Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Dado que recebi algumas reacções adversas de pessoas minhas amigas, regresso ao tema para me explicar melhor. Começo por colocar a questão nos termos que ela me interessa: se Portugal, por algum milagre, dispusesse de cerca de 40 milhões de euros adicionais para investir em bens culturais, quantos dos senhores especialistas da área diriam que uma boa ideia seria gastá-los para comprar 85 quadros de Joan Miró? Peço, por favor, que sejamos lógicos: se a dita colecção de 85 quadros é assim tão importante por que motivo não houve uma única oferta séria para a adquirir? Admito que tenha havido quem a tenha querido adquirir a preços de saldo, mas vendê-la nessas condições seria um disparate. Mas, os países prósperos? Os museus com dinheiro para aquisições? Apareceu alguém? Népia.

Segunda questão suscitada pelos entusiásticos projectos já propostos de criar um núcleo de obras de Miró em Portugal para “rentabilizar” a colecção. Quem, no seu perfeito juízo, é que se lembraria de escolher Lisboa como destino turístico por haver aqui um espólio de 85 obras de Miró? Há uma fundação Miró em Barcelona, outra em Palma de Maiorca e há dezenas de museus espanhóis com obras de Miró nos seus acervos, sem falar de museus noutros muitos países com obras do dito artista, muito conhecido pelo seu estilo inconfundível, mas também pelo facto de ter criado um número impressionante de obras de arte. Todos os especialistas reconhecerão que Miró pintou demais e, sobretudo, pintou demais os mesmos tipos de quadros. Qual seria então para Portugal a vantagem de também dispor dos seus 85 Mirós? Mostrar-mos que somos uma espécie de pequenina Espanha, muito empenhada em celebrar um pintor catalão? Com dinheiro público? Parece-me que Espanha não precisa propriamente da nossa ajuda para promover a sua cultura no estrangeiro. Como se vê actualmente em Lisboa, o museu do Prado exporta exposições; o Teatro Real de Madrid vai receber subsídios públicos (espanhói, é claro) para apresentar um espectáculo de zarzuela no Teatro de S. Carlos em Lisboa. A que propósito é que deveriamos gastar dinheiros públicos portugueses para ter um museuzinho com obras de Miró em Portugal? Quando não há dinheiro para abrir o Museu dos Coches? Quando o Museu do Chiado não tem verbas para adquirir obras? Quando estão a ser cortados os apoios a instituições como a Fundação de Serralves? 40 milhões de euros para podermos ficar contentinho com 85 obras de Miró? Porquê? Tem alguma ligação com Portugal, para além de ser daqui da peninsula que partilhamos com outros povos de Espanha? É essencial para a investigação? Para o turismo? Para a cultura em Portugal?

O jornal Público de hoje chega ao desplante de sugerir ocupar a extensão do Museu do Chiado com os 85 Mirós. E as obras do acervo do Chiado que estão encaixotadas há anos por falta de espaço para serem expostas? Será que, mais uma vez, com uma idiotice deste tipo, vamos ficar privados mais uma série de anos de poder fruir do acervo dos séculos XIX e XX do Museu do Chiado?

Desculpem não me ocupar das questões políticas levantadas por vários activistas da oposição. Eu percebo que se aproximam eleições e há que mostrar serviço para poder mostrar “patriotismo cultural”. Como de costume, tudo está a ser discutido em torno de competências jurídicas deste ou daquele. O PSD, se estivesse na oposição, faria exactamente o mesmo que lhe estão a fazer, certamente com os mesmos argumentos jurídicos, esse vício pornográfico da política portuguesa. Admito que tenha havido falhas graves na gestão do processo, mas isso não é o esencial. O que interessa é que, pelos vistos, o PS já conseguiu com esta questão a reacção atávica dos patrioteiros, numa repetição daquilo que fez com Foz Coa há mais de uma década. Quem puder, vá a Foz Coa, vá lá ver o enorme desenvolvimento que foi proporcionado pela saga das gravuras “que não sabem nadar”. Vá lá ver em que é que resultou a campanha bem orquestrada para salvar as tais “gravuras”, como Foz Coa se desenvolveu, se tornou num local incontornável do turismo cultural, uma espécie de Altamira portuguesa.

