Artigo meu em “a folha” contra o militantismo aportuguesador
16 de Maio, 2013 por Miguel RMConforme prometido, aqui está o artigo que enviei para publicação em a folha. Ainda não está em linha, mas já foi publicado em papel, motivo pelo qual aqui o transcrevo na íntegra:
«O paradoxo do icebergue
Há muitos anos que me preocupo com a harmonização da toponímia estrangeira em língua portuguesa. Durante os anos em que trabalhei como tradutor na Comissão Europeia (CE) intervim frequentemente em decisões acerca de como designar países e cidades estrangeiros em língua portuguesa. Tendo participado em muitas das sucessivas listas de países que foram sendo publicadas pelas instituições europeias, devo esclarecer que sempre me causou impressão o entusiasmo de alguns colegas pelo aportuguesamento de nomes geográficos que os leitores de jornais e livros portugueses estavam habituados a ver grafados em línguas estrangeiras, mormente em inglês, mas também em francês (Nantes, Loire, Nancy, Seychelles), espanhol (Jaén, San Sebastían, Medellin) ou alemão (Frankfurt, Kiel, Würzburg, Rostock). Felizmente, a maior parte destes vocábulos aqui dados a título de exemplo escaparam à militância aportuguesadora, mas tal não foi o caso das Seychelles, passadas a Seicheles (ler-se-á “seichêles?). E Frankfurt não sei se escapou, pois havia no tempo em que eu trabalhei na CE alguns entusiastas de Francoforte (já eu sempre preferi Frankfurt, e quanto ao Franco… prefira-o fraco).
Aparentemente, pela leitura no último número de a folha do artigo “A revisão da lista de países do Código de Redação Interinstitucional”, a tendência aportuguesadora parece dominar actualmente entre os linguistas das instituições europeias, pelo menos entre aqueles que trabalham predominantemenete em terminologia. Não posso pois deixar de repetir aqui alguns dos argumentos contra o excesso de aportuguesamento que tentei defender em 25 anos de carreira na CE (artigo em a folha nº 18, em 2005, por exemplo) e que, pelos vistos, têm sido ignorados.
Quem quiser recordar os pressupostos teóricos dos aportuguesadores militantes, pode consultar o artigo “A revisão da lista do Código de Redação Interinstitucional” no boletim a folha nº 40 do Outono de 2012, nomeadamente os pontos II a) e b).
O meu ponto de partida é menos teórico e mais pragmático. Para explicar o meu ponto de vista, recorrerei sobretudo à minha visão acerca da experiência histórica de “importação” de topónimos estrangeiros no Brasil e em Portugal.
Comecemos por Portugal: ao contrário do que afirmam os autores do supracitado artigo, não é verdade que “até meados do século XX era comum afeiçoar topónimos estrangeiros à pronúncia efectiva e às tradições ortográficas do português”. Pelo contrário, sempre existiu uma tensão ideológica entre duas linhas da cultura portuguesa que se definiam pela sua postura perante as influências do exterior (castiços versus estrangeirados). Em épocas de exacerbamento nacionalista como foram os tempos finais da monarquia, em que os republicanos, na sua propaganda marcadamente nacionalista, usaram e abusaram dos mitos da História do nosso país), a República e o Estado Novo, havia de facto predominância intelectual dos chamados castiços que causaram grandes danos à língua portuguesa, nomeadamente na sua relação com o Brasil. O primeiro grande golpe dado na sintonia entre línguas de Portugal e do Brasil foi dado pela reforma ortográfica de 1911, logo no início do regime republicano, em que o governo português nem se deu ao trabalho de consultar o Brasil, embora naquele país houvesse uma Academia Brasileira de Letras desde o final do século XIX.
Embora o aportuguesamento fosse a tendência dominante, havia muitos intelectuais “estrangeirados” que usavam com grande à-vontade termos estrangeiros nos seus textos (basta pensar em Eça de Queiroz). Esta oscilação foi permanente desde o século XVI, primeiro mais em relação ao espanhol, depois mais em relação ao francês, modernamente mais em relação ao inglês.
