade dos factos, não devemos ficar cegos e menosprezar as suas consequências. Uma das mais graves é a perda de rigor na língua escrita. Cada vez há mais preposições que ficam esquecidas (exemplo: “aquilo que eu gosto” em vez de “aquilo de que eu gosto”), cada vez há mais frases sem articulação (na capa do Público de hoje, há o seguinte título ”Freeport Procurador quer levantar segredo de justiça, Cândida Almeida acha cedo”. Se olharmos bem, verificaremos que Freeport está em cinzento e o resto da frase em preto; mas será essa opção cromática suficiente para explicar a ausência duma vírgula ou de dois pontos entre “Freeport” e “Procurador”?).  Estes exemplos que dou são ainda mais graves do que a presença de palavras estrangeiras, pois desarticulam a própria estrutura da língua.

Há um problema grave de falta de relevância da língua portuguesa. Falta de relevância que decorre de não haver ninguém (ou quase ninguém) que se ocupe no mundo lusófono de criar constantemente nova terminologia, como é necessário em quase todos os campos de actividade. Consequentemente os novos termos entram quase sempre em inglês e os falantes limitam-se a adoptá-los ou adaptá-los atabalhoadamente. Veja-se a confusão que se arranjou com a palavra latina media introduzida na língua inglesa: os brasileiros apressaram-se a adoptar a palavra transcrevendo para português a pronúncia inglesa, inventando assim “a mídia”, um absurdo linguístico. Porquê “a”? Por que motivo se transcreveu numa língua neolatina a pronúncia inglesa duma palavra latina? O mais sensato teria sido manter a palavra latina, que é um plural, havendo duas formas possíveis: ou se mantinha sem acento, em itálico, ou transcrevia-se para português e então teriamos “os média”, um plural irregular, é certo, mas explicável pela origem da palavra. Repare-se que, por exemplo, a palavra “multimédia” está consagrada. Em vez de se ter caminhado para soluções plausíveis, ficámos com a confusão total. Muitas pessoas responsáveis dizem “os mídia”, expressão totalmente absurda em português, pois não respeita a transcrição portuguesa da expressão latina, nem sequer corresponde à expressão que ficou (erradamente, na minha opinião) consagrada no Brasil.

Já no passado dia 20 me insurgi aqui neste blogue com o absurdo título “O Wrestler”, em que se justapõe a uma palavra inglesa um artigo definido português. Outro comentário interessante foi publicado na passada terça-feira no Público por Desidério Murcho: refere-se às ”palavras mágicas [que] imitam o pensamento e disfarçam a vacuidade de ideias”. Mais uma vez o problema está relacionado com a imitação da língua falada. É por se ouvir na rádio e na televisão pessoas com responsabilidades falarem a torto e a direito com palavras “caras” que muitos falantes não resistem à tentação de os imitar ao falar a ao escrever. Dois exemplos curiosos são a praga das “acessibilidades” e o curiosíssimo desaparecimento dos aviões e helicópteros, que passaram a ser sempre “meios áereos” quando se fala de incêndios. Neste caso desapareceu também a designação genérica “aeronaves”, passou tudo a ser ”meios aéreos”.

4 Comentários »

  1. aii,eu acho que a lingua inglesa no brasil nos trouxe mtos beneficios,até facilita nosso aprendizado em outras linguas

    fernanda
  2. Cara leitora, se ler o que eu escrevi com atenção, verá que concordo consigo. No final do primeiro parágrafo escrevi: “Em muitas áreas de actividade é uma grande vantagem haver uma grande língua de comunicação internacional como o inglês.” As minhas críticas não são contra o inglês enquanto língua, mas sim contra a falta de cuidado com que se escreve em português por causa da incorporação apressada de expressões e frases inglesas .

    Miguel RM
  3. Muito muito interessante msm essa leitura esta apenas favorecendo nosso país…

    Alyne
  4. É lamentável o que ocorre no Brasil (meu país): a incorporação de termos estrangeiros à língua sem necessidade, pois há correlatos em nossa rica língua portuguesa. Isso reflete a falta de leitura e de cultura. Já o disse nosso escritor Nelson Rodrigues: o brasileiro tem complexo de vira-lata. Ou seja, para nós tudo que é estrangeiro é melhor. Até o idioma! Pessoas que nunca leram um livro se dão ares de falantes de inglês. Repito: é lamentável.

    Marco Antonio Salles

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