Miró e Foz Coa parece-me ser uma associação de ideias bem interessante. Desculpem não me rever na pequenez das ambições da nossa opinião pública, mas a minha noção de patriotismo obriga-me a querer mais para o meu país do uns “desenhos” promovidos por alguns arqueólogos ou uma colecçãozeca de quadros dum pintor prolífero.

l

Agora que a Christie’s resolveu prudentemente proteger-se da política portuguesa, permitam-me então dizer o que penso sobre esta nova questão cultural que me faz lembrar as gravuras do Coa nos anos 90. A argumentação dos agentes culturais e dos políticos do Partido Socialista dessa área parecem-me oriundas dum país que eu não sei onde se situa, mas não é certamente o Portugal de 2014.

Um dos agentes culturais que falou, Pedro Lapa, foi muito claro: ele, enquanto agente cultural, não tem de saber por que coincidências da História é que “nos” foram parar ao colo os 85 quadros. Ele só tem de fazer pressão para que tiremos proveito “cultural” do facto em si. Muitos outros políticos e agentes desta área falaram com o mesmo pressuposto, sem ousarem ser tão claros, mas na base do seu raciocíno está sempre o mesmo pressuposto de “irresponsabiliddae” da rapaziada da cultura.

Ora, permitam-me a mim, que não sou propriamente da área, opinar com a independência que me permite ser um mero tradutor com algumas amizades na área da cultura e outras na área das finanças e atá algumas que misturam as duas. Será que para Portugal é essencial ter 85 quadros de Joan Miró? Ou, para polemicar com  Pedro Lapa, será que, sendo nós pobres em colecções de arte contemporânea, logo Joan Miró, pintor de algum valor, mas longe de ser considerado um ícone pelos especialista da área, é que deveria suscitar os nossos arroubos patrióticos? Talvez fosse mais interessante pensarmos no que está a acontecer com a colecção do Banco Privado, que tem obras de inegável interesse, até porque foi adquirida com a competência profissional de vários curadores, entre os quais precisamente Pedro Lapa.

Desculpem estar a misturar tudo, como é próprio duma pessoa que não é especialista da área, mas, enquanto parte interessada na política cultural do meu país, estarei sempre pronto a “desculpar” alguma proximidade dos agentes culturais com pessoas cuja probidade financeira possa ser considerada duvidosa, pois acredito nas vantagens que a arte, ao longo da História, vai extraindo das vicissitudes da política, dos negócios e até da criminalidade. Mas,por favor, não queiram enganar-nos com conversas da treta sobre quem é que defende a cultura em Portugal. Aquilo que está a acontecer com a venda dos Mirós seria igualzinho com o PS no governo e o PSD na oposição. A única coisa estranha seria vermos o PSD muito alinhado com toda a restante esquerda para além do PS. Mas, como bem sabemos, já aconteceu…e certamente voltará a acontecer.

Voltemos ao essencial: Portugal não precisa mesmo de 85 obras de Joan Miró. Esta verdade inegável pode ser confirmada por qualquer pesssoa minimamente informada sobre o tema. Infelizmente, mesmo aqueles que pensam como eu só o dirão à boca pequena, pois sabem que teriam muito a perder se fossem contra esta carneirada surrealista, uma espécie de homenagem involuntária a Miró e a muitos dos seus correlegionérios.

Criar em português?

22 de Janeiro, 2014 por Miguel RM

Em boa hora decidiu a Fundação Gulbenkian organizar um colóquio em que se coloca a verdadeira questão que importa para que a língua portuguesa mantenha e desenvolva a sua relevância no contexto mundial (ver programa em http://www.gulbenkian.pt/Institucional/pt/Agenda/Eventos/Evento?a=4661). Sob o título Criar em Português, o que pode uma língua?, “este colóquio pretende saber mais sobre as experiências, dificuldades, descobertas e expectativas de quem usa e estuda a língua portuguesa e sabe o que ela tem de único, de virtuoso e de virtualidade.”

O autor deste blogue, que tem lutado constantemente para que não se faça da questão ortográfica um motivo de conflito entre todos os falantes da língua portuguesa, só pode felicitar os organizadores pela escolha do tema e dos participantes e esperar que não haja quem queira dar cabo da iniciativa desvirtuando-a com discussões estéreis sobre o acordo ortográfico. Convido todos os partipantes a absterem-se da exibição dos seus estados de alma sobre a querela ortográfica. A iniciativa da Fundação Gulbenkian é louvável e merece a colaboração de todos os que querem o melhor para a nossa língua comum. O que não merece é ser desvirtuada por uma questão lateral ao colóquio, por mais paixão que esta desperte.

