Uma crónica saborosa de Paulo Varela Gomes sobre o “português” pedante
27 de Julho, 2010 por Miguel RMPaulo Varela Gomes publica semanalmente aos sábados no suplemento P2 do jornal “Público” crónicas sob o título genérico de “Cartas do Interior”. A de sábado passado continha um saboroso enumerado de “português” pedante. Aqui a transcrevo:
«Cartas do interior
Paulo Varela Gomes
24-07-10
E falar português, vai desejar?
Ora leiam, se fazem favor, a seguinte declaração de um militar da GNR a um dos telejornais de 2ª feira, 19 de Julho último a propósito de uma acção na qual participara: “Detivemos alguns indivíduos que se dedicam ao furto de estabelecimentos de venda de veículos velocípedes simples”. É uma pérola do português contemporâneo. Quer dizer que prenderam um grupo que assaltava lojas de bicicletas. Mas, é claro, da boca de um policia nunca podem sair vulgaridades como “assaltar” ou “bicicleta”. Eles falam policiês, um dos dialectos portugueses mais rebuscados que conheço. É até por isso que policias e jornalistas dizem “a autoridade tomou conta da ocorrência”, em vez de utilizarem uma expressão mais simples como, por exemplo, “chegaram os chuis”.
Mas não são só os polícias. Vejam os estudantes do ensino superior. Também falam rebuscado. Nenhum utiliza o verbo “ter”. Nenhum escreve uma frase como “a igreja tem uma abobada de pedra”, para citar um exemplo da minha área. Escrevem: “a igreja possui uma abobada de pedra”. Nem o verbo “fazer”: dizem “a igreja de S. Vicente de Fora foi elaborada por Baltazar Álvares”. Menos ainda o verbo “ser”: escrevem “constitui um projecto”. E nem pensar no verbo “pôr”: dizem “coloca-se o caixilho”.
Reparem também no modo como se eliminou pouco a pouco do português o verbo “querer” . Os empregados perguntam-nos nos restaurantes: “E café, vai desejar?”. “Querer” é aparentemente um acto demasiado assertivo para os portugueses, talvez até mal educado, tem-se um certo receio de querer ou de perguntar se alguém quer.
Os portugueses de hoje não querem, não são, não têm, não fazem. Desejam, constituem, possuem, elaboram. Só se exprimem verbalmente de duas maneiras: ou dizem ”eu não tenho palavras” ou mais valia que as não tivessem porque arrebitam a linguagem até ao ridículo.
A utilização saloia do inglês também é típica destes tempos: porque é que escrevemos “on line” quando não dava trabalho nenhum escrever “em linha”? Olhem em volta para os anúncios: ele é o “retail park”, o “express shopping”, as férias “low cost” (esta é particularmente significativa: nenhum português faz férias de “baixo custo” ou “baratas”; mesmo que as passem na Cova do Vapor, passam-nas em inglês).
A melhor explicação para esta substituição do português pelo imbecilês é o novo-riquismo. Durante décadas (séculos), a maioria dos portugueses não tinha qualquer hipótese de se exprimir em público, com excepção do círculo familiar. Agora, que essa hipótese existe constroem a linguagem como um parolo constrói a sua nova casa… e fazem idêntica figura de parvo.
Mas haja esperança: é bom sinal, por exemplo, que já estejam a desaparecer as bandas e cantores que cantavam em inglês. Nunca percebi se era o sonho de gravar o tal disco em Londres que lhes proporcionasse a fama mundial, se, como é mais provável, a incapacidade de escrever em português duas linhas que fizessem sentido.»
Nota final minha: gostaria de ter sido eu a escrever isto.