Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Cada vez que surgem notícias de áreas geográficas pouco usuais, os diversos meios noticiosos portugueses utilizam na nossa língua várias grafias, consoante o gosto de quem redige (e/ou revê?) a notícia. Este lamentável estado de coisas é devido à total incapacidade para definir regras sensatas e segui-las, que tanto prejudica a nossa vida pública em muitas áreas. Já nem falo na nossa débil, quase inexistente, política da língua. Falo, por exemplo, da presença do Estado em organismos como a Lusa, a RTP e a RDP. Se existem essas entidades públicas sob o pretexto da “defesa do interesse público”, há que perguntar se não deveria estar contemplada nos respectivos contratos a obrigação de zelar pela correcta grafia dos diversos nomes que vão surgindo na actualidade noticiosa. Na BBC, por exemplo, os locutores de televisão têm à sua disposição um serviço de linguistas especializados que os esclarecem quanto à pronúncia correcta dos nomes estrangeiros. Em Portugal, como se sabe, quando há dúvidas, pronuncia-se à inglesa e pronto!

Pois agora é a Abcásia que está na berlinda:

- Há quem escreva Abkhásia, usando o conjunto de letras “kh” que em inglês serve para imitar uma espécie de “R” muito usual nos nomes árabes e do Médio Oriente em geral (”Khomeini”, que se lê “Rrromeini”). Mantém-se este “kh”, que ninguém sabe como ler em português, mas introduz-se o acento agudo no “a”, para que se leia correctamente em português, pois em o acento a tónica seria na penúltima silaba ”si”.

- Há também quem escreva “Abecásia”, certamente poer considerar que o “e” mudo é essencial em português para desfazer conjuntos de consoantes não usuais em português, no caso o “bc” de Abcásia. Esta ideia absurda já levou a que se acrescentasse um inútil “e” mudo a Amsterdão, nome que se escreve assim (”Amster” que quer dizer “do (rio) Amstel”) em todas as línguas latinas (incluindo o português do Brasil!!).

Um apelo: por favor, escrevam “Abcásia” (ou “Abkásia”, se preferirem), pois o termo está consagrado há muito nos melhores jornais de língua portuguesa.

A Galiza e a nossa língua

25 de Agosto, 2008 por Miguel RM

Hoje vou falar da questão da língua na Galiza, assunto que deveria interessar todos os portugueses relacionados coma lusofonia. Os meios artísticos e intelectuais do norte de Portugal, devido à proximidade, conhecem bem esta questão política interna da maior importância na Galiza, mas no centro e no sul do nosso país só alguns mais curiosos sabem algo sobre o assunto.

Vou dar a minha versão da questão e peço que comentem e critiquem à vontade, pois não conheço profundamente o tema e posso ser influenciado por alguma informação menos rigorosa: o renascimento da língua galega, que deve muito a todos os que lutaram pelo seu reconhecimento durante a ditadura de Franco, é uma das grandes vitórias do regime democrático das autonomias em Espanha. Contudo, no interior da sociedade galega, houve e há grandes divergências quanto à norma da língua galega. A opinião que se impôs politicamente como maioritária optou por uma normalização duma língua galega mais próxima do espanhol (ou castelhano, se quiserem), em detrimento dos que defendiam uma maior proximidade com a língua portuguesa. Os defensores desta segunda opção, embora minoritários em termos políticos na Galiza, são bastante representativos, estão espalhados por todo o espectro político (com predominância de dois grupos aparentemente muito diferentes: por um lado, intelectuais conservadores ligados às tradições rurais, por outro, simpatizantes do Bloco Nacionalista Galego, o partido mais à esquerda do Parlamento da Galiza). Hoje vou acrescentar nas ligações (links) o Movimento Defesa da Língua, que contém muita informação adicional sobre o Reintegracionismo (movimento que defende uma Galiza integrada na lusofonia).