Eppur si muove

27 de Dezembro, 2013 por Miguel RM

Os inimigos do acordo ortográfico (AO) andam outra vez muito animados: desta vez, a animação deve-se ao facto de ter havido algum recuo na sua aplicação no Brasil. Até embandeiraram em arco com a vinda a Lisboa de dois senadores brasileiros que estão na origem da suspensão da sua aplicação no Brasil. Note-se que aos anti-acordistas nem lhes interessa o facto de os ditos senadores quererem um acordo ainda mais radical, defendendo nomeadamente que se suprima os “h” iniciais em palavras como humidade, hidra, hóstia, etc. O que interessa é haver lenha para a campanha anti-acordo que tanto anima as hostes patrioteiras.

Os meus leitores sabem muito bem que também não aceito o radicalismo pró-acordo, que só tem dificultado a questão, extremando posições numa matéria em que tal extremar não faz mesmo falta nenhuma.  Adiante…

Há pouco tempo assisti a uma novidade liguística interessante nas transmissões em diferido da Metropolitan Opera de Nova Iorque, que estão integradas na temporada Gulbenkian de Música. Enquanto em épocas anteriores as legendas eram em inglês, neste ano passaram a ser em português. Eis o aviso que figura no programa: “Tendo o MET Opera in HD oferecido recentemente legendagem em português do Brasil, passamos a apresentar esta opção nas nossas transmissões, em lugar da legendagem em inglês”. Foi muito interessante ouvir as recções do público a esta “novidade”: de um lado, há os que não suportam estar a ouvir (ler, no caso em apreço) todas as personagens tratarem-se por “você” a torto e a direito, quer sejam homens, mulheres, velhos ou novos, heróis ou  vilões. As mesmas pessoas que aceitam com normalidade que toda a gente seja “you” em inglês têm os maiores problemas em que haja no mundo uma versão da língua portuguesa que despacha toda a gente com você. Ouvi várias pessoas afirmarem que preferiam as legendas em inglês e que iriam escrever à organização reivindicando uma preferência para essa língua estrangeira. Por outro, há os que, como eu, se aprazem com a utilização da nossa língua, ainda que numa variante algo diferente. Mais uma vez verifiquei que as reacções ao português do Brasil estão mesmo muito marcadas pela familiaridade (ou ausência dela) com a cultura brasileira.

Penso já ter dito várias vezes que a questão do AO, no fundo, só é importante se acreditarmos que temos vantagem em que a nossa língua seja uma importante língua de comunicação internacional. Se quisermos renunciar a essa vontade, não haverá grande perda para o mundo: o português do Brasil impor-se-á, sem grande esforço, como o ÚNICO português internacional e nós ficaremos contentitos porque mantivemos a “pureza” da nossa língua. A evolução histórica que tem levado à predominância internacional do português do Brasil só não foi mais rápida porque nos últimos trinta anos Portugal esteve na União Europeia, uma entidade internacional que, ao contrário de nós, tem uma política linguística forte e coerente, e essa pertença mitigou a inevitável decadência nas instâncias internacionais da língua  portuguesa na sua versão europeia.

Os meus caros compatriotas podem continuar animaditos com a acrimónia entre acordistas e anti-acordistas. Contudo, a terra continuará a mover-se, como dizia o outro.

Na semana passada assistimos a uma comédia ridícula acerca da questão insigne de se saber se alguns polícias armados em manifestantes deveriam ou não ter sido impedidos pelos verdadeiros polícias de “violarem” o perímetro de segurança da escadaria da Assembleia da República. Para os meus leitores menos atentos ao noticiário de Portugal, eis um breve artigo sobre o assunto:

