Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Sou há muitos anos um observador atento da legendagem de filmes e séries televisivas e tenho grande consideração pelos bons profissionais dessa área, conhecendo de perto o trabalho de alguns deles. A aceleração constante em que vive o sector do entretenimento leva a que tenham de trabalhar com elevada velocidade e a forte concorrência que reina no sector exerce uma (natural) pressão que resulta na queda do preço do trabalho.  

Ando há muito tempo a observar a perniciosa tendência, que se tem vindo a generalizar, de “nacionalizar” tudo o que é estrangeiro. Passo a explicar com alguns exemplos: nas séries de ficção americanas passadas no mundo judicial os advogados que no original são “Mister” Fulano ou “Misses” Sicrano passam na versão portuguesa a Dr. e Dra., como se o nosso saloio hábito de designar por Dr. qualquer licenciado fosse aceitável num contexto anglo-saxónico; com os dólares passa-se algo ainda pior. Talvez porque as instituições europeias fizeram grandes esforços de propaganda para facilitar a aceitação da passagem das moedas nacionais para o euro, tem vindo a aparecer nos últimos anos uma tendência idiota de substituir nas legendas os dólares por euros. Note-se que esta prática se foi generalizando quando as duas moedas tinham valores aproximados, o que evitava os cálculos aritméticos. Juro que vi filmes de cowboys com dólares transformados em euros (um anacronismo próprio de pessoas ignorantes) e vi também, quando o dolar se começou a desvalorizar em relação ao euro, uma extraordinária tradução de “2 000 dólares” por “cerca de 2 000 euros”.

Por que motivo se praticarão estes atentados à inteligência dos espectadores? Eu tenho uma teoria: os meios de comunicação e a indústria do entretenimento estão cheios de pessoas convencidas de que “têm de educar o povo”, que têm do dito povo uma ideia estereotipada e paternalista. Partem do terrível princípio de que o público é uma massa de pessoas pouco cultas e sem inteligência. É isso que as leva a manipular a língua de modo a facilitar (julgam mesmo que estão a facilitar) a compreensão “por todos”. É o que se pode chamar o nivelamento por baixo, uma doença característica da actualidade, como se pode constatar observando as famosas “reformas” da educação.

Neste blogue, pelo contrário, parte-se sempre do princípio que se está a escrever para um público inteligente. Embora eu não despreze a necessidade de ser conciso e claro (”enxuto”), nunca fujo a argumentações mais complicadas e não me coíbo de citar textos que possam ser menos imediatamente perceptíveis (ver “Aportuguesamento e Estrangeirismos” publicado aqui no passado dia 6 de Maio).

Considero a mania de “aportuguesar” tudo ume erro grave de entendimento da nossa forma de ser. Não é por acaso que em Portugal se prefere a legendagem à dobragem, ao contrário do que acontece em alguns países europeus maiores do que o nosso (Alemanha, Espanha, França e Itália). A opção pela legendagem, que é característica de países de pequena e média dimensão com grande abertura cultural ao estrangeiro (países nórdicos, Holanda e Portugal, por exemplo), deveria levar os profissionais da área a preocuparem-se mais com a “cor local” das obras de ficção em vez de tentarem a sua adaptação forçada à nossa realidade.

Não ignoro que há na comunicação social portugesa um tendência forte para confundir proximidade com paroquialismo, como se pode verificar sempre que há uma catástrofe importante. Todos se lembrarão do tsunami de há uns anos no oceano Índico e do recente desastre aéreo do voo AF 477 do Rio de Janeiro para Paris. Em ambos os casos, a ênfase colocada na possibilidade de haver “vítimas portuguesas” foi confrangedora. Também não tenho ilusões sobre o peso que o nacionalismo tem na opinião pública portuguesa (a esse propósito leia-se o excelente ensaio de Francisco Seixas da Costa “A Europa não nos divide“, publicado no passado dia 10 de Junho no jornal “i”). Mas fico chocado com manifestações doentias de localismo, como as que aparecem em certas traduções.

É óbvio que estas considerações não se dirigem aos “bons profissionais dessa área” a que aludi no início deste texto, pois esses concordam comigo de certeza absoluta.