Dado tratar-se duma questão política delicada, vou fazer uma breve declaração de interesses, como é meu hábito sempre que o julgo necessário: tenho, como muitos portugueses, um carinho especial pela Galiza; conheço o movimento reintegracionista, com o qual colaborei muitas vezes nos 20 anos que vivi em Bruxelas, sendo assíduo frequentador do Centro Galego dessa cidade. Dito isto, sou um defensor moderado da autonomia das nações de Espanha e oponho-me há muitos anos declaradamente a qualquer extremismo separatista em Espanha, tendo participado desde 1990 em numerosas manifestações de repúdio do terrorismo da ETA. Enquanto português amigo de Espanha, tenho grande admiração pelos difíceis equilíbrios políticos que foram alcançados nestes 30 anos de democracia e considero ser também do nosso interesse, enquanto vizinhos, podermos contar com uma Espanha democrática e estável. Por isso, a minha simpatia pelo Reintegracionismo galego não pode ser entendida como apoio a qualquer opção politicamente extremista de cariz nacionalista, que repudio inequivocamente.

Novos desafios para o futuro

25 de Agosto, 2008 por Miguel RM

Regresso de férias com vontade de alargar a intervenção deste blogue na vida pública portuguesa. Em primeiro lugar, depois de tudo o que se escreveu sobre o acordo ortográfico e a VII Cimeira da CPLP, irei tentar reforçar neste blogue os conteúdos relacionados com o português de todo o mundo. Para que tal seja possível, peço a colaboração dos leitores, pois reconheço  ter uma experiência muito virada para a língua portuguesa de Portugal. O meu conhecimento da lusofonia é o duma pessoa interessada no assunto, mas com poucos contactos. Hoje vou escrever aqui um artigo sobre a lusofonia na Galiza, que resulta precisamente dum simpático comentário de Fabiano, um leitor galego.

Acabou a 7ª Cimeira da CPLP, que se realizou em Lisboa, Portugal assumiu a presidência por dois anos e a promoção da língua portuguesa foi considerada a grande prioridade da organização. Assim se encerra esta “época” de grande debate sobre a nossa língua, que encheu páginas de jornais e horas de transmissão radiofónica e televisiva. A oposição à ratificação do acordo ortográfico teve um grande mérito que foi o de colocar a questão da língua na agenda mediática, obrigando também aqueles que o defendem a exporem-se com mais determinação.

As feridas abertas por esta questão não estão saradas, mas talvez venham a perder gravidade. Pior do que essas feridas é o que subjaz, em muitos casos, à hostilidade ao acordo: o ressentimento pós-colonial, a teoria da conspiração de que nos estamos a submeter ao Brasil (alguém conseguiu demonstrar tal coisa?), as guerrinhas e invejas omnipresentes na vida universitária portuguesa, a incapacidade de olhar sem complexos para o papel de Portugal num mundo globalizado.

Este blogue esteve empenhado durante estes primeiros meses de existência em criticar os fundamentos isolacionistas (e, por vezes, xenófobos) de alguns signatários da petição contra o acordo ortográfico. Tentou fazê-lo sem hostilizar os muitos signatários dessa mesma petição que são pessoas empenhadas em defender a língua portuguesa e que não subscrevem certamente posições isolacionistas, nem muito menos xenófobas. Mas, não se livram da crítica por se terem aproveitado de sentimentos negativos presentes em sectores da opinião pública portuguesa só para poderem aumentar o número de peticionistas. Como diz o ditado, “Quem se deita com cães acorda com pulgas”.

O autor deste blogue parte para férias. Entretanto deixa no ar mais algumas questões:

- Tal como foi sublinhado por muitos comentaristas, o futuro do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IICL) continua a parecer pouco promissor. Haverá certamente negociações em curso, que necessitarão de algum recato, mas em devido tempo seria bom que se soubesse o que se está a passar, por que motivo não há capacidade para dotar o IICL com mais meios, quais os países que estão a travar, etc.

- Ainda neste ano haverá eleições legislativas em 3 países da CPLP (Angola, Guiné-Bissau e Moçambique) que soferam durante muitos anos de regimes de partido único. Estamos a “torcer” para que corram bem, mas gostaríamos também de ter mais informação, mais análise independente e mais empenhamento da imprensa portuguesa para cobrir esses importantes actos políticos. Se a evolução política nestes países for positiva, todo o mundo de língua portuguesa lucrará com isso.

- Em Portugal também haverá várias eleições em 2009. Espera-se que a luta política seja útil para o país.