Público

Vamos então ao que me traz aqui: parece-me extraordinário haver polícias que se considerem no direito de se comportarem como “vulgares manifestantes”, indo ao ponto de serem eles próprios a levar a cabo a tal “violação” da escadaria que tem sido tentada inúmeras vezes nos últimos anos por verdadeiros manifestantes, sempre impedidos pela verdadeira polícia. Se não fosse um indício lamentável da nossa falta de seriedade política, até dava para rir. Mas a verdade é que este comportamento de alguns polícias não é muito diferente do de muitas pessoas com responsabilidades políticas bem mais pesadas do que os agentes das forças da ordem. É o caso dos juízes e procuradores que se queixam da ineficácia da justiça como se não fosse nada com eles ou que permitem que haja fugas de informação nos processos que tutelam ou dirigem. É o caso dos políticos que se queixam da degradção do sistema político como se não fosse nada com eles (há mais de dez anos houve um primeiro-ministro que abandonou o poder queixando-se do “pântano” político). É o caso de algumas classes privilegiadas como juízes, procuradores, médicos, pilotos de avião, trabalhadores dos transportes públicos, estivadores e alguns outros acharem-se no direito de recorrer com ligeireza a formas de luta próprias das classes menos favorecidas, nomeadamente as greves, fazendo-se passar por meros “trabalhadores” sem mordomias nem privilégios. Nesta matéria há muito poucas pessoas que estejam imunes a esta espécie de populismo que consiste em “esconder” os benefícios de pertencer a determinadas “aristocracias” profissionais, com segurança de emprego e vida desafogada em comparação com a média nacional. E os políticos que tanto se esforçam por parecerem “pessoas normais”, dando confiança a jornalistas, participando em reportagens frívolas, mostrando as suas casas e famílias, só ajudam a este regabofe de lamentações de pseudocoitadinhos.

Penso que foi Fernando Pessoa quem denunciou em alguns dos seus textos políticos as elites portuguesas (a sua fraca qualidade) como um dos maiores problemas do nosso país. Não vou agora pretender que os polícias pertencem às nossas elites, mas não posso deixar de pensar que são profissionais com responsabilidades “de elite”, no sentido em que podem (e devem) exercer uma autoridade essencial para a vida democrática. Em países mais bem organizados do que o nosso a pertença às forças policiais é encarada como uma prova de elevada cidadania, e não como motivo para dixotes, como acontece por cá. O que os manifestantes-polícias fizeram na passada semana só pode contribuir para que não os tomemos a sério, já que, como crianças a fazer pirraça, resolveram “violar” um preceito que lhes cabe fazer cumprir. Esta lamentável patetice já levou a demissões nas forças da ordem e a ridículas declarações do PS “ofendido” por a polícia não ter impedido a polícia de “violar” a escadaria. Não sei mesmo se não deveriamos rir.

 

A propósito do que tenho dito recentemente sobre a língua inglesa, lembrei-me hoje de falar duma estação de rádio que passa música suave, muito agradável de ouvir, a Smooth FM (smoothfm). Os intérpretes mais habituais são cantores com afindades com a pop, o blues e o jazz. Felizmente, há muita música e falam pouco, porque…quando falam…é um desatre. Usam uma espécie de textos que servem de separador e que se destinam exclusivamente à autopromoção. Passo a citar: «Música para ser degustada…Smooth FM…and all that jazz…com Banif music….the best of» Perceberam? Pois, eu também não, a não ser que me parece terem algum patrocínio do Banif. As quatro expressões em inglês estão desligadas, sem sintaxe, mas com uma preposição portuguesa. Provavelmente, os locutores quererão dizer algo, mas não se percebe bem o que será.

Depois, têm outros pequenos separadores que rezam assim:

- «Smooth FM….tão requintado como um risotto al tartufo no Per Se….»

- «Smooth FM….tão excitante como um birdie….»

- «Smooth FM….tão perfeito como o Christie’s de Nova Iorque…»

Algumas explicações (vou tentar): o Per Se é um dos melhores restarantes de Nova Iorque em que se paga cerca de 300 dólares por refeição (1 pessoa); um birdie é uma resultado de golfe: faz-se um birdie quando se consegue enfiar a bola no buraco com menos uma pancada do que as previstas para o buraco em causa. Já a referência à leiloeira Christie’s parece clara, só não se entende o que é que tem de especial a de Nova Iorque, quando estamos a falar duma firma com sedes em Amsterdão, Genebra, Londres, Milão, Paris, Zurique, Bombaim, Dubai, Hong-Kong e Xangai, para além de Nova Iorque, claro, que deve ser  uma cidade muito amada pelos locutores da Smooth FM.