Neste blogue só muito raramente se fala de questões não relacionadas com a língua portuguesa. Mas, de vez em quando, dá-me uma vontade irrepremível de abrir a excepção. É o que farei hoje, falando sobre a actual polémica acerca das sondagens causada pelo clamoroso falhanço das empresas de sondagens nestas eleições europeias. Basicamente, há o facto de nenhuma ter acertado na vitória do PSD (e foi por 5 pontos percentuais!!!) e o facto já verificado noutras ocasiões de o CDS ser subestimado.

Vamos por partes. Sempre houve no universo das sondagens, como em todas as actividades humanas, gente mais e menos séria. Contudo, se as sondagens falham bastante, nem sempre o fazem por razões moralmente criticáveis. Em primeiro lugar, há que ter em conta que as pessoas inquiridas em sondagens mentem. Posso dar um testemunho pessoal indesmentível: eu faço questão de mentir SEMPRE em sondagens. Faço-o, se quiserem, por motivos electivos, já que gosto muito que a vida seja imprevisível, incerta, complicada. A mim agrada-me sobremaneira que as sondagens falhem, pois isso apimenta as noites eleitorais na televisão, que são espectáculos sempre interessantes.

Vamos agora ao caso em presença, as eleições europeias de 2009. As duas falhas constatadas podem ser analisadas como uma só: há uma sistemática subestimação dos partidos mais à direita. Penso que tal acontece porque a esquerda é maioritária no país (mesmo nestas eleições que correram mal ao partido de esquerda no governo a proporção é de 60-40). Sem querer pôr em causa a seriedade dos institutos de sondagem, é normal num país culturalmente dominado pelas ideias mais à esquerda que haja retraimento nos eleitores de direita e desenvoltura nos de esquerda. Não será portanto de excluir que haja algum retraimento na manifestação das preferências pelo PSD e pelo CDS. Não me esqueço que quando apareceu o fenómeno Cavaco na política portuguesa parecia impossível ele ter ganho com maioria absoluta. Eu próprio tive a experiência de ter estado a ver a noite eleitoral televisiva em casa duma amiga na margem sul do Tejo e de ter sido a única pessoa (em 40) que afirmou ter votado em Cavaco, o que me deu, admito-o, um certo prazer. Anos mais tarde vim a descobrir que pelo menos uma mão cheia delas tinha feito o mesmo, mas escondeu-o na altura.

É preciso ter em conta que a maioria dos eleitores não são pessoas “amarradas” ao voto num partido. Talvez haja umas dezenas de milhares de portugueses que votam sempre no mesmo partido, mas a grande maioria que vota tem dúvidas. Mesmo no PCP, onde a percentagem dos votos certos é maior do que nos outros partidos, tenho a certeza que a grande maioria dos seus eleitores poderá  votar noutros partidos. E para os eleitores ”normais”, isto é, os tais que interessam verdadeiramente, pois votam sempre com dúvidas, e não com certezas, o facto de as sondagens falharem não irrita nada, antes pelo contrário. A incerteza realça a importância do seu voto.

Parece que o CDS quer agora propor que as sondagens sejam proibidas nas últimas duas semanas antes das eleições. Espero que alguém no Largo do Caldas tenha o bom senso de explicar que não é proibindo seja o que for que se consegue algo de positivo. O CDS está convencido que a sistemática subestimação da sua percentagem o prejudica, mas eu penso que está enganado: quem se deixa influenciar pelas sondagens é o eleitor “normal”, o tal que hesita. Ora, o facto de o CDS ser subestimado pode levar muito eleitor que tenha esta ou aquela reserva em relação ao CDS a pôr de lado tais reservas por não querer que o partido desapareça. Do mesmo modo, penso que as centenas de milhares de eleitores que hesitam em todas as eleições entre PS e PSD não deverão ser condicionados pelo facto de as sondagens favorecerem tendencialmente mais o PS. Pelo contrário, penso que isso pode até ter o efeito perverso contrário. Penso sinceramente que a sistemática subestimação dos partidos da direita é susceptível de os beneficiar. Mais uma vez uma nota pessoal: como eleitor habitual de um ou outro dos dois grandes partidos portugueses, confesso que sou sensível aos sinais de arrogância política e se sinto que os media se inclinam demais para um dos lados tenho tendência para olhar com mais atenção para o lado oposto. Poderão dizer-me que não sou um eleitor típico, mas tudo me leva a crer que o sou. O eleitor “médio” não é estúpido e, salvo em épocas de grave crise, tem tendência para “não ir em conversas”.