Como disse, vou de férias. Regressarei no dia 18 de Agosto…

Para além da língua…

23 de Julho, 2008 por Miguel RM

Este blogue nasceu há pouco mais de dois meses para debater questões relacionadas com a língua portuguesa. Tentei tratar questões candentes, como o acordo ortográfico, sempre com um olho político. Agora passarei a tratar todo o tipo de questões, avançando assim para tornar o ENXUTO um blogue generalista. Irei manter um interesse especial pela língua portuguesa, até por a considerar uma questão política do maior interesse, mas não me coibirei de meter a colherada noutras áreas que me interessam: artes, cidadania, desporto, etc.

Hoje, para estabelecer uma ponte entre questões da língua e da política, vou falar sobre a Cimeira da CPLP que se realiza depois de amanhã, especialmente sobre as ausências dos presidentes de Angola e de Moçambique. O Diário de Notícias, tanto ontem como hoje, trata o assunto, embora pareça mais interessado em saber o que Sócrates, Cavaco e Luís Amado dizem sobre o assunto do que em esclarecer os seus leitores sobre as legítimas razões de política interna angolana e moçambicana que explicam em ambos os casos as ausências dos PR. Em ambos os países aproximam-se as eleições legislativas e em ambos os casos os partidos dominantes MPLA e Frelimo, que foram durante anos e anos partido únicos, têm interesse em trabalhar para que as eleições sejam limpas e reconhecidas internacionalmente. As ambiguidades de altos responsáveis do MPLA e e da Frelimo quando se pronunciam sobre o que se tem passado no Zimbabwe demonstram que a aposta na plena democratização de Angola e de Moçambique ainda é algo de frágil. O governo português tem-se mostrado solidário com os governos angolano e moçambicano, o que é correcto para os nossos interesses, mas nem sempre tem mantido a necessária distância em relação a aspectos contestáveis da política desses países (o Primeiro-Ministro exagerou um pouco nas loas que teceu ao governo angolano na sua recente visita a Luanda; o nosso apoio deve ser comedido e nunca deixar de evocar o caminho que ainda falta percorrer). Em Portugal, infelizmente, há um défice de frieza nas relações com as ex-colónias. Há calor a mais, emoção a mais. Ainda recentemente, quando o cantor Bono fez declarações muito críticas acerca dos dirigentes angolanos num evento organizado pleo Banco BES, as repercussões foram excessivas, não só em Angola como seria de esperar, mas também em Portugal onde nada o justificava. O próprio Presidente do BES mostrou-se demasiado crispado ao pôr em causa o cantor irlandês. Teria sido muito mai eficaz se tivesse minimizasse o incidente (poderia até aproveitar o incidente para sublinhar como o banco que dirige não controla os oradores que convida), embora declarando obviamente que o BES não tem a mesma opinião que Bono.

Angola é hoje um país com parcerias estratégicas importantes com Portugal e tudo se passa nos dois sentidos: não são só os bancos portugueses que têm posições de destaque na banca angolana; o maior accionista do BCP é a Sonangol. Mas, a situação em Angola é apenas de “estabilização em curso”, não é propriamente de estabilidade e segurança consagradas (o volume dos seguros de crédito da COSEC não engana…) Os interesses de Portugal impõem que as declarações e actuações públicas dos nossos responsáveis sejam comedidas e cuidadosas. Mas não precisamos de exagerar… Basta-nos ser claros, frios e eficazes.

E, já agora, a imprensa portuguesa poderia interessar-se um pouco mais pelas próximas eleições legislativas em Angola e em Moçambique? É que há muito leitor inetressado…

Dado o tradicional défice de informação que há em Portugal sobre todos os assuntos relacionados com a língua portuguesa e sobretudo com os países de língua oficial portuguesa, lanço daqui um repto à imprensa para que formule algumas perguntas:

1- Por que motivo é que o protagonismo mediático na defesa da da estratégia da língua foi assumido pelo Ministro da Cultura, com vários depoimentos e entrevistas (Expresso, SIC Notícias, RTP, etc.)? Estranha-se porque o Instituto Camões depende do MNE e os meios do Ministério da Cultura são reconhecidamente fracos. Embora não falte habilidade retórica a José António Pinto Ribeiro (e talvez a explicação seja apenas essa), o seu protagonismo nesta área terá algum motivo político?

2 - Como será noticiada em Angola e em Moçambique a VII Cimeira da CPLP do próximo dia 25 de Julho, agora que parece adivinhar-se que o Presidente de Angola imitará o seu congénere moçambicano, enviando apenas ministros a representá-los?