Estes pequenos textos parecem mesmo sair da “imaginação” de alguém muito habituado a ler revistas de viagens e de frivolidades. Enchem a boca a falar de bens de consumo (golfe, restaurantes caríssimos, leilões para venda de obras artísticas) só ao alcance de privilegiados, para se darem ares de “entendidos”, de pessoas “com gosto”. Como se a música suave fosse exclusiva de gente que está bem na vida. Ridículo, mas revelador: num país periférico, que historicamente depende muito das suas relações internacionais, parece existir em alguns sectores da opinião pública uma subserviência ridícula perante a cultura internacionalmente dominante. O enlevo com que os locutores da Smooth FM olham para Nova Iorque não é diferente da subserviência embasbacada com que uma parte das elites portuguesas olhava para Paris há um século.

Admito que já tenha havido críticas de outros ouvintes, pois recentemente tem havido menos insistência neste tipo de separadores sobre mitos do luxo. Suponho que a situação do país obrigue a alguma contenção nesta matéria. Em vez disso, temos textos azeiteiros como:

-  «Smooth FM….tão desafiante como o seu próprio projecto de trabalho…»

Vou concluir, tentando ser construtivo: acabem lá com os separadores de autopromoção, que são mesmo execráveis. Os vosso ouvintes não os merecem. É uma pena “borrarem a pintura” com esses textos, pois há muita coisa boa para além da música que passam: os noticiários são curtos, informativos, muito profissionais. Os locutores são muitíssimo bons (dicção, voz, etc.).

Há duas semanas participei na “2ª Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial”, que decorreu em Lisboa. Embora tenha de louvar o bom nível das intervenções, quero fazer uma observação sobre um aspecto que me chocou em vários oradores: o modo como se referiram com hostilidade à omnipresença do inglês no mundo contemporâneo, numa espécie de competição subordinada ao lema “Espelho meu, espelho meu, quem é mais anti-língua inglesa do que eu?”

Começo por dizer que o facto de dispormos duma lingua franca em todo o mundo deveria encher-nos de felicidade, pois possibilita coisas maravilhosas como, por exemplo,  um piloto coreano estar capacitado para fazer aterrar em Frankfurt um avião de fabrico brasileiro. Imaginem o que aconteceria se no aeroporto só entendessem alemão, se as instruções do avião fossem em português e o piloto insistisse em só falar coreano. A língua franca é o inglês porque são muitos os habitantes do planeta de língua materna inglesa, mas sobretudo porque são muitíssimos os que entendem o inglês como segunda, ou terceira, ou quarta língua. Podemos afirmar sem temor que a grande maioria da população do mundo fala algum inglês, ainda que seja uma versão incipiente. O inglês é então um meio poderosíssimo para facilitar a mobilidade e a comunicação, factores essenciais da vida contemporânea. Claro que, como acontece com tudo na vida, essa coisa óptima que é termos uma língua franca também tem aspectos negativos. Um deles é o modo como interfere nas outras línguas, contaminando-as exageradamente no léxico e na sintaxe, devido ao grande prestígio que tem, por comparação com todas as outras línguas, de menor expressão internacional. Ora, se o inglês está sózinho na primeira divisão das línguas internacionais, as outras línguas têm pesos muito diferentes na cena internacional; na segunda divisão estão as outras línguas de comunicação internacional, entre as quais o português: é uma das poucas que tem algumas potencialidades para servir de língua de comunicação internacional, dado o facto de ser língua oficial de oito países em quatro continentes, sem esquecer as várias diasporas de língua portuguesa presentes em muitos países do mundo. Este “campeonato” da língua portuguesa é o das outras línguas de comunicação internacional para além do inglés, ou seja, alemão, árabe, espanhol, francês, italiano, mandarim, russo, urdu e pouco mais. E, claro, esta situação está a evoluir permantemente.

Ora, é bom termos a noção de que esse é que é o nosso campeonato. Não vale a pena medirmos forças com a língua inglesa, porque essa é mesmo, e será durante muito tempo, a única língua verdadeiramente mundial. O ridículo gesticular contra a predominância do inglês é tempo perdido, só serve para demonstrar a falta de autonomia e de auto-estima dos defensores das “outras” línguas. É claro que há razões históricas para algum ressentimento anti-britânico num país que tanto dependeu financeiramente da Grã-Bretanha durante mais de um século (1800-1914). Não nos devemos esquecer que o nosso hino nacional, composto no próprio ano do Ultimato britânico (1890),  tinha na versão original do seu refrão o verso “contra os bretões, marchar, marchar”, que acabou por ser substituído por outro “politicamente correcto”, mas bastante absurdo, quase suicida (“contra os canhões, …”). Se já marchar contra os bretões, como estava no texto de Henrique Lopes de Mendonça, seria quase impossível, dada a desproporção de forças, então a ideia de marchar contra os canhões parece-me mesmo própria de um povo doente de irrealismo. Mas enfim, é tudo apenas simbólico…como sabemos.