Pela parte que me toca, em matéria de sondagens, sou um leitor atento do blogue Margens de erro e da página da Marktest, que utilizo como fontes de informação que considero credíveis. Mas nunca renunciarei ao prazer que me dá saber que todas as eleições são incertas.

 

PS: os resultados das eleições europeias foram interessantes para o futuro do país. A hipótese de haver uma alternativa de direita passou a existir, o que é benéfico para a saúde dos sistema. A elevadíssima votação de protesto à esquerda do PS é um sinal inequívoco de quanto pesam as injustiças sociais e de como continuam a ter peso os preconceitos marxistas.

Segundo o jornal Público, a Assembleia da República irá debater na próxima quarta-feira o relatório da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura relativa a uma petição pública contra o acordo ortográfico (AO).

A petição em causa, que foi assinada por mais de 100 000 pessoas e tem sido promovida amplamente pelo eurodeputado Vasco Graça Moura, tem sido a principal arma de combate dos inimigos do AO. O respectivo texto é suficientemente genérico para acolher todo o tipo de pessoas incomodadas com o AO, desde os nacionalistas mais xenófobos até aos genuinos defensores da língua portuguesa.

Este blogue tem criticado constantemente os peticionistas por não se demarcarem de manifestações de xenofobia e de desprezo pela soberania e autonomia dos Estados signatários do AO. Mas tem também feito constantes apelos para que todas as pessoas interessadas na promoção internacional da língua portuguesa não se deixem enredar em querelas menores e unam esforços para pôr em prática essa prioridade política.

A ver vamos se o debate na Assembleia da República servirá para esse fim.

Na sequência da sugestão do leitor Cláudio Mangini (ver comentários da entrada anterior), junto o Museu da Língua Portuguesa às minhas ligações.

Foi noticiado ontem no Público que o Conselho de Ministros decidiu “promover a requalificação do edifício do antigo Museu de Arte Popular, situado na Avenida de Brasília, reconvertendo aquele que foi originalmente o pavilhão da Vida Popular da Exposição do Mundo Português num inovador e contemporâneo espaço multimédia e centro priveligiado de promoção da língua portuguesa.”

Para além da polémica (legítima) sobre o desaparecimento do Museu de Arte Popular, interessa-me aqui tratar as questões de política da língua que poderão estar em causa com esta decisão. Recordo que a primeira decisão sobre este assunto tinha sido tomada pela anterior Ministra da Cultura, que referiu na altura a sua vontade de envolver o Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo (Brasil) na concepção do museu de Lisboa.

Não conheço obviamente os pormenores da decisão agora tomada, mas devo alertar para alguns perigos:

1 – O Museu de S. Paulo é excelente para o Brasil, está muito bem concebido e tem permanentemente enchentes de estudantes a visitá-lo. Se, de facto, se pretender a colaboração desse museu brasileiro, haverá que assegurar uma reformulação total do conceito, adaptando-o à realidade do nosso país.  Os avisos que fiz no passado dia 2 de Maio sobre a questão duma nova Academia aplicam-se também neste caso.

2 – Para que não sejam avivadas polémicas ridículas sobre as nossas relações com o Brasil, seria útil que o governo esclarecesse como será a colaboração com o museu brasileiro. É claro que o governo já decidiu que a instalação do museu será da responsabilidade da sociedade Frente Tejo, S.A., mas isso não pode querer dizer que as questões relacionadas com a política da língua fiquem envoltas nas brumas do rio.

 

 

O amável leitor José Manuel Maia Alves escreveu há dias um comentário ao meu artigo “Robot ou robô”, em que diz o seguinte:

«Quem é que hoje preferiria usar bonnet ou bidet em vez de boné e bidé? Quando palavras estrangeiras entram no uso corrente é perfeitamente aceitável aportuguesá-las se tal for possível. Dentro desta linha de raciocínio, concordo com o aportuguesamento de termos como robot, pivot e dossier. Há quem objecte contra estes e outros aportuguesamentos, dizendo que é necessário indicar a origem das palavras. Então deveriam usar football, como era corrente por volta de 1930, ou beef.»