3 - Como reage o MNE (e o Instituto Camões) ao anúncio de criação pelo Brasil dum instituto congénere (Instituto Machado de Assis)? Estará o governo português ciente da importante oportunidade criada por este avanço do governo brasileiro?

4 - Não poderia a CPLP ser responsabilizada por promover um melhor conhecimento mútuo entre os países membros? Quantas notícias sobre esses países é que aparecem nos noticiários em Portugal? Bem sei, há notícias sobre investimentos portugueses, visitas de políticos portugueses e catástrofes naturais. Mas e o resto? Um exemplo: alguém em Portugal fala nas próximas eleições legislativas em Moçambique, que serão já em Setembro? Alguém falou das reacções moçambicanas aos lamentáveis episódios no Zimbabwe?

5 - Não seria possível organizar na Internet um portal de consulta que reúna as melhores fontes de informação dos países da CPLP?

Aqui estão 5 perguntas. Nos próximos dias, até ao início da cimeira, haverá mais..

Nas últimas semanas tem-se assistido à intensificação do debate público sobre a língua portuguesa, devido principalmente à polémica em torno do acordo ortográfico (AO) e também à VII Cimeira da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) que se realizará no próximo dia 25 de Julho (sexta-feira). Entretanto, o governo português anunciou uma nova estratégia  para a língua portuguesa, assente em três medidas emblemáticas: refundação do Instituto Camões, para possibiltar a coordenação de todas as actividades relacionadas com a política da língua do Estado português; criação dum Fundo da Língua, com uma dotação inicial de 30 milhões de euros, para promover a expansão da língua portuguesa no mundo; relançamento do Instituto Internacional de Língua Portuguesa.

Entretanto, em relação à VII Cimeira da CPLP, os jornais destacam o facto de os Chefes de Estado de Angola e de Moçambique faltarem à reunião, facto que não pode deixar de ter uma leitura política. Quanto ao Brasil, também há novidades interessantes.

Seria do maior interesse para nós todos a imprensa portuguesa aproveitar a realização desta cimeira em Lisboa para nos dar mais informações sobre todos os países nossos parceiros na CPLP. Eu gostaria muito, por exemplo, de saber como é noticiada a cimeira em Angola e Moçambique. Gostaria muito, por exemplo, de saber o que se escreve sobre o AO em Cabo Verde e em S. Tomé e Príncipe, países que ratificaram o AO antes de nós. Gostaria mesmo de saber mais sobre o que se está a passar nesta área da maior importância estratégica para Portugal e para os outros parceiros da CPLP.

Erros crassos no DN

17 de Julho, 2008 por Miguel RM

Hoje escrevi o seguinte ao Provedor do Diário de Notícias

«Senhor Provedor do Diário de Notícias,
 
Na edição do passado dia 15 de Julho detectei um erro repetido em dois artigos:
 
- Airplus TV quer novo júri a avaliar propostas de TDT (página 56): no terceiro §, «classificação contestada pela AirplusTV (57 pontos), que alega “terem havido “irregularidades formais, patentes em todo o processo”»
 
- “Eu não pedi desculpa”, garante Baptista-Bastos (página 57): no quinto §, «Segundo o advogado do presidente (…) “Fico satisfeito com o desfecho deste caso, pois tratam-se de duas pessoas de bem”»
 
Este erro que consiste em ignorar que neste tipo de frases o sujeito é indeterminado, logo singular, é muito frequente, mas não esperava encontrá-lo repetidamente no DN, um jornal com tradições em matéria de revisão.
 
Os melhores cumprimentos,
 
Miguel RM (http://www.enxuto.org/
 

Existe desde Março (que distração a minha…) uma petição a favor do acordo ortográfico que explicita de forma clara aquilo que defendo em relação a este assunto. Embora seja muito avesso a assinar petições, que considero uma forma pobre de participação política, não hesitei em assinar esta. Também acrescentei aqui à direita nas ligações (links) o Movimento Internacional Lusófono e o blogue da revista Nova Águia.

ENXUTO vai melhorar

9 de Julho, 2008 por Miguel RM

Durante esta semana e a próxima irei gradualmente introduzir alguns melhoramentos. As ligações (links) aqui à direita passaram a estar indicadas por assunto, o que facilita a consulta. Espero vir a aprender algumas pequenas habilidades para melhorar o aspecto do blogue, por enquanto ainda um pouco árido.