Tal como em 1890 não fazia sentido irmos para a guerra contra a Grã-Bretanha, também hoje é irrisório clamar contra a predominância da língua inglesa. Afinal, serão eles, os anglo-saxónicos, que nos obrigam a considerarmos que somos “modernos” por preferirmos termos ingleses aos portugueses? Não, é mesmo só defeito nosso. Atribuir culpas aos outros é apenas mais uma marca do nosso pendor para o irrealismo e a choraminguice.

Uma das questões que me opõe à mania dos meus colegas das instituições da União Europeia aportuguesarem os nomes geográficos é precisamente o anti-inglesismo. Eles dizem permanentemente que se deve aportuguesar tudo para não “irmos atrás” do termo inglês, mas o meu ponto de vista é outro: devemos evitar “ir atrás” do inglês, mas isso não nos deve obcecar ao ponto de, por exemplo, optarmos por escrever “Doa”, palavra ridícula, só porque Doha é a palavra consagarada internacionalmente através do inglês. Idem para Qatar, pois “catar” é verbo português com significado próprio. E, obviamente, os termos geográficos de grafia estrangeira que devemos aceitar na língua portuguesa são os ingleses, e não outros, precisamente porque devemos ser realistas e aceitar a lingua franca, sem complexos, com a descontração própria de um país aberto ao mundo, com uma língua que compete no tal campeonato das “outras” línguas internacionais.

O embaixador de Brasil em Portugal publicou no Diário de Notícias do passado dia 9 um artigo de opinião sobre o assunto:

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3465727

Para quem possa julgar que a oposição ao acordo ortográfico em alguns meios de Portugal poderia beneficiar do compasso de espera decidido no Brasil, o embaixador põe os pontos nos is:

“o Brasil não cogita promover retrocessos”

 

ENXUTO reorganizado

9 de Outubro, 2013 por Miguel RM

A partir de hoje os leitores poderão recuperar mais facilmente artigos antigos recorrendo às categorias que figuram no lado direito desta página.

Alguma explicações: os 11 artigos na categoria “Geral” referem-se concretamente a questões organizativas deste blogue. Não é de surpreender que “Língua portuguesa” seja, de longe, a categoria com mais entradas, seguindo-se “Política em Portugal” e “Acordo Ortográfico”. As “Relações Portugal-Brasil” foram individualizadas, porque já há 14 entradas e provavelmente haverá mais brevemente. As relações com outros países lusófonos estão em “Política Internacional” e “Língua portuguesa”.

Também dei uma limpeza nas ligações a outros blogues, eliminando alguns e actualizando outros.

Dado que neste blogue escrevo sobretudo acerca de questões relacionadas com a língua portuguesa, sou naturalmente levado a referir-me frequentemente ao Brasil. Os meus leitores terão notado que defendo posições políticas moderadas e cautas quanto às nossas relações com o Brasil, como foi bem visível nas minhas argumentações sobre o famigerado acordo ortográfico (AO). Talvez seja agora uma boa altura para explicitar melhor os meus pontos de vista acerca dessa questão maior da nossa política externa que é a das relações com o Brasil.

Os chamados países de língua oficial portuguesa têm com Portugal o comum interesse de neles se falar uma grande língua internacional. No entanto, também com Portugal, têm outra coisa muito importante em comum: um passado. Um passado que, para nós, portugueses, implica sempre uma relação difícil, ciclotímica, ora embriagada com grandezas mitificadas, ora deprimida por complexos de inferioridade. Felizmente, nos últimos anos têm-se produzido nas academias muitas narrativas históricas bem mais acertadas, menos exageradas, do que aquelas que estiveram na base do ensino da História Pátria inventado por românticos e republicanos do século XIX e retomada com redobrado entusiasmo pelo Estado Novo. Sobretudo, aprendemos a cooperar com os “outros”, sejam africanos, brasileiros ou asiáticos, para que a nossa História deixasse de ser uma “Saga dos Desobrimentos” e tenha passado a ser uma História de encontros entre mundos diferentes. É com base nesse diálogo frutuoso sobre o nosso passado comum que poderemos alicerçar boas relações no presente e no futuro.