Não contesto o que aqui diz, mas gostaria de alertar para a necessidade de prudência. Cada vez que se tenta impor com excesso de voluntarismo o aportuguesamento de vocábulos estrangeiros corre-se o risco de provocar reacções adversas, dificultando assim a aceitação de futuros aportuguesamentos. No caso dos topónimos, por exemplo, é longa a lista de tentativas de aportuguesamento que não vingaram por serem manifestamente infelizes: Listenstaine (Liechtenstein), Francoforte (Frankfurt), Dusseldórfia (Düsseldorf) Oxónia (Oxford), Cambrígia (Cambridge), Vashintónia (Washington). Este último caso é particularmente estúpido, visto tratar-se do nome duma pessoa (George Washington) que passou a nome de cidade. O mesmo se passa com Sydney, cidade australiana. Estranhamente, em Portugal há quem escreva “Sidney” (por que motivo substituem um “y” e não o outro?) quando se referem à metrópole da Nova Gales do Sul (Austrália) e Sydney quando se referem à pequena cidade da Nova Escócia (Canadá). Ora, ambas devem o seu nome ao mesmo Lorde Sydney.

Se os leitores quiserem aprofundar o assunto, aconselho que escrevam “aportuguesar” no motor de busca do Ciberdúvidas. Encontrarão uma série de entradas interessantes, mas sobretudo destaco um artigo de Ivo Castro que explica muito melhor do que eu aquilo que eu penso.

O Ministro da Cultura, na inauguração da Feira do Livro de Lisboa, fez mais uma vez declarações sensatas sobre a questão do acordo ortográfico (AO), que foram notícia no Público.

A ideia de que a Academia das Ciências de Lisboa será incapaz de editar um Vocabulário da Língua Portuguesa já foi muitas vezes expressa neste blogue. O lógico seria criar uma entidade capaz de pôr em andamento uma tal empreitada. No entanto, com o terreno minado que temos à nossa frente, duvido que seja fácil.

Como conheço bem a questão e não estou ligado a nenhum interesse do sector (editores, universidades, Instituto Camões, diversos ministérios, etc.), sinto-me livre para dar alguns conselhos que poderão ser úteis para quem tenha força e engenho para criar uma tal entidade:

- Criar um corpo de consultores que seja variado, crente nas virtudes do trabalho de equipa e, sobretudo, não enfeudado aos interesses instalados no sector. Para isso, sugiro que se olhe também para as universidades fora do eixo Porto-Coimbra-Lisboa (em Aveiro há excelentes especialistas de dicionários e no Minho há uma experiência interessante de modernização do ensino das línguas). É bom não esquecer também que o Porto tem a maior universidade do país, um dado pouco conhecido num país em que se crê que universidades “a sério” são as de Lisboa e de Coimbra. Também não será inútil olhar para as universidades que se têm destacado no interesse pela língua portuguesa enquanto língua internacional de comunicação, nomeadamente a Católica e algumas privadas em Lisboa e no Porto. 

- Evitar os “suspeitos habituais”. Há uma geração de pessoas (os da minha idade e mais velhos) viciada em guerrinhas inúteis sobre a questão do AO. São algumas das pessoas que negociaram o acordo, como Malaca Casteleiro, e algumas que mais se destacaram a tentar impedir a sua aplicação, como Vasco Graça Moura e António Emiliano. A inclusão de pessoas destas na tentativa de criar algo susceptível de fazer avançar o AO só serviria para acirrar os ânimos. O ideal seria encontrar pessoas experientes, mas mais novas (há muitas entre os 35 e os 55 anos), que tivessem disponibilidade para se lançarem num trabalho difícil e moroso com espírito de grupo e de serviço público. Para além das universidades há muitas pessoas que têm mostrado um interesse genuíno pela questão, nomeadamente na Internet (basta ver o Ciberdúvidas), na rádio, na TV, nos jornais. Também não devem ser esquecidos os linguistas portugueses que trabalham em organizações internacionais, nomeadamente nas instituições europeias, que há mais de vinte anos produzem terminologia portuguesa ininterruptamente. 

Voltando ao artigo do Público, aconselho os leitores mais uma vez a lerem os comentários que, salvo raras excepções, são uma bela ilustração do campo de minas que teremos de atravessar.