No Brasil também existiu sempre esta oscilação, havendo inclusive uma clara demarcação entre autores mais citadinos, cosmopolitas e regionalistas, castiços. Foram os modernistas do século XX que resolveram esta questão com a sua defesa da antropofagia cultural, isto é, o embrasileiramento da influência cultural estrangeira (um exemplo característico, muitos anos mais tarde, é a influência do jazz na bossa nova). No Brasil existiu sempre uma tendência aportuguesadora de nomes estrangeiros bem mais forte do que em Portugal, o que se explica por ser um país menos aberto à influência exterior europeia (menos turismo, menos emigração, menos proximidade de Madrid, Paris e Londres). Assim, por exemplo, no Brasil escreve-se Iugoslávia, Madri e Moscu, aportuguesamento do francês Moscou. Como curiosidade para os meus leitores, mais um exemplo: um dos membros da Academia Mineira (Minas Gerais) de Letras chama-se Oiliam José, sendo o primeiro nome “aportuguesamento”…de William.
Pelo contrário, Portugal, embora seja um país periférico na Europa (ou por isso mesmo), sempre foi muito marcado culturalmente pela influência dos grandes centros europeus difusores de cultura, mesmo em épocas de maior fechamento político.
Passemos a exemplos práticos, por ordem alfabética, todos extraídos da lista em vigor actualmente nas instituições europeias: Abu Dabi, Baamas, Bangladeche, Bisqueque, Catar, Catmandu, Doa, Dublim, Erevã, Iaundé, Jamena, Listenstaine, Nuaquechote, Numéa, Pionguiangue, Pnom Pene, Porto Luís, Porto do Principe, Porto de São Pedro, Quigali, Quinxassa, Reiqueiavique, Santo Helério , São Dinis, Saraievo, Taline, Tasquente, Ulã Bator.
Há aqui nomes que dificilmente serão identificados, como a capital da ilha de Jersey (vá lá, não lhe tiraram o ipsilon): Saint Helier. Outros, como Listenstaine, são mesmo fruto de algum radicalismo aportuguesador, pois não existe nem mais uma língua europeia de alfabeto latino com grande dimensão internacional (como a portuguesa)em que o nome do país não seja escrito em alemão: Liechtenstein. Depois temos a perseguição aos K, W e Y, um perfeito anacronismo num tempo em que tais letras estão consagradas em Portugal pelo mais recente acordo ortográfico. Em todos estes casos, o que choca mais é a sensação de que existe uma vontade militante de ignorar anos e anos de habituação do leitor português com os termos estrangeiros: Abu Dhabi, Bahamas, Bangla Desh, Bichkeck, Katmandu, Doha, Dublin, Erevan, Yaoundé, N´Djamena, Liechtenstein, Nouakchott, Nouméa, Pyongyang, Phnom Penh, Port Louis, Port-au-Prince, Saint Peter Port (capital de Guernsey), Kigali, Kinshasa, Reykjavik, Saint Hellier, Saint-Denis (Reunião), Sarajevo, Tallinn, Tashkent, Ulan Bator.
Os meus colegas, no seu afã normalizador, ignorarão, por acaso, que muitos destes termos têm anos e anos de consagração em publicações portuguesas?
Os defensores do aportuguesamento à outrance usam frequentemente o argumento de que se impõe facilitar a escrita a pessoas que desconhecem línguas estrangeiras. Ora, em Portugal, precisamente, sempre houve proximidade com várias línguas estrangeiras (filmes e séries legendados e não dobrados, presença de muitos portugueses que nalguma época da sua vida foram emigrantes, importância do turismo). Acresce que, nos últimos tempos, o país introduziu o ensino obrigatório do inglês a crianças de tenra idade, pelo que se poderá facilmente pensar que daqui a poucos anos a maioria da população portuguesa será bilingue (inglês e português).
A actividade aportuguesadora dos meus colegas só pode ser explicada por um militantismo ideológico anti-cosmopolita. O caso do Liechtenstein (Listenstaine???) brada aos céus. Mas o grave nesta questão é que, aparentemente tem existido nos últimos anos uma política sistemática de aportuguesamento de termos que aparecem frequentemente grafados na imprensa portuguesa “à estrangeira”, como diriam os nossos aportuguesadores militantes. O último em que reparei foi o yuan, a moeda da República Popular da China (iuane, segundo os aportuguesadores). Esta miltância contra os nomes estrangeiros leva-me a colocar esta questão num plano mais grave, que é o da política pura e dura: em primeiro lugar, noto que os jornais de referência em Portugal não seguem a lista das instituições; em segundo, friso que isto acontece apesar da dita lista estar amplamente divulgada (por exemplo, na Wikipedia aparecem sistematicamente as sugestões da lista “europeia”).