O caso do Brasil é mesmo único na História Universal: em 1808, pela primeira vez, um império colonial, para escapar às investidas militares do proselitismo revolucionário francês, mudou a sua sede para a colónia e durante 15 anos a monarquia portuguesa teve a sua sede no Rio de Janeiro. As comemorações de 2008 (200 anos da transferência da corte para o Brasil) permitiram relembrar e reanalisar esse passo decisivo provocado pelas invasões francesas e pela rivalidade entre França e Inglaterra e estimularam, no Brasil e em Portugal, um olhar mais fresco, menos embriagado por nacionalismos serôdios, para o nosso passado comum. Outro facto inédito foi a declaração da independência por iniciativa do príncipe herdeiro da coroa portuguesa, que passou a ser Imperador do Brasil, vários anos depois de quase toda a América Latina espanhola ter dado origem a novas nações, com a concomitante abolição da monarquia. No Brasil, pelo contrário, a monarquia (comandada por uma família real europeia, lembre-se) durou quase até ao fim do século XIX.

A República instaurada no Brasil em 1889 também acentuou essa tendência de romantização da História Pátria tão característica do século XIX. No caso brasileiro, obviamente, com a adição de ideais anti-coloniais, que também não são imunes a mitificações e exageros. Os nacionalismos português e brasileiro no século XX alimentaram-se mutuamente, com inúmeras interacções entre um lado e outro do Atlântico e o caso da língua comum é bem ilustrativo: a reforma ortográfica de 1911, que basicamente visou simplificar a nossa língua libertando-a duma “ortographia etymológica” de influência francesa e pendor anti-espanhol, foi feita à revelia do Brasil, sem qualquer consulta como se aquele país não tivesse quase um século de independência. Entretanto, não podemos esquecer que a abolição da escravatura em finais do século XIX no Brasil e o afluxo de emigrantes de muitos outros países para assegurar a produção de café e a industrialização nascente do Brasil transformaram o país numa cultura bem mais complexa do que aquela que caracterizava o Brasil colónia ou o Brasil império. A reacção anti-língua portuguesa de Portugal que caracterizou a acção dos modernistas brasileiros dos anos 20-30 do século XX explica-se não apenas pela relativa arrogância pós-colonial da ex-potência colonizadora, mas também muito pelo carácter plurinacional das influências sofridas pela cultura brasileira.

E assim, depois de muitas peripécias políticas do lado de cá e do lado de lá, muitos fluxos migratórios para lá e para cá, chegámos aos dias de hoje, com o nosso país em crise e o país deles a crescer por todos os lados. Se a retórica do “país irmão” já era ridícula quando ainda achávamos que pertenciamos a uma Europa pujante, agora então tal retórica tornou-se verdadeiramente patética. A mim parece-me que uma reflexão pós-colonial serena nos obriga a olhar para o Brasil como um país comum, certamente nossso aliado, mas não mais do que isso.

A minha ambição maior nessa matéria é que para nós o Brasil seja um país estrangeiro como outro qualquer. Pela minha parte, conhecendo razoavelmente algumas cidades brasileiras, sempre me comportei no Brasil como um estrangeiro, nunca “dei bola”, como eles dizem, àquela conversa do “país irmão”, sempre me comportei como me comporto em qualquer país que não seja o meu. A verdade é que isso me ajuda muito a ser maravilhosamente bem tratado. Houve uma altura da minha vida em que pensei (com alguma arrogância intelectual, confesso) que a minha forma de estar teria a ver com o facto de ter sido militantemente anti-colonialista, mas rapidamente me apercebi que tal não era o caso, pois conheço alguns anti-colonialistas sem qualquer sensibilidade pós-colonial e, pelo contrário, conheço alguns defensores de ideais colonialistas que se comportam com admirável sensibilidade pós-colonial nas suas relações com ex-colónias portuguesas. No fundo, não se trata duma questão de ontem, mas sim de hoje e do futuro: só teremos êxito nas nossas relações com os outros países de língua oficial portuguesa se os soubermos encarar como países comuns, tão comuns como o nosso.