Declaração de interesses: o autor deste blogue é lisboeta, trabalhou 25 anos como linguista na Comissão Europeia e tem mais de 55 anos.

 

Leixões empatam?

29 de Abril, 2009 por Miguel RM

O excelente blogue Duas ou Três Coisas apanhou esta pérola maravilhosa na TSF. Já há uns tempos alertei para um problema idêntico de incapacidade de conceber concordâncias que não são formalmente óbvias, quando me insurgi contra a mania actualmente seguida nos media portugueses de intercalar o adjectivo nacional no meio das designações de ministérios: ministério português da Cultura, em vez de Ministério da Cultura português; ministra portuguesa do Desporto, em vez de Ministra do Desporto portuguesa. Este problema das concordâncias pouco óbvias só se coloca porque temos seguido métodos de ensino da língua muito baseados em formalismos. O estruturalismo de pacotilha que dominou as Faculdades de Letras em Portugal teve consequências terríveis, pois quebrou o nexo lógico que havia entre a gramática (tradicional, bem sei) e a expressão de ideias através da língua escrita. Há exemplos ainda piores do que estou a dizer: por vezes, oiço na rádio e na televisão fazerem a concordância de trinta e um com um substantivo no singular. É caso para dizer, mas que grande trinta-e-um!

Hoje, ao passear pelo Chiado, em Lisboa, deparei com cartazes duma campanha louvável para trazer mais animação a este bairro histórico. Embora a campanha se destine obviamente a quem trabalha naquela zona, isto é, um público que fala e/ou compreende português, a campanha tem um nome inglês, como poderão comprovar aqui: “Chiado after work“.

O Movimento Fórum Cidadania Lisboa insurge-se contra o carácter intrusivo dos painéis que anunciam a campanha. A crítica parece-me ser exagerada, mas o que não será exagerado é pensarmos nesta omnipresença de termos ingleses para dar relevo a qualquer iniciativa. Faz-me lembrar alguém que dizia não haver pior provincianismo em Portugal do que aquele que se pratica em Lisboa.

Este blogue tem tido sempre posições moderadas quanto ao fascínio que a língua inglesa exerce. Tem até sublinhado a enorme utilidade desse precioso instrumento de comunicação internacional que é a língua inglesa, mesmo na sua versão básica de 100 palavras.

Mas não posso ficar calado perante manifestações saloias de subjugação causadas pela ânsia de “parecer moderno”. Já há uns tempos uma crítica de arte da nossa praça tinha falado no carácter provinciano de certos artistas jovens (e menos jovens também) que julgam estar a internacionalizar-se só por darem títulos ingleses às suas obras. Pois a campanha “Chiado after work” sofre do mesmo mal. O pior é que a iniciativa é apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa: que os particulares queiram ser saloios é um problema deles, mas a Câmara representa-nos a todos.

Como não sou da escola do proibir, que parece estar a ganhar adeptos todos os dias no nosso país, aqui fica uma modesta sugestão para os dirigentes da Câmara: quando tiverem de reagir a pedidos de apoio, tenham algum cuidado com as questões da língua. Tentem impor sempre o português. E, já agora, tentem zelar pela qualidade do português. Não vos parece que se trata duma questão de serviço público?

Robot ou robô?

23 de Abril, 2009 por Miguel RM

Um amigo fez-me a seguinte pergunta:

«Apesar de se usar “robô”, gosto mais de “robot”, até porque daí “sai” mais facilmente “robótica”. Até que ponto isto é mais ou menos orto/heterodoxo?»

Eis o que respondi:

«Há uma tendência forte nos últimos anos para aportuguesar palavras de origem francesa e o aportuguesamento de robot (que, como sabes, nem sequer é uma palavra francesa) parece decorrer de contaminação dessa tendência : dossiê, ateliê, robô. Penso que a facilidade com que se aceita o aportuguesamento de palavras francesas (ou que “parecem” francesas) decorre da perda de prestígio internacional dessa língua, por comparação com o inglês e até com o espanhol. Não gosto nada desta tendência, mas não tenho outro remédio que não seja segui-la. Se não a quiseres seguir, o que é uma escolha legítima, aconselho-te e grafar “robot” em itálico, pois assim indicas claramente ter a noção de ser um termo estrangeiro.»