Falemos então de política: a ausência de entidades reguladoras da língua em Portugal sempre colocou graves problemas aos tradutores portugueses das instituições europeias. A multiplicidade de fontes a consultar em Portugal para obter esclarecimentos em matérias terminológicas causa dificuldades constantes. Com o desenvolvimento dos meios informáticos, obviamente, a própria produção de textos das instituições passou a ser uma fonte amplamente reconhecida e divulgada. Esta nossa presença num meio já muito atomizado (o das fontes credíveis de normalização da língua portuguesa) deveria obrigar-nos a ser prudentes, optando frequentemente pelas soluções mais consensuais, evitando posições controversas. Pelo contrário, verifico que os meus colegas das instituições usam os (consideráveis) meios públicos postos à sua disposição pelos contribuintes europeus para levarem a cabo uma campanha ideologicamente marcada de aportuguesamento exagerado de nomes estrangeiros. Penso que esta questão não deveria ficar no plano de um debate meramente linguístico, por isso chamo a atenção dos meus compatriotas com responsabilidades políticas nas instituições europeias (nomeadamente o presidente da CE e os deputados do PE) para esta prática exageradamente aportuguesadora de nomes estrangeiros, que não é seguida em Portugal e que coloca as instituições europeias numa posição de “mais papista do que o papa”, muito prejudicial nesta fase em que tem crescido na opinião pública portuguesa um olhar mais crítico em relação às instituições europeias.
A História da língua portuguesa está cheia de palavras-cadáveres que alguns portuguesadores militantes do passado tentaram impor. Alguns casos: Arécio, Cambrígia, Cálhari, Danzigue, Oxónia, Liverpul, Nimega, Samora, Tolosa, Valhadolide. Felizmente, parece ter havido, ao longo dos tempos, alguma sensata resistência à fúria aportuguesadora. É claro que a discussão entre linguistas mais atentos às práticas usuais (o meu caso) ou mais empenhados no aportuguesamento de nomes estrangeiros nunca acabará, mas não foi por isso que quis chamar este assunto à baila. Foi por causa dos efeitos negativos que o aportuguesamento exagerado “vindo da Europa” poderá ter na opinião pública portuguesa.
Por último, expliquemos o título deste artigo. Quando se aportuguesou a palavra inglesa iceberg optou-se por acrescentar “ue” a berg no fim, mas não se aportuguesou o “ice” inicial. De facto, “aissebergue” pareceria, no mínimo, ridículo. Por que motivo se manteve “ice” que só em inglês é que se lê “aisse”? Para manter a proximidade com o vocábulo de partida. Ora aqui está um caso em que se que demonstra que, mesmo quando se aportuguesa, há que manter uma certa moderação. Moderação que também deveria ser seguida para evitarmos vocábulos ridiculos como “Bisqueque” (serão dois queques?), “Catar” (piolhos?), “Doa” (a quem doer?), “Tasquente” (ou ´tás frio?).
Um dos maiores problemas da língua portuguesa perante a omnipresença do inglês na vida pública é o facto de muitas vezes os “grandes defensores” da língua portuguesa serem os principais causadores da sua menor popularidade, nomeadamente entre os jovens. Qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo do ensino secundário em Portugal sabe como abundam os estudantes que são óptimos alunos em inglês e mediocres em português. Claro que os sucessivos ziguezagues experimentalistas do Ministério da Educação não têm ajudado nada, mas a solução não será certamente pugnarmos por uma língua portuguesa mais nacional, mais isolada, menos amiga da interacção com outras línguas. Por isso mesmo diria que a pretensão de acentuar o particularismo do português perante as outras línguas, de forçar a sua singularidade, de exagerar a sua casticez só nos poderá levar a ver diminuidos o seu prestígio e a sua utilidade internacionais.
(Miguel Magalhães, funcionário aposentado da Comissão Europeia – [email